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Correio Braziliense

Peça em cartaz na cidade aborda o abismo social com sensibilidade

O diretor de 'Aqui estamos com milhares de cães vindos do mar', Rodrigo Spina destaca a acessibilidade do espetáculo


postado em 27/01/2019 06:30

Espetáculo causa a sensação no espectador de estar assistindo a uma peça em preto e branco(foto: Valerie Mesquita/Divulgação)
Espetáculo causa a sensação no espectador de estar assistindo a uma peça em preto e branco (foto: Valerie Mesquita/Divulgação)

Quando Rodrigo Spina leu o texto que inspirou o espetáculo Aqui estamos com milhares de cães vindos do mar, do dramaturgo romeno Matei Visniec, ele riu em demasia, mas se calou bruscamente. Depois do episódio, não teve como não querer transformar o texto em peça. Após rodar o país, o espetáculo está em cartaz, neste domingo (26/1), em Brasília na Caixa Cultural para abordar o vazio existencial apresentado pela cia. de teatro Os Barulhentos.

O diretor do espetáculo, Rodrigo Spina, afirma que o palco é um espaço para fazer questionamentos. E é isso que Aqui estamos com milhares de cães vindos do mar traz, com um texto tragicômico. A peça, dividida em 14 cenas, evidencia as relações superficiais do mundo atual e, entre o ir e vir dos personagens, ela critica o vazio existencial em um cenário sem cores. “Essa peça tem várias cenas curtas e percebemos um limite entre elas. E a relação entre elas é de não ver, perceber e escutar o outro. A gente pegou essa figura como um fio condutor para o espetáculo todo”, detalha Spina.

O espetáculo também trata, de uma forma sensível, do abismo social pelo qual os personagens caminham, com o objetivo de provocar uma reflexão inquietante. Por exemplo, o Estado versus o cidadão, e o indivíduo versus sociedade, são um dos questionamentos expostos na peça, embora de uma maneira bem-humorada. Isso tudo porque o que o grupo de teatro Os Barulhentos encontrou eco na temática nos textos de Visniec. Segundo Rodrigo Spina, os assuntos que o autor romeno aborda são “tão analogamente brasileiros que é impressionante”.

Experiência empática

(foto: Valerie Mesquita/Divulgação)
(foto: Valerie Mesquita/Divulgação)

O mais significativo em Aqui estamos com milhares de cães vindos do mar é o detalhe de fazer a montagem sob a perspectiva de um personagem cego. A peça se inicia no escuro total, revelando a voz do personagem que guia a trama e sugere ao público a experiência de uma pessoa com deficiência visual. As luzes se acendem e tons de cinza, branco e preto cobrem todo palco. “Essa brincadeira no sentido estético e no sentido mais profundo a gente traz como um tema central do espetáculo”, explica o diretor.

O clima cinza só foi possível com a maquiagem dos atores, figurino, cenário e demais adereços para a montagem do espetáculo.“Muita gente fica meio chocada quando a luz do palco acende, como se achasse que a visão tinha mesmo ficado sem cor”, comenta o diretor. Segundo Spina, o espetáculo traz um caldeirão de assuntos com um impacto de realidade, além do estranhamento de uma peça de teatro que entra em cena como se fosse um filme preto e branco.

A peça conta ainda com sessões acessíveis para pessoas com deficiência visual. Spina comenta que, por meio da audiodescrição, cegos poderão ter a experiência de vislumbrar cenário, figurinos, expressões faciais, linguagem corporal, além de entrada e saída de personagens em cena.

As sessões com acessibilidade começaram em 2016 e, após essa experiência e com a estrutura para oferecer o serviço, o grupo Os Barulhentos levou a produção para Rio de Janeiro e Curitiba. “A gente teve uma reação muito bacana do público, tanto nas partes cômicas quanto nas trágicas. Eu estou muito curioso e ansioso para saber como o público de Brasília reagirá”, conclui Spina.


SERVIÇO

Aqui estamos com milhares de cães vindos do mar
Caixa Cultural Brasília (SBS Quadra 4 Lotes 3/4). Hoje, às 19h. Ingressos a R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada). Acesso para pessoas com deficiência e assentos especiais. Não recomendado para menores de 14 anos


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