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Correio Braziliense

Conheça nove artistas que atuam na música da cidade desde os anos 1960

Nomes como Dona Gracinha e Zé do Pife continuam na ativa e seguem encantando o público ou os amigos em shows profissionais e serestas amadoras


postado em 27/01/2019 06:45

Tião Rodrigues, Antônio Soares, Zé do Pife e Dona Gracinha
Tião Rodrigues, Antônio Soares, Zé do Pife e Dona Gracinha

 

Se hoje Brasília é considerada um celeiro de talentos na área musical, isso se deve, em parte, a cantores, compositores e instrumentistas originários de outras regiões do país que aqui se instalaram nos primórdios da capital. Vários deles deram importante contribuição para criar um caldo cultural com o tempero candango. A ancestralidade dessa manifestação artística tem na cidade representantes de diversos gêneros musicais, entre eles Arnoldo Velloso, Fernando Lopes, Antônio Soares, Josemir Barbosa, Zé do Pife, Dona Gracinha, Tião Rodrigues, Cácio Tavares e Ângela Regina. Todos, em plena maturidade, mantêm-se firmes no exercício do ofício, como profissionais ou amadoristicamente.

 

Arnoldo Velloso

Aos 90 anos recém-comemorados, esse consagrado neurocirurgião paraibano se destacou também por ter sido um pioneiro na propagação do choro em Brasília, em 1961.  Além de comandar a unidade de neurocirurgia no Hospital Distrital, passou a promover concorridas rodas de choro, nas tardes de sábado, em seu apartamento na 304 Sul. A frequência nesses encontros aumentou tempos depois, quando passou a ter como centro das atenções ninguém menos que Jacob do Bandolim, a quem Arnoldo Velloso tomou como paciente e hóspede, durante oito meses. “Chegamos a fazer gravações, mas o mais importante era ter aquele mestre do choro entre nós. Nunca deixei de tocar e, para manter a forma, atualmente vou ao encontro do violonista Fernando César em seu estúdio na Asa Norte”, diz.

 

Fernando Lopes

Artista pioneiro, Fernando Lopes, goiano de Piracanjuba, veio para Brasília em 1959, contratado para cantar na Rádio Nacional. Na emissora, participou de várias atrações e, como intérprete de bolero, era a atração do programa comandado por Meira Filho.  “Certa vez, o maestro Isack Kolman, que também era funcionário da rádio, me levou para cantar numa seresta. Ao chegar ao local, descobri que aquele sarau era no Catetinho, em torno de JK. Passei a fazer parte do grupo liderado pelo violonista Dilemando Reis, ao qual, eventualmente, se juntavam Sílvio Caldas e Elizeth Cardoso”, lembra. Aos 86 anos, embora tenha deixado de ser um profissional da música, Fernando solta o vozeirão em saraus na casa amigos e costuma dar canja nas rodas de samba e choro do No Grau, bar da QI 13 do Lago Norte.

 

Antônio Soares

Carioca de 81 anos, Antônio Soares tem o samba no sangue. Ao chegar à capital em 1962, como servidor do Ministério da Aeronáutica, depois de rápida passagem pela Alvorada e Ritmo, primeira escola de samba brasiliense, se juntou aos fundadores da Aruc. “Naquela época, ganhava uma grana extra cantando em boates da Cidade Livre, principalmente na Night and Day. Participei também de concursos de músicas de carnaval”. Soares compôs vários sambas-enredo para a Aruc, como Nordeste explode em festa, que levou a escola ao título em 1975. O cantor e compositor, que se mantém em atividade, tem feito marchinhas também para o tradicional Pacotão.

 

Josemir Barbosa, Ângela Regina, Arnoldo Velloso, Fernando Lopes e Cacio Tavares
Josemir Barbosa, Ângela Regina, Arnoldo Velloso, Fernando Lopes e Cacio Tavares
 

 

Josemir Barbosa

Há quase cinco décadas, os frequentadores de casas noturnas de Brasília têm privilégio de ouvir um dos últimos cantores de seresta em atividade no país. Em 1984, vindo do Rio de Janeiro, onde se tornou amigo de Sílvio Caldas, Tito Madi, Walescka e Sérgio Bitencourt, o pernambucano Josemir Barbosa começou a se apresentar no Glaucos (208 Sul), onde cumpriu longa temporada. Depois, passou pelo Mouraria, tambem naquela quadra, Antigamente e Churrascaria Laçador. Ao longo da carreira, o seresteiro lançou 18 discos. No mais recente, de 2018, ele fez uma viagem pelo universo feminino, interpretando canções que trazem nos títulos nomes de mulheres.  Aos 81 anos, Josemir mantém-se em plena atividade. “Em dezembro, interrompi uma longa jornada de 20 anos no bar do Bristol Hotel, mas não penso em parar. Logo, logo estarei trabalhando em outro lugar. Mesmo com a crise atual no setor, sempre haverá quem queira me ouvir cantar”, enfatiza.

