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Correio Braziliense

Artistas LGBT+ usam a arte como espaço para refletir diversidade na cena

Nomes como Moara, Natália Carreira e Tatiana Nascimento fazem isso no cenário musical brasiliense


postado em 30/01/2019 06:15

Moara: ao lado de grandes nomes da música popular brasileira, concorrendo a prêmio(foto: Thaís Mallon/Divulgação)
Moara: ao lado de grandes nomes da música popular brasileira, concorrendo a prêmio (foto: Thaís Mallon/Divulgação)

O cenário artístico brasiliense floresce com diferentes iniciativas e projetos que contemplam os mais diversos públicos. A inauguração de novos espaços, como os complexos culturais de Planaltina e Samambaia (abertos no fim do ano passado), incentivam o fomento de atividades de iniciativa popular. Festivais saem cada vez mais do eixo Plano Piloto em direção às outras RAs do DF para alcançarem o público que nelas habitam.

Neste contexto, o cenário musical LGBT+ se reafirma com nomes atuantes e reconhecidos. A cantora Moara, por exemplo, teve o EP de estreia, Peito aberto, indicado ao lado de grandes nomes como Gal Gosta, Elza Soares, Djavan e Karol Conka no Guia Folha, do jornal Folha de S. Paulo. A jovem cantora e compositora Natália Carreira percorreu em 2018 diferentes estados e participou de festivais como o Bananada, em Goiânia.

Cria de família musicada, como ela mesma diz, Tatiana Nascimento era atuante na literatura com seus poemas antes de começar a cantar. “Sair do armário como cantora foi possível por eu ter saído do armário por conta da poesia falada”, ela explica. “Gosto de me pensar como uma artista da palavra - falada, cantada, até porque as coisas estão bem juntas para mim enquanto expressão”. A estreia como cantora ocorreu em 2016, depois de ter conseguido encontrar ‘um espaço para minha própria voz cantada’. Ela trabalha agora na gravação do primeiro EP, Brio breu, com produção de Zé Balbino, de Salvador.

Tatiana foi uma das mentes por trás do Quanta!, iniciativa que busca reconhecer mulheres artistas LBT da cidade com música, poesia e performance. Semestralmente, o circuito se materializa em um festival independente que teve a segunda edição em dezembro passado. “Tanto nas mostras regulares quanto nos festivais, a proposta é visibilizar o trabalho artístico autoral”, explica a poeta. “Tive a ideia enquanto notava a abundância de produções, produtoras mulheres, muitas LBTs, com simultaneamente pouco espaço para afirmação da lesbiandade, da bissexualidade, das transexualidades, da não binariedade”

De uma atividade para desestressar durante a época de vestibular, surgiu a paixão com o canto para Moara: “Foi em uma oficina de três meses que fiz na Escola de Música quando estava prestando vestibular para a UnB. Era algo que aliava a tensão na época. Inicialmente, era um hobbie e foi tomando proporções maiores até se tornar tudo”, ela brinca. Sete anos depois, ela tem o EP Peito aberto lançado, com músicas autorais, e novos trabalhos com previsão de lançamento para 2019.

“O EP foi bem demorado para sair do papel, mas quando ele começou a ser feito foi muito urgente”, Moara relembra. “O processo todo foi muito intenso, estávamos numa época complicada, logo depois que Marielle morreu. É tensão que se mantém até hoje, eu a homenageio nos meus shows”. Para a artista, o movimento LGBT tem crescido e se autoafirmado mais, como acontecia bem menos no passado. “Existiam cantoras que você sabia a realidade delas, mas que direcionavam as músicas para o público masculino. Como exemplo a Ana Carolina, a própria Cássia Eller.”

Foi o sucesso da faixa Geminiana nas redes sociais que fez Nátalia Carreira começar a pensar de maneira mais séria na arte que fazia. No fim de 2017, ela lançou o primeiro EP, Pertencer. “Antes disso, eu apenas compunha no meu quarto, e tocava vez ou outra uns covers em algum café”, relembra. Marca registrada da nova geração da música, ela não deixa de estar presente nas redes e levantar debates que considera importantes. “Recebo muitas mensagens e tento conversar um pouco com todo mundo, no Twitter tudo fica mais fácil e informal”, ela ressalta.

Somos muitos


No fim do ano passado, Natália compôs a faixa Somos muitos, sobre o cenário político controverso do país e resistência por parte da comunidade LGBT . A música tornou-se um projeto com vídeo lançado no começo de 2019 e participação de outras mulheres. “Ficamos com um time muito lindo, composto por mim, Moara, Ayla (da banda YPU), Ária Rita, Gabriela Ila (da banda Aiure), Gaivota Naves (da banda Joe Silhueta) e a Indiara Ferraz, que deixou tudo mais bonito com a interpretação em libras.”


Conquista de espaço


Para as três artistas, o cenário artístico LGBT no DF é diverso e bem representado. “Diversidade e potência no falar, discurso muito bem alinhado”, ressalta Moara. “A expressão artística é, por si só, um movimento político. Por que não ser linha de frente quando se tem mais visibilidade? Ter opinião, demonstrá-la e não se alienar é muito presente em mim, impossível se dissociar disso na minha arte.”

Para Natália, o cenário está em constante crescimento e batalhar por mais espaço é essencial: “É importante enaltecer os trabalhos das nossas colegas, nos juntarmos e fazermos projetos que venham com força e deem visibilidade e reconhecimento pra tantos trabalhos maravilhosos”.

Tatiana Nascimento: da poesia falada para a palavra cantada(foto: Arquivo Pessoal)
Tatiana Nascimento: da poesia falada para a palavra cantada (foto: Arquivo Pessoal)


Tatiana não acredita em políticas representativas e, apesar de otimista, relata uma visão realista. “A real é que mesmo esse ‘bastante’ é muito aquém de quem/quantos somos”, ela explica. “Ainda é bastante elitizado, ainda é plano-pilotista, ainda é embranquecido; mas sempre nutro a esperança de que quanto mais fazemos, mais espelhos criamos pra que mais pessoas façam”


Aperte o play na diversidade


• Vera Verônika, rapper
• Rosa Luz, rapper
• Moara, MPB
• Raquel Reis, MPB
• Natália Carreira, folk
• Beatriz Águida, MPB pop rock
• Ellen Oléria, MPB

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