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Correio Braziliense

José Sóter mantém editora artesanal que resgata nomes da literatura local

Escritor brasiliense, integrante da geração mimeógrafo, também lança autores da cidade


postado em 31/01/2019 07:57 / atualizado em 31/01/2019 07:57

José Sóter: 'Comecei a publicar livros meus e de amigos no mimeógrafo da escola onde lecionava. Depois, adquiri um mimeógrafo a tinta usado e criei o selo Semim Sóter Edições Mimeográficas'(foto: Ed Alves/Esp. CB/D.A Press)
José Sóter: 'Comecei a publicar livros meus e de amigos no mimeógrafo da escola onde lecionava. Depois, adquiri um mimeógrafo a tinta usado e criei o selo Semim Sóter Edições Mimeográficas' (foto: Ed Alves/Esp. CB/D.A Press)

 
O ano era 1977, tropas militares invadiram a Universidade de Brasília (UnB), prenderam estudantes e intimaram professores e funcionários. Naquele mesmo ano, a escritora Rachel de Queiroz era eleita a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras. Jorge Amado lançava o romance Tieta do Agreste, uma obra icônica do escritor baiano. A cultura de Brasília fervia em bares, escolas, faculdades e  eventos embrionários, como o Concerto Cabeças. Foi nessa época que o goiano de Catalão, nascido em 1953, José Luiz do Nascimento Sóter chegou à capital. Poeta “desde sempre”, José Sóter participou ativamente da cena literária candanga, fazia parte de uma tribo que se espalhava pelas cidades do país: a poesia marginal (marginal em vários sentidos, principalmente o de existir à margem da literatura canônica, aquela ungida pela intelectualidade do momento). É daí a geração mimeógrafo. Em que jovens tinham como arma um mimeógrafo  e, como munição, a poesia.

“Comecei a publicar livros meus e de amigos no mimeógrafo da escola onde lecionava. Depois, adquiri um mimeógrafo a tinta usado e criei o selo Semim Sóter Edições Mimeográficas. Não parei mais”, destaca o escritor, que leva à frente o estandarte libertário da poesia pelas quebradas do Distrito Federal. Professor de técnicas agrícolas aposentado da Secretaria de Educação, lembra ao repórter que, antes de se mudar definitivamente para a capital, morou em Taguatinga, em 1969. Entre “livrins” mimeografados e outros, publicou 15 títulos, todos de poemas, como Navegante ao léu (2011), com arte do artista plástico Zé Nobre.


Artesanal
O mimeógrafo é um equipamento que produz cópias a partir de matriz perfurada (estêncil) afixada em torno de pequena bobina de entintamento interno e acionada por tração manual ou mecânica.



POEMAS

A nova mulher

quando chegar o seu tempo
de vida nova nas mãos
ela vai voar
para lugar distante
pois o seu horizonte
está por descortinar-se
e a sua vontade de mundo
não está satisfeita
as crias que a vida lhe der
serão páginas da história
que ainda está a escrever
e... quem participar dela
será apenas margem
de sua caminhada.

As havaianas dela

as sandálias havaianas
brancas com adereços de pavão
jazem no canto do banheiro
a lembrar a ausência dos pés
que a conduziriam até mim
olho-as cotidianamente ao banhar-me
e um holograma sempre se faz sobre
elas
“como um lençol branco
sobre móveis em imóveis abandonados”
ou... sobre o meu coração


Do livro Navegante ao léu (2011)


Entrevista /  José Sóter


Você faz parte da famosa geração mimeógrafo de Brasília. Como surgiu esse movimento? 
Sim. Em 1977, ao chegar a Brasília, conheci o Nicolas Behr. Eu também era amigo de Paulo Tovar — morei na casa dele algum tempo. Um dia, Nicolas apareceu com alguns livrinhos mimeografados, muito entusiasmado e me chamou pra irmos vender alguns exemplares no Beirute. Era o Iogurte com farinha. Gostamos muito da experiência e resolvemos publicar nossos livros também. O Paulo Tovar resolveu fazer uma pesquisa numa feira livre para definir a linguagem que usaria. Daí surgiu o livro dele, A feira. Eu, em seguida, imprimi Início e fim, que não tinha pretensão de chegar ao segundo título. Nicolas tinha o seu próprio meio de produção e, em 1978, após assumir vaga de professor na extinta FEDF (atual Secretaria de Educação), por acaso, encontrei um mimeógrafo usado e resolvi comprar para imprimir os livros da rapaziada, que já estavam pipocando por todo lado. A partir daí, são várias e longas histórias. A conjuntura política da época favoreceu aos que queriam se expressar, que aderiram de imediato e o movimento surgiu espontaneamente.


