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Correio Braziliense

Filmes sobre reis e rainhas costumam marcar presença no Oscar

Este ano, não é diferente - 'A favorita' deslancha, com 10 indicações ao Oscar


postado em 30/01/2019 06:10

'A favorita': retrato da realeza em crise(foto: Fox Filmes/Divulgação)
'A favorita': retrato da realeza em crise (foto: Fox Filmes/Divulgação)

Empatado com o longa mexicano Roma, demarcando 10 indicações ao Oscar, o drama de alcova e de meandros do poder A favorita é o recordista no número de lembranças dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que vota o Oscar. A festa da premiação será realizada dia 24 de fevereiro mas, desde já, A favorita — que acumulou indicações importantes como as de melhor filme, melhor direção e de melhores atrizes (há três indicadas) — carrega uma carga de predileção, se levados em conta antecedentes históricos da premiação — quando o assunto é a performance do retrato da realeza no mundo cinematográfico.

Nome constante na lista das indicadas a melhor atriz, nos anos de 1930, Norma Shearer, com o ator Robert Morley, deu a partida no reconhecimento da Academia para o filão de registros históricos, pela indicação ao Oscar de Maria Antonieta (1937). Naquele filme, a direção de arte para filme de época já começava a ser firmado como lugar comum entre as indicações. Tal qual a desequilibrada personagem de A favorita, a inconstante rainha Anne (interpretada à perfeição por Olivia Colman), em As loucuras do rei George (1994), o ator Nigel Hawthorne (indicado ao Oscar) representou o personagem-título amado pela rainha Charlotte, personificada pela indicada ao Oscar Helen Mirren, que, viria a vencer a estatueta, justo por A rainha (em 2007).

Quatro anos depois da conquista, a atriz inglesa Helen Mirren veria o compatriota Colin Firth vencer, pela interpretação do hesitante monarca George VI, que teve parte da vida registrada no longa O discurso do rei (2011). Também inglês, o ator Charles Laughton, em 1933, deu a partida para a premiação com Oscar de filmes feitos fora de Hollywood, ao estrelar Os amores de Henrique VIII. Produção inglesa para um drama soviético (a derrocada da dinastia do czar Nicolau Románov), o longa Nicholas e Alexandra (1972) venceu Oscar nas categorias de cenografia e figurinos, tendo outras quatro indicações à estatueta.

'O discurso do rei': hesitante levou Oscar(foto: Paris Filmes/Divulgação)
'O discurso do rei': hesitante levou Oscar (foto: Paris Filmes/Divulgação)


Tamanha é a devoção de Hollywood aos retratos de soberanos que até a ficção envolvendo realeza chega a ser premiada, casos de A princesa e o plebeu e de Anastácia, a princesa esquecida, que rendeu prêmio dourado para as atrizes Audrey Hepburn e Ingrid Bergman, respectivamente. Outra ciranda de indicações e de prêmios Oscar cercam as atrizes Judi Dench e Cate Blanchett.

A primeira, para além da indicação por caracterizar a rainha Vitória em Sua majestade, Mrs. Brown (1998), venceu por Shakespeare apaixonado (1999), no papel da rainha Elizabeth I. Pelo mesmo papel, e no mesmo ano, Blanchett concorreu por Elizabeth, desempenhando a imagem da Rainha Virgem e voltou a ser candidata ao Oscar, por Elizabeth: a era de ouro (2008). Confira, nesta página, o reinado da monarquia no Oscar.

Duas rainhas
• Estreante em cinema, a diretora Josie Rourke (assistente de palco de adaptações teatrais para a tevê) coloca em lados opostos as personagens de Saoirse Ronan (Ladybird) e a indicada ao Bafta de melhor atriz coadjuvante Margot Robbie. O filme sobressaiu na lista de indicações do Oscar no quesito maquiagem e penteados, além de estar indicado na categoria de melhor figurino. Na fita, a rainha da Inglaterra Elizabeth I (Robbie) se desvencilha de uma tentativa de golpe da prima Mary Stuart (Ronan), numa recriação que tem por base um livro de John Guy e roteiro assinado por Beau Willimon (do longa de George Clooney Tudo pelo poder e de House of cards). Chegada à França, tendo por destino a Escócia, Mary, que ficou viúva aos 18 anos, com divisão entre protestantes e católicos, enfrentou a rivalidade da prima. Foi morta aos 44 anos, passados 20 anos de cativeiro ordenado por Elizabeth. Nas telas, a partir de 14 de fevereiro, Duas rainhas recria os dramas do longa de 1971 do diretor Charles Jarrott Mary Stuart, a rainha da Escócia,  estrelado por Vanessa Redgrave (candidata ao Oscar de atriz) e Glenda Jackson (que competiu com a colega, mas pelo filme Domingo maldito). Jarrott, com o filme, alcançou indicações para o Oscar de som, trilha sonora original, direção de arte e figurino.

