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Correio Braziliense

Compositor Noca da Portela ganha biografia escrita por Marcelo Braz

A história do artista é contada na biografia intitulada 'Noca da Portela e de todos os sambas'


postado em 28/01/2019 06:20

Noca da Portela trabalhou como feirante, apresentou programa de rádio e foi secretário da Cultura do Rio de Janeiro(foto: Luiz Ricardo/Divulgação)
Noca da Portela trabalhou como feirante, apresentou programa de rádio e foi secretário da Cultura do Rio de Janeiro (foto: Luiz Ricardo/Divulgação)

Osvaldo Alves Pereira, 86 anos, mineiro de Leopoldina e carioca por afinidade, é conhecido e aplaudido nacionalmente como Noca da Portela. Antes e mesmo depois de se tornar um cantor e compositor famoso, ele exerceu ofícios e funções diversos: foi feirante, militou no extinto Partido Comunista Brasileiro, apresentou programa de rádio e ocupou o cargo de secretário de Cultura do Rio de Janeiro. E é detentor dos títulos de comendador da ordem do Rio Branco e do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.

Mas a faceta que mais o distingue é a de sambista. Ligado à Portela desde 1966, com passagem anterior pela Paraíso de Tuiuti, Noca é autor de mais de 300 músicas, algumas feitas no âmbito de sua escola e para os blocos Barbas e Simpatia é Quase Amor. Outras foram gravadas por nomes consagrados da MPB como Paulinho da Viola, Seu Jorge, Beth Carvalho, Maria Bethânia. Entre os seus sucessos estão Caciqueando, É preciso muito amor, Mil reis, Portela Querida e Virada. Essa última se transformou em um dos hinos do movimento Diretas Já!

A trajetória desse celebrado artista é contada pelo professor Marcelo Braz na biografia intitulada Noca da Portela e de todos os sambas, de 494 página. Encartado, vem um CD com sete músicas, entre as quais Mineiro guerreiro, 7 a 1 ou 171, Partidão e Um canto de amor de verdade.

Paixão pela música


Professor da Escola de Serviço Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Braz organizou um curso chamado Samba e Questão Social. Ele explica que o livro faz parte da coleção de biografias dedicadas a tratar da vida e da obra de personalidades do samba e do carnaval cariocas — projeto de extensão da instituição. Pós-doutorado e em  economia pela Universidade de Lisboa, ele assina outra publicação, Samba, Cultura e Sociedade, que saiu em 2013.

O samba faz parte da vida de Braz desde a infância e a adolescência, vividas no bairro de Madureira, berço da Portela e da Império Serrano. “Meu saudoso pai, portelense, e minha mãe, imperiana, fizeram-me apaixonado por esse gênero musical. Mas minha relação com o samba vai além da paixão. Ele nos permite ‘ler’ o Brasil a partir de seus compositores, uma gente trabalhadora que é capaz de fazer arte a partir das dificuldades da vida”.

No processo de criação do Noca da Portela e de todos os sambas, o professor que estreia como biógrafo se valeu de pesquisa bibliográfica, consultas a sites especializados, entrevistas e depoimentos. “A biografia de Noca vai além da vida pessoal, pois assim podemos compreendê-lo de modo mais abrangente. Sua trajetória está inserida na história da cidade e dos lugares onde viveu e está compreendida na geografia do samba. Busquei fazer a junção dos traços pessoais da vida do compositor com aspectos econômicos, políticos, sociais e culturais de toda uma época histórica”.

Braz pôde perceber, nas entrevistas feitas com o biografado, que ele possui memória invejável. “Descobri em Noca uma pessoa de origem muito pobre, de trajetória marcada por dificuldades, que, como compositor, tem impressionante consciência de seu legado e do seu papel na sociedade, de denunciar as mazelas sociais do povo”.
 
(foto: Reprodução/Outras expressões)
(foto: Reprodução/Outras expressões)
Noca da Portela e de todos os sambas
Biografia escrita por Marcelo Braz com 494 páginas. Lançamento Outras Expressões. Preço sugerido R$ 40. Venda: site https://www.expressaopopular.com.br/loja/

» Entrevista / Noca da Portela


Quando começou sua relação com a música?
Eu me recordo que na infância, morando em Leopoldina (MG) ,ouvia muita música, até porque meu pai, Ernesto Domingos de Araújo, era professor de violão. Quando a família veio para o Rio de Janeiro, fomos morar no bairro do Catete e em nossa casa Seu Ernesto promovia reuniões com a participação de músicos cariocas. Eu ficava atento àqueles encontros. Adolescente, me aproximei de sambistas de Botafogo, como Walter Alfaiate, Niltinho Tristeza, Mauro Duarte, meu futuro parceiro, e Paulinho da Viola, que ainda era muito jovem, mas já compunha samba. À época, já fazia parte da Irmãos Unidos do Catete.

