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Correio Braziliense

Produtora Violeta Bara vem ao Brasil de olho no cinema independente do país

2019 começou para Violeta com um desafio novo: conhecer o cinema que é exibido na Mostra Tiradentes, o celeiro do filme autoral e experimental brasileiro


postado em 26/01/2019 06:30

Violeta Bava se sentiu atraída pelo experimentalismo do Festival de Tiradentes(foto: Leo Lara/Divulgação)
Violeta Bava se sentiu atraída pelo experimentalismo do Festival de Tiradentes (foto: Leo Lara/Divulgação)


Tiradentes (MG) —
A produtora argentina Violeta Bava é uma mulher do mundo. A função de curadora ou consultora para assuntos relacionados à produção cinematográfica da América Latina a tem levado anualmente a diversos festivais locais e internacionais, da Europa, como os de Roterdã, Locarno e Veneza, da Ásia — o mais recente deles é o de Macau, realizado em dezembro. O ano de 2019 começou para Violeta com um desafio novo: conhecer o cinema que é exibido na Mostra Tiradentes, o celeiro do filme autoral e experimental brasileiro.

Como de hábito, a 22ª edição do festival mineiro, que termina hoje, concentra o que há de melhor na produção independente nacional e, por ser o primeiro evento do calendário, aponta caminhos e discussões sobre o segmento. A programação deste ano, que concentra 108 títulos, entre longas e curtas-metragens, revela-se um desafio inspirador para Violeta, que anda pelas ruas de pedra da cidade histórica para se abastecer de imagens e encontros, úteis para o seu trabalho de “olheira” de eventos estrangeiros. “Curadoria não é só ver filme, é fazer contatos”, diz a argentina.


Entrevista / Violeta Bava

É a sua primeira vez em Tiradentes?
Sim. Já haviam me convidado várias vezes antes, mas as datas sempre coincidiam com compromissos no Festival de Roterdã, também em janeiro. Como este ano não tenho nada por lá, só irei ao Festival de Berlim, em fevereiro, fiquei livre para aceitar o convite da organização.

Como sua passagem por Tiradentes pode ser útil em seu trabalho junto aos festivais estrangeiros, ao longo do ano?
Como curadora ou conselheira, minha função é entender o que está sendo feito em termos de produção de filme e pensamento cinematográfico do país visitado. É um trabalho de investigação, conhecer e procurar entender os modelos narrativos dessas cinematografias e fazer contato com cineastas e produtores e seus projetos para ter um panorama da produção daquele país em um determinado momento.

Há a chance de algum filme de Tiradentes ganhar as telas de outros festivais do mundo?
A ideia é assistir ao maior número de longas e curtas possível aqui, conhecer o trabalho dos cineastas. A Mostra Tiradentes trabalha com uma linha editorial bastante específica. Então, é preciso ter em mente o perfil dos festivais ou plataformas com os quais eu me relaciono. Não daria, por exemplo, até por causa da distância do calendário, sugerir um filme daqui para o Festival de Veneza, em setembro, porque eles trabalham muito com premières mundiais. Mas vendo um trabalho interessante aqui, eu já fico atenta para o próximo projeto do cineasta.

Em que festival você conseguiria ver um filme exibido em Tiradentes?
Em termos de adequação no calendário, talvez seja o de Vision du Réel, em Nion, na Suíça, que é realizado em abril. É um festival de documentários que tem uma inclinação para o experimental, mas se eu encontrar um projeto interessante relacionado com a realidade, ou um híbrido, poderia convidá-lo. Mas também trabalho para outras plataformas de desenvolvimento de projetos, como Torino Film Lab, em Turim, na Itália, que trabalho com todos os aspectos do processo, do estético ou comercial. Mas, por maior que seja um festival, ele também está aberto à variedade, à surpresa, ao descobrimento. Então Tiradentes pode ser uma experiência muito produtiva, em termos de filmes e de relacionamentos.

O que há de mais característico na produção exibida em Tiradentes?
A produção é diversa, mas, se há um denominador comum entre os filmes a que assisti até agora, é o espírito da busca, da exploração. Vejo uma certa liberdade para pensar, de criar conceitos novos, que sempre é atraente. O resultado, às vezes, pode ser frustrante, mas valorizo muito a liberdade desses jovens cineastas, e isso tem a ver com a linha editorial da mostra mineira.

Vê algo semelhante acontecendo na Argentina?
Há uma produção forte e interessante nos últimos anos, com repercussão no público local e impacto internacional também. E não só em relação aos filmes mais comerciais, mas também às produções medianas e até mesmo independentes, que têm grande liberdade narrativa. A produção autoral argentina é constante nos últimos anos. Recebo indicações para acompanhar filmes independentes, até mesmo me oferecem links para vê-los. É um fenômeno que não vemos em outros países da região.

Produtores locais se queixam da baixa representatividade brasileira em Veneza, ao contrário do que acontece em Berlim e Cannes. Como vê a questão?
Em primeiro lugar, acho a comparação com festivais como Berlim e Cannes pouco válida, porque são eventos com uma grade muito vasta, com diversas mostras paralelas, que passa de centenas de títulos. A seleção de Veneza é bem mais limitada, raramente passa dos 60 filmes. Trabalho com eles desde 2012 e sempre procuro sugerir o maior número possível de filmes brasileiros nas diferentes sessões. Ano passado, exibimos um documentário sobre o Humberto Mauro, do André Di Mauro, por exemplo. Anos atrás, conseguimos exibir o trabalho de uma diretora estreante, Mate-me por favor, da Anita Rocha da Silveira. Para mim, é importante ter na programação de Veneza filmes não só da Argentina e do Brasil, mas de toda a América Latina. Mas chega um momento do processo de curadoria do qual eu não participo —  é a direção do festival que dá a decisão final. Há de se lembrar também de um fenômeno recente para o Brasil: a coprodução. O país esteve representado com Zama, dirigido pela argentina Lucrécia Martel, produção em que a participação brasileira foi fundamental.

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