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Correio Braziliense

'Roma' impressiona por dez indicações ao Oscar, incluindo o de Melhor Filme

O filme de Cuarón é igualmente autobiográfico. Uma autobiografia no mínimo inusual, visto que o diretor faz de Cléo a protagonista.


postado em 02/02/2019 06:30

O filme traça um panorama do bairro e da cidade onde o diretor Alfonso Cuarón nasceu(foto: Divulgação/Facebook)
O filme traça um panorama do bairro e da cidade onde o diretor Alfonso Cuarón nasceu (foto: Divulgação/Facebook)
Não fosse o balaio de indicações ao prêmio da Academia de Hollywood, Roma já surpreenderia por estar presente simultaneamente, não só na categoria principal do troféu concedido pelos profissionais de cinema norte-americanos, como também na categoria de Melhor filme Estrangeiro, o que seria (dada à natureza do laurel) o seu lugar natural. Lembramos que a obra de Cuarón é uma produção não falada em inglês, rodada em preto-e-branco e dirigida por um mexicano!

Tudo bem, o diretor não é um outsider para as majors do país. Realizou nos EUA Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban, Gravidade, entre outros. Mas o que encanta e assombra, ao mesmo tempo, é o fato de Roma ser profundamente latino-americano em sua essência, parcialmente em sua estética, fundamentalmente nas questões que levanta. Essas questões explícitas ou sugeridas não são de forma alguma facilmente compreendidas por um público alheio ao continente e ao México especificamente.

O Roma do título se refere ao bairro Colônia Roma da capital mexicana e não à capital italiana como se poderia supor a princípio se lêssemos superficialmente apenas o anúncio do filme nas páginas dos jornais. De qualquer maneira, Cuarón pode mesmo ter pensado no clássico de Fellini, já que, assim como o diretor italiano pensou em fazer uma obra que expressasse sua visão da cidade que tanto amava, ele igualmente procura traçar um panorama do bairro e da cidade em que nasceu e cresceu. E vai além. Cuarón fala indiretamente do seu país, o México, numa circunstância histórica e política bem específica.

Mas não é de todo inverossímil nem descabida a relação que podemos fazer com Fellini. O refinamento e esplendor estético em ambos, por exemplo e ainda, mais especificamente, a cena do engarrafamento no túnel, com Cléo no carro sendo levada para o hospital para ter o seu bebê. Essa passagem claramente alude à idêntica cena inicial de 8¹/², obra parcialmente autobiográfica do diretor italiano.

O filme de Cuarón é igualmente autobiográfico. Uma autobiografia no mínimo inusual, visto que o diretor faz de Cléo a protagonista. Cuarón aparece representado apenas secundariamente como uma das quatro crianças da família. Cleo domina a cena. Vivida pela excepcional atriz não profissional Yalitza Aparicio, ela interpreta Liboria Rodríguez, a Libo, a verdadeira babá de Cuarón. Aos 75 anos, Libo ainda vive com familiares do diretor. Roma é uma homenagem a ela. Foi construído a partir das memórias dela e de Yalitza, ambas indígenas descendentes do povo Mixteca.

O diretor Alfonso Cuarón (foto: Robyn Beck/ AFP )
O diretor Alfonso Cuarón (foto: Robyn Beck/ AFP )


No filme, Cleo e a outra criada indígena da casa se comunicam no dialeto “otomanque” de sua etnia. Cuarón trata Libo, através de Cleo, com carinho e afeto. É um acerto de contas com “aquela que dava carinho a todos”, ele declarou. Questões envolvendo a relação entre classes sociais estarão presentes de diversas maneiras no filme, sagazmente e longe do contexto da família a qual Cleo serve. Roma é um filme de mulheres, mais ou menos semelhante à forma utilizada frequentemente pelo japonês Mizogushi. Em Roma, são as mulheres (patroa, avó e Cleo) que seguram as pontas quando o núcleo familiar entra em crise. Um filme de mulheres, sim, e de muitas outras coisas mais.