Em tempos de ditadura, era difícil se expressar pelas ruas. Como vocês se reuniam? Botecos e saraus?
A gente não mudou nossa rotina: os locais de reuniões/encontros eram sempre nos botecos do momento e nas festas que rolavam. O primeiro sarau de que tenho conhecimento foi uma atividade dos Grupo Lira Pau Brasília, criado para falar poesias nas escolas públicas da cidade, mais especificamente no Setor Leste, L2 Sul, onde eu lecionava e dirigia o teatro e a biblioteca. Daí, ocupamos a programação do Concerto Cabeças e outras escolas.


Se hoje publicar um livro é difícil, imagine naquela época. As obras eram produzidas com que grana?
É verdade. Mas o pessoal arranjava o material, tomava um mimeógrafo emprestado ou pedia em alguma mecanografia de órgão público, e a produção saía sempre de forma colaborativa. Eu, por exemplo, não cobrava pra imprimir no meu mimeógrafo, só o material usado.


A poesia brasiliense tem uma cara, tipo “concreto e nuvem”, ou carrega o DNA das várias regiões do país?
Acredito leigamente que a poesia de Brasília é como o sotaque brasiliense, não dá para se identificar e, muitas vezes, identifica-se influências de múltiplas regiões. A principal característica é justamente a convivência fraterna de várias vertentes poéticas sem qualquer preconceito. Sinto que as pessoas escrevem pelo prazer de escrever e, muitas vezes, nem publicam.

Você conviveu com grandes nomes da literatura local, com Cassiano Nunes, Tovar, Francisco Morojó (o Pezão). Fale um pouco desse pessoal e de outros que marcaram a cidade.
Grande Cassiano! Ele era o acadêmico mais próximo da marginalidade literária. Morei uns tempos no interior norte de Goiás, onde convivia com índios, garimpeiros, agricultores... e, um dia, o encontrei no Beirute. Disse a ele que a vanguarda da cultura brasileira, na verdade, existia no interior do país, não nas metrópoles e na costa, pois a brasilidade era preservada e as influências estrangeiras demoravam a chegar até lá. Sei que depois ele escreveu um poema falando desse tema. O Paulo Tovar era meu amigo de adolescência em Catalão (GO). Quando vim para Brasília, fiquei hospedado no apartamento da mãe dele até assumir o cargo de professor na FEDF. Ele era inquieto e muito exigente na música que criava. Assisti a ele e ao Aldo Justo criarem a canção clássica de Brasília Juriti. Só nós três no quarto e eu, embasbacado, assistido ao diálogo musical dos dois. Foi fundamental para que eu tomasse a decisão de me envolver com a publicação de livros, meus e dos amigos. O Pezão era um anjo torto. Sempre o encontrava nas imediações do Conic com as roupas que ele mesmo criava e costurava. Carregava seus “livrins”, tinha um intitulado Ressaca da nossa ditadura militar, que era de um anarquismo visceral. Merece ser lembrado.

A vocação cultural da capital pode ser medida pela quantidade (e diversidade) de poetas contemporâneos. Do rap ao repente. O que falta ara que esses escritores tenham mais visibilidade?
Acho visibilidade muito relativo. Temos uma geração de poetas e escritores que estão em verdadeira ebulição. E o que é importante, buscam referencias na própria história local. Bebem no espírito libertário da literatura dos primeiros anos da cidade-estado. E hoje temos nomes que navegam nas vibes nacionais. Mas acho que é primordial essa relação intensa e interna com nossa própria história, com nossos espaços de convivência. Adoro ler, por exemplo, as “crônicas poéticas” do Vicente Sá, que se passam na Asa Norte.


Você criou uma editora, a Semim, que republica livros de poetas brasilienses lançados nas décadas de 1970 a 1980. Qual a importância desse resgate poético?
(Risos) Primeiro, o que é Semim? É Sóter Edições Mimeográficas. E ficou Semim porque eu dizia para quem me procurava para imprimir seu livrim: “O primeiro eu faço. Os outros façam sem mim.” Daí, brincando com essas palavras virou Sóter Edições Mimeográficas. Agora, o resgate de publicações das décadas 1970 e 1980 (como o livros de Nicolas Behr e de Climério Ferreira) surgiu por causa do constante interesse que senti em pessoas que se desdobram para pesquisar e reverenciar esse período da poesia candanga. Acredito que seja importante essa nova geração ter contato direto com a linguagem e os formatos utilizados pelos poetas pioneiros. A diversidade foi e continua sendo essa referência: atitude, formas e linguagem.


Qual a importância da poesia para os dias de hoje, em que as pessoas estão embrutecidas e intolerantes?
Acho que a poesia sempre salva. Mesmo acreditando que ela não sirva para nada (risos). Mesmo os brutos, intolerantes e boçais que saíram do armário por obra das redes sociais, sempre se agarram em uma ou outra poesia para se descompensar. A poesia nos aproxima da utopia.

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