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Correio Braziliense

Centenário de Campos de Carvalho é celebrado com livro em edição especial

Campos de Carvalho ocupava um lugar solitário no panorama da literatura brasileira; o lugar dos criadores realmente originais, ao lado de Clarice Lispector e de Hilda Hilst


postado em 26/01/2019 06:35

Campos de Carvalho: presença solitária e original no cenário da literatura brasileira (foto: Reprodução/Internet)
Campos de Carvalho: presença solitária e original no cenário da literatura brasileira (foto: Reprodução/Internet)


“Foi então que me vi numa gare extremamente vazia. Tão vazia que nem a minha sombra se refletia nela. Alguém, uma voz, me sussurrou ao ouvido: CAFARNAUM. Quando o trem desapareceu sob o túnel, senti de súbito que estava perdido: chamei-me pelo nome para sentir minha presença, em vão busquei o último cigarro sob o paletó; os trilhos, apenas os trilhos por todos os lados”. É assim que começa A chuva imóvel, uma das ficções mais densas e dramáticas do mineiro Campos de Carvalho (1916-1998), o autor dos clássicos modernos A Lua vem da Ásia, A vaca do nariz sutil e O púlcaro búlgaro.

A chuva imóvel ganhou uma edição especial com o padrão de qualidade e o esmero da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, comandada por José Salles Neto, com ilustrações primorosas de Maringelli. Essa edição especial celebra o centenário de nascimento de Campos de Carvalho, um dos mais importantes ficcionistas modernos.

(foto: CBB/Reprodução)
(foto: CBB/Reprodução)
Leitor de Nieztsche, de Céline e de Rimbaud, procurador do Ministério Público de São Paulo, mineiro de Uberaba, Campos de Carvalho ocupava um lugar solitário no panorama da literatura brasileira; o lugar dos criadores realmente originais, ao lado de Clarice Lispector e de Hilda Hilst. Com uma diferença crucial: o senso de humor implacável: “Aos 16 anos, matei meu professor de lógica. Invocando legítima defesa —  e qual defesa seria mais legítima? —  logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris”.

Presença solitária

O espírito anárquico de Campos de Carvalho incomodou a direita e a esquerda. Ele chegou também a publicar crônicas no estilo surreal da ficção em O Pasquim, na década de 1970, o período mais dramático do regime militar. O cronista Antonio Prata lembra, na apresentação, que um crítico reclamou do desrespeito contra a Bulgária e até mesmo o delirante cineasta baiano Glauber Rocha escreveu artigo no mesmo O Pasquim, espinafrando a suposta alienação do autor de A Lua vem da Ásia. É interessante que A chuva imóvel traz como epígrafe uma citação de Rimbaud: “Voici le temps des assassins” (Este é o tempo dos assassinos”).

Jorge Amado era um dos fãs de Campos de Carvalho e previu que ele “só seria compreendido pela juventude dali a 30 anos. “Não sabia que os 30 anos demoravam tanto”, comentou Campos de Carvalho a Antonio Prata, que evoca, ainda, um episódio revelador da imagem do escritor no final da década de 1990, numa sexta-feira santa, quando morreu. Somente três pessoas velaram seu corpo: “Para levar o caixão, tivemos que pedir ajuda ao motorista do rabecão que, como pedia a ocasião, não podia ter outro nome: Jesus”.

Se A Lua vem da Ásia, A vaca do nariz sutil ou O púlcaro búlgaro são perpassados de humor, A chuva imóvel se distingue pelo estilo dramático, embora com a mesma irreverência dos livros anteriores: “perdi o equilíbrio sem o qual nenhum edifício fica de pé, estas muletas apenas me escoram como um muro em ruínas, desabarei para a esquerda ou para direita, acabarei desabando até para cima: teria existido mesmo essa Clara na minha infância? Teria mesmo existido a minha infância?”

A chuva imóvel conta as peripécias e agruras de um personagem indefinido. Ele implode com a narrativa linear, que se pulveriza em milhares de fragmentos, entretanto, com certa unidade interna do tema. José Salles Neto, presidente-editor da Confraria dos Bibliófilos, escolheu A chuva imóvel por razões pragmáticas. Se encaixava no tamanho dos livros artesanais e era mais “ilustrável”. As ilustrações de Maringelli lembram o tom sombrio e dramático das criações de Oswaldo Goeldi nas obras de Dostoiésvki.

Mas é um Goeldi quebrado, fragmento e pulverizado como a escrita de Campos de Carvalho: “Raras vezes, as imagens do ilustrador se casaram tanto com as palavras do escritor”, comenta Salles. “O Antonio Prata mostrou para o pai dele, que é sobrinho do Campos de Carvalho, e ele comentou: ‘nunca vi nada igual’”

Para Salles, o estilo de Campos de Carvalho constitui um caso singular e nada parecido na literatura brasileira. É uma mistura desconcertante do erotismo de Bataille, do clima surrealista dos contos de Murilo Rubião e do senso de humor e do anarquismo radical do Arrabal da ficção Baal Babilônia: “Nenhum escritor fez isso no Brasil. A fantasia introspectiva é do abismo, realismo mágico, não é pitoresco. É sempre descendo e não subindo. Tudo dele parece sombrio. Daí que o ilustrador sempre foi sombrio. Os túneis estão lá dentro. É um cara totalmente sombrio. Você vai lendo, mas não sabe para onde aquela escrita vai te levar. É fragmentário, mas tem uma unidade interior. Não é como ler um romance de Machado de Assis ou Eça de Queiroz. O ideal é que se leia uma segunda vez para apreender melhor o sentido da fragmentação, que não é cerebral. É anárquica. Ele fragmenta, mas não estilhaça”.

Salles estranha o silêncio em torno da obra de um escritor tão talentoso. Saiu apenas por um curto período da terra natal, Uberaba, para morar em São Paulo. Mas retornou logo em seguida: “Ele faz parte daquele grupo de escritores que, por serem bons, sempre caem nas mãos de um editor, escritor ou de um jornalista perspicazes. Depois, voltam a hibernar. O povão vai ficando nos chavões. É um problema de educação. A tevê deveria fazer com Campos de Carvalho o que fez com a obra de Nelson Rodrigues. Ele é um grande escritor.”

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