Quem lhe deu o apelido de Noca?
Foi o seguinte: meu pai, que havia sido feirante, foi trabalhar no Loyde Brasileiro. Ele era cabo de máquina. O navio era movido a lenha. Às vezes, ficava dois meses embarcadiço. Certa vez, numa viagem, passando por Aracaju (SE), fez refeições na pensão de Dona Noca. A minha mãe estava grávida e, quando ele voltou, eu havia nascido. Ao me ver, meu pai disse para minha mãe, Dona Feliciana, que eu tinha a cara de Noca, a tal dona da pensão. Aí, meus irmãos mais novos passaram a me chamar de Noca e o apelido pegou.

Com que idade compôs seu primeiro samba?
Minha primeira composição, aos 16 anos, foi um samba-enredo na Paraíso do Tuiuti, escola de samba do Morro do Tuiuti, em São Cristovão. O enredo tinha como título O Grito do Ipiranga — Independência ou morte.

Como a Portela entrou em sua vida?
Em 1966, deixei a Tuiuti e por recomendação de Paulinho da Viola passei a integrar a Ala de Compositores da Portela, onde, com  Colombo e Picolino, compus Portela querida, que foi gravado por Elza Soares se tornou o meu primeiro grande sucesso. Daí em diante, passei a compor mais, principalmente sambas-enredo. Com um deles, Gosto que me enrosco, a Portela ficou em segundo lugar no desfie das escolas em 1995, mas conquistei o Estandarte de Ouro, como melhor samba-enredo. Em 2015, compus o meu último samba-enredo na escola, Sou carioca, sou de Madureira. Depois disso, não quis mais participar do concurso.

O que o levou a tomar essa decisão?
Deixei de concorrer por não concordar com o que vem ocorrendo ultimamente. Hoje, no Rio de Janeiro, existe um escritório de samba-enredo.  Um deles, geralmente, é alguém ligado às escolas, para dar credibilidade, mesmo não sendo autor. Entre os “parceiros” há, por exemplo, quem banca a gravação, o que paga os ingressos para ter acesso a cada etapa do concurso e a cerveja consumida.

Não volta mais a participar dos concursos?
Com 53 anos de Portela, tenho um nome na escola. Não vou concorrer com quem não é compositor. Posso voltar a participar se o critério utilizado anteriormente voltar a prevalecer; ou seja, os autores da melodia e da letra têm de ser compositores, como antigamente, e o samba precisa ser moralizado.

Por conta disso, deixou de desfilar pela escola?
A escola está acima do bem e do mal. Jamais vou deixar de ser portelense e de sair na escola. Boto meu terno branco, minha camisa azul, meu chapéu e desfilo todo formoso no carro da Velha Guarda, com todo orgulho, pois me tornei imortal. Atualmente, tenho ido menos aos ensaios da Portela, pois prefiro não me encontrar com ‘compositores’ que não fazem música.

Tem feito muito show?
A agenda continua cheia de compromissos. Tenho me apresentado bastante em São Paulo, mas recebo convites de outras cidades. Já fui mais a Brasília, principalmente para shows no Feitiço Mineiro, quando o saudoso amigo Jorge Ferreira era vivo. A última vez que estive aí foi no ano passado e me apresentei na Aruc, onde estarei de volta em breve, para lançar a biografia, que, aliás, ficou excelente.

Socialista desde sempre, como vê o Brasil nos tempos de agora?
Como é sabido, fui filiado ao Partidão (Partido Comunista Brasileiro), levado por meu pai, quando tinha 26 anos. Saí depois que virou PPS, mas, obviamente, nunca deixei de ser socialista. Continuo achando que quem tem muito tem que dividir um pouco com quem não tem nada. Este é o preceito básico. Decepcionei-me com o resultado das eleições, mas como democrata respeitei o resultado. Só espero é que o novo governo não tome decisões que venham prejudicar o povo.

» Paulinho da Viola fala
“Quando gravei o samba Peregrino, na década de 1990, já conhecia e sabia da importância do autor para a história do samba no Rio de Janeiro, em especial para a Portela, escola à qual temos a honra de pertencer. Essa biografia faz juz ao talento do grande compositor Noca e à sua brilhante contribuição para a música do nosso país”. (texto publicado na contracapa do livro)

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