 

Zé do Pife 

Um dos músicos de maior popularidade entre os universitários brasilienses é Francisco Gonçalo da Silva, o Zé do Pife. Aos 75 anos, o pernambucano de São José do Egito, morador de Sobradinho, ganha o pão de cada dia com a venda do instrumento que fabrica artesanalmente em vários pontos do Plano Piloto, principalmente na UnB. Ali, dando aulas informais, conheceu e se tornou amigo de alunas que se juntaram para formar o grupo As Juvelinas. Com elas, tem feito show em vários espaços da cidade e fora dos limites do Distrito Federal  e gravou dois discos.  “Essas meninas são como filhas para mim. Elas me tornaram conhecido em Brasília e em outras cidades. Hoje em dia, além do show que fazemos e dos discos que lançamos, temos levado a cultura popular para as pessoas em oficinas, coordenadas por elas”, destaca Zé.

 

Dona Gracinha

Maria Vieira da Silva, conhecida como Dona Gracinha, piauiense de Floriano, mesmo com a visão limitada e sem a perna direita, leva adiante a paixão pela música. Exímia acordeonista e com uma garra impressionante, participa de projetos e faz shows frequentemente.  No ano passado lançou o DVD Dona Gracinha da sanfona — Vida e obra (gravado no Teatro Newton Rossi do Sesc, em Ceilândia). Para esse projeto ela compôs músicas, como Carnaúba e Meu Piauí, interpretou Na pisada da sanfona, do maestro Fabiano Medeiros, e o clássico Assum preto, de Luiz Gonzaga. “Tem o registro da música que faço, de coisas da minha vida e tem a participação do sanfoneiro Sivuquinha e do Zé do Pife, dois amigos que tenho. Adoro fazer show com minha banda — Flávio Leão, Tiago de Paula e Gabriel Lourenço. Já dividi o palco com Elba Ramalho e Zeca Baleiro”, celebra a sanfoneira de 75 anos.

 

Tião Rodrigues

Violonista e guitarrista virtuoso, Tião Rodrigues, 70 anos, goiano de Silvânia, chegou a Brasília em 1967, ainda bem jovem, para tocar na banda de baile Raulino e Seus Big Boys. Deixou aquele conjunto para formar o SuperSom 2000 e depois Squema Seis — até hoje a principal referência nesse segmento. “À frente do Squema Seis, até 2002, vivi muitas alegrias. Me recordo de grandes momentos da banda. Além de incontáveis shows na capital, como o dos 21 anos de Brasília, abrindo para Gal Costa, tocando na Praça de Torre TV para 100 mil pessoas”, conta. Tião lembra ainda do LP e do CD do grupo, de composições autorais; e de o Squema Seis ter revelado para a música brasileira músicos, como o guitarrista Diego Figueiredo, o pianista Zé Antônio, o saxofonista Evaldo Robson. “Atualmente, me dedico à produção de discos e de shows fechados, toco em reuniões com amigos, e cultivo o orgulho de ter criado o Squema Seis”, afirma.

 

 

Cácio Tavares

Em 1966, a Jovem Guarda estava no auge quando, em Taguatinga, surgiu Os Geniais, banda formada pelos adolescentes Marquinhos (vocal), Mild (bateria), Lin (guitarra), Hélio (baixo) e Cácio (guitarra e backing vocal). Era naquela cidade onde aqueles jovens que amavam os Beatles, os Rolling Sttones e Roberto Carlos mais se apresentavam, mas eles também levaram o show ao DF. “Vivemos nosso grande momento ao abrir o show que Roberto Carlos fez no ainda inacabado Teatro Nacional. No final, recebemos elogios do baixista da banda do Roberto”, lembra o hoje advogado Cácio Tavares. Tempos depois, Cácio e Mild criaram a Boca de Sino, banda que se apresenta muito eventualmente. 

 

Ângela Regina 

Cantora com mais tempo no circuito de casas noturnas da capital, Ângela Regina vem de família musical. Ela tem como tio-avô Sinval Silva, autor de Adeus batucada, samba-canção com a qual Carmem Miranda se despediu do Brasil para radicar-se nos EUA. “Minha mãe Iaiana — já falecida — costumava dar canja nos meus shows. Tenho irmãos e sobrinhos instrumentistas”, frisa Ângela, que começou a cantar profissionalmente em 1978, no Odara, bar que existia na 405 Sul. Depois, ela passou por muitos outros, entre eles Chorão e Feitiço Mineiro. Fã de Elis Regina, intérprete de grandes compositores da MPB, Ângela lançou dois discos, em 1983 e em 2010, Com a música no sangue. Com 60 anos, ela continua atuante. A apresentação mais recente foi no Clube do Choro. “Me surpreende e fico feliz quando me deparo com cantoras da nova geração que vêm até a mim para dizer que sou referência para elas”, comemora.

 

 

 

 

 

  

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