(foto: 20th Century Fox/Divulgação)
(foto: 20th Century Fox/Divulgação)

Coração valente (1995) 
• No século 14, a independência da Escócia (depois da morte de um rei escocês, sem herdeiros) é encorajada por William Wallace, no retrato criado pela fita estrelada e dirigida por Mel Gibson. Baseada num poema de 12 mil versos do escritor cego Blind Harry, a produção foi filmada na Irlanda (com o inédito uso do Castelo de Trim, em cinema) e na Escócia, ao custo de US$ 70 milhões, o maior investimento em cinema de 1995, com 3000 figurantes. A trama real do herói que teve o corpo esquartejado, passado o confronto com o Rei Eduardo I (Patrick McGoohan), rendeu 10 indicações ao Oscar. Ganhou prêmios como melhor filme, diretor e maquiagem. Até a vitória na Batalha de Bannockburn, sob o comando do futuro rei Robert I, muito heroísmo (e algumas derrotas) estampam a tela.

Shakespeare apaixonado (1998)
• Numa época de prestígio, o produtor Harvey Weinstein esteve à frente do longa dirigido por John Madden em que se aventurou por uma biografia romanceada de Shakespeare. Com 13 indicações ao Oscar, faturou melhor filme (mesmo sem Oscar para o diretor Madden), roteiro, direção de arte e figurinos. Defendendo personagem que nunca existiu, Viola, Gweneth Paltrow levou o Oscar de atriz, musa do bardo para a criação de Romeu e Julieta. Também premiada, a coadjuvante Judi Dench, por menos de oito minutos na tela, viveu a Rainha Elizabeth I. No filme, um bloqueio mental atinge Shakespeare, na criação da nova peça, na Inglaterra de 1593, em que os grupos de teatro do The Curtain e do The Rose disputavam o público. O castelo de Broughton (Inglaterra) serviu de locação.

O homem que não vendeu sua alma (1966) 
• Baseada numa peça de teatro assinada por Robert Bolt, a trama é centrada em 1528, colocando em primeiro plano o embate entre o extravagante rei Henrique VIII (Robert Shaw) e o chanceler católico romano Thomas More (o vencedor do Tony e do Oscar Paul Scofield). A ruptura religiosa, com a fundação da Igreja Anglicana, o declínio do casamento do monarca e de Catarina de Aragão, com vistas ao desposar de Ana Bolena (Vanessa Redgrave), julgamentos e traições movimentam o longa de Fred Zinnemann (melhor diretor, pela Academia). No Bafta, a fita faturou , fotografia, direção de arte e figurino. Obteve, no Oscar, oito indicações, tendo vencido seis, entre os quais os de melhor filme, roteiro adaptado, fotografia e figurino.

• Entre os atores mais indicados ao Oscar, Laurence Olivier esteve à frente de peculiaridades como a de ser o primeiro ator a ganhar um Oscar dirigindo a si mesmo (em 1948, por Hamlet). Primeira produção não americana premiada como melhor filme, Hamlet mostra o tormento do príncipe, pela morte do seu pai, o rei da Dinamarca (assassinado). “Nunca se fez a peça tão bem”, observou a severa crítica Pauline Kael, sobre o longa que venceu o Globo de Ouro de filme estrangeiro e ainda foi premiado no Festival de Veneza. Vencedor de um Oscar especial, em 1947, pela interpretação de Henrique V (e ainda por direção e produção que assinou), Olivier inspirou o jovem Kenneth Branagh — num revival de temas e de indicações ao Oscar — passados 42 anos do filme original, em 1989. Por uma interpretação de monarca atuante em meados do século 15, Olivier ainda ganhou indicação ao Oscar, pela personificação de Ricardo III (1956), filme sobre o rei de aspecto monstruoso que passou na tevê, antes mesmo de chegar às telas de cinema. Naquele ano, Olivier foi derrotado pelo russo Yul Brynner, coroado por encarnar o Rei do Sião (hoje, Tailândia), no celebrado musical da Broadway O rei e eu.

Haja Henrique
•  Soberano interpretado na tela por Charles Laughton, em Os amores de Henrique VIII, no primeiro caso de Oscar para um ator fora do esquema de Hollywood, ainda em formação, em 1934, Henrique VIII teve interpretação (e rendeu candidatura de Oscar) de Richard Burton em Ana dos mil dias (1970), dono de 10 indicações, mas vitorioso no quesito figurino. Na trama, Ana Bolena (Geneviève Bujold, indicada a melhor atriz) é pivô para a separação de Henrique com Catarina de Aragão, uma vez que ele fica indisposto por não ter os filhos homens de que necessita para assegurar a dinastia. Outro Henrique — no caso, o II — ganhou duas versões, sob o talento da interpretação de Peter O´Toole. Em Becket, o favorito do rei (1964), a partir de peça de Jean Anouilh, Henrique II iça à condição de arcebispo de Canterbury, o conselheiro Becket (Burton), intrigado com a intensificação de suas crenças religiosas, ainda que muito atrelado ao mundano modo de vida da corte. Entre as sete indicações ao Oscar, a recordista de prêmios da Academia Katharine Hepburn venceu prêmio de melhor atriz por interpretar a reclusa mulher do rei Henrique II (O´Toole), na trama de O leão no inverno (1968)  que explora os meandros da sucessão real e as intrigas brotadas entre três filhos do casal.

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