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Correio Braziliense

Mulheres conciliam as profissões do dia a dia com a carreira artística

Elas continuam lutando pelo reconhecimento cultural, social e financeiro


postado em 28/01/2019 06:00

Vera Veronika, professora universitária e rapper(foto: Perfexx/Divulgação)
Vera Veronika, professora universitária e rapper (foto: Perfexx/Divulgação)
A desigualdade de gênero que permeia a sociedade desde sempre continua sendo um obstáculo não superado. Mulheres sofrem com menores salários, falta de oportunidade e reconhecimento, além de sub-representações no mundo político. Tal inferioridade afeta todos os setores de atuação e o mundo artístico não fica de fora. Fechando mais o espectro para a música feminina na capital federal, as dificuldades de vida se tornaram pauta recorrente nas letras e sons, que se unem às profissões diárias.

Com 26 anos de estrada, Vera Veronika é um dos exemplos de que o elo entre a música e a profissão se completam. Mulher negra e vinda da periferia, jogou-se no mundo do rap e das rimas e encontrou um ideal: a luta pelas causas sociais. Herdou, da mãe, a alcunha de feirante e acumulou graduações e um mestrado enquanto formanda em pedagogia. Marcada pelas letras que tratam de assuntos relacionados aos direitos humanos, Vera chegou ao ponto comum. Uniu a carreira artística com a vida de professora universitária.

“Sou a primeira mulher a cantar rap aqui no Distrito Federal. Foi isso que me levou a essa profissão e foi por meio da educação que eu pude abrir meus horizontes e melhorar minha música. Falo de direitos humanos, do empoderamento da mulher, violência e sobre o genocídio da juventude negra. São temáticas que precisam ser discutidas.”

Gabriela Tunes, servidora pública e flautista(foto: Vanessa Acioly /Divulgação)
Gabriela Tunes, servidora pública e flautista (foto: Vanessa Acioly /Divulgação)


Vivendo jornadas múltiplas a cada dia, Gabriela Tunes insistiu na carreira de flautista mesmo com todos os obstáculos que a vida impõe. Servidora pública da Câmara Legislativa, trabalhando na Comissão de Direitos Humanos e mãe de dois filhos, começou a tocar quando beirava os 30 anos de idade. E, mesmo com todos os empecilhos, conquistou o devido espaço no mundo musical.

“Infelizmente, a vida das mulheres é mais difícil. Na música, são pouquíssimas instrumentistas. Eu já ouvi muitos homens dizendo que mulher não tem pegada, não tem musicalidade. O machismo impõe uma ideia de nossa incapacidade e inferioridade para desempenhar certas atividades. Para conquistarmos nosso espaço digno, é necessário mudar essa mentalidade. Nos dias de hoje, é muito patente a desigualdade de gênero na música popular”, exclama a musicista.

Conexões


Na mesma passada, Cris Pereira, graduada e mestra em história pela Universidade de Brasília, pesquisadora e atuante na área de políticas públicas, é por espírito uma das bambas da cidade. Saiu do meio do canto coral para o mundo profissional do samba da cidade há 12 anos e acredita que a caminhada das profissões se unificaram.

Cris Pereira, historiadora e sambista(foto: Divulgação)
Cris Pereira, historiadora e sambista (foto: Divulgação)


“As duas profissões se fortalecem porque eu tento aproximar os dois universos. No mestrado, pesquisei sobre samba, sobre música e o pensar artístico. E a parte acadêmica me ajuda no desenvolvimento de projetos e também a pensar cultura, pensar na arte. O artista reflete sobre a própria obra”, conta a sambista.

Preocupada com a situação das políticas públicas no país, Cris espera que os avanços que estavam ocorrendo gradualmente continuem. “Nós temos — ou tínhamos  — alguns editais específicos, com mais vagas para mulheres, que são importantes para visibilizar a mulher na arte. Nós precisamos nos unir, porque sozinhas ainda está puxado.”


Escolhas


Quando falamos de rock e do instrumento bateria, dificilmente surge o nome de uma mulher, mas esse é o caso de Nathália Reinehr. A musicista buscou o salário fixo de servidora pública para poder desempenhar melhor a função musical.

Nathália Reinehr, servidora pública e baterista(foto: Arquivo pessoal)
Nathália Reinehr, servidora pública e baterista (foto: Arquivo pessoal)


“Antigamente, eu trabalhava somente com música e era a minha única fonte de renda. Estava sempre preocupada quando não tinha shows suficientes para pagar as contas. Agora, tenho um salário fixo e posso tocar somente o que quero, sem excessos, me dedicando melhor e sem perder a saúde.” Nathália é uma das criadoras do projeto chamado Hi Hat Girls, que promove oficinas gratuitas de bateria somente para mulheres. “O intuito do projeto é empoderar as meninas para que elas vejam que podem tocar, independentemente da idade. Muitas sempre quiseram aprender, mas nunca tiveram apoio da família. Quanto mais mulheres tocando, melhor”, explica a baterista.

Jô Alencar, cabeleireira e cantora(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
Jô Alencar, cabeleireira e cantora (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)


Cantando desde os 7 anos, com o apoio da família, Jô Alencar abraçou a música como uma paixão para se equilibrar na corda bamba da vida. A naturalidade que carrega como entusiasta da música popular brasileira no CD Brasilidades é a mesma que leva para dentro do salão de beleza todos os dias. A artista concilia o tempo entre as apresentações e as profissões de cabeleireira e maquiadora. “Tudo se completa. Primeiro, você tem que amar o que faz. Depois, muitas horas de estudo e trabalho para se colocar no mercado como um profissional de ponta. O reconhecimento e respeito vêm como resposta”, destaca Jô.

*Estagiário sob a supervisão de Igor Silveira

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