Ciclo alegórico

Cuarón trabalha seu filme como uma matriosca russa. Há várias camadas de compreensão e elas se imbricam umas dentro das outras. No início, bem no início mesmo, vemos Cleo enxaguando o pátio/garagem da casa, onde Borras, o cão, costuma defecar. Sobre o reflexo da água empoçada vemos um avião, imagem que retornará no final fechando um ciclo alegórico. O avião cruza os céus muitos pés acima de onde vive Cleo. Cleo está muito, muito abaixo, no plano em que se passa o filme.

Como tantas outras, Cleo é uma das criadas de uma casa de classe média mexicana (um pouco acima da média, mas nem tanto), no bairro de Roma, na Cidade do México, no México. Uma perfeita perspectiva social dela e do bairro se dá na belíssima passagem em que Cleo estende roupas na laje da casa e a câmara de afasta em panorâmica, descortinando outros varais de outras lajes contíguas. Numa delas, outra criada cumpre a mesma tarefa de estender roupas.

A época aqui é bem definida. Estamos na passagem de 1970 para 1971, como fica bem demonstrado na sequência da festa de Ano Novo. Quem dirige o país é Luis Echeverría Álvarez, o contraditório presidente de “esquerda” cujo governo deu asilo para inúmeros perseguidos políticos de ditaduras sulamericanas, mas que também patrocinou a “guerra suja”, as “matanzas” de 1971, quando centenas de militantes de extrema esquerda foram assassinados. A situação está aludida indiretamente no filme.

Tensão construída com sutileza

Cuarón constrói o seu filme como uma sucessão de inadequações e tensões. Alguns detalhes são deliciosos. Cito aqui a cena em que o pai entra vagarosamente na estreita garagem com seu enorme Ford Galaxy, carro (também chamado pejorativamente de “banheira”) símbolo do otimismo consumista da classe média num país entusiasmado por sediar a Copa do Mundo e pela mentalidade libertária da contracultura. Dois pôsteres na parede do quarto dos meninos remetem, um à Copa, outro ao símbolo do “paz e amor”. A Rádio Êxitos anuncia Creedence Clearwater Revival e Beatles. Mas voltemos ao pai tentando entrar na garagem: a montagem enfatiza os detalhes.

O rádio do Galaxy emite uma serena música erudita, o pai manobra cuidadosamente, mas, mesmo assim, esbarra com o retrovisor na parede. O Galaxy é uma inadequação. O cocô de Borras ,idem. O contexto social, também. Isto está claramente exposto no episódio em que uma das crianças comenta à mesa que a polícia atirou e matou um rapaz que jogava balões de água nos carros. Sequências posteriores vão ser muito eloqüentes sobre conflitos de terra e expulsão de povos indígenas de seus territórios.

A tensão em Roma é construída sutilmente, independentemente do esfacelamento do núcleo familiar. Há uma sensação de inquietude com a presença do violento namorado de Cleo. Sua coreografia kung fu com a genitália agressivamente à mostra; o incêndio no bosque; a taça de Cleo bruscamente derrubada nas comemorações do ano- novo. Cuarón faz da criada o ponto de equilíbrio de muitas das tensões e perturbações pressentidas (e experimentadas) no filme. Cleo, lembramos, é a única que consegue fazer a posição hatha yoga da árvore proposta pelo caricato guru das aulas de kung fu.

Cleo é uma sensitiva. Sente o odor do seu povoado num passeio pelo campo. Talvez traga em si a harmonia dos três mil anos de cultura mixteca, a qual, supomos, enviesadamente, Cuarón homenageia. A despedida do Galaxy (tropo de todas as inadequações em Roma) é um elemento de acomodação a novos tempos, um tempo baseado na solidariedade e numa virtual afirmação emancipadora das mulheres, da patroa em especial, purgativa no caso de Cleo. De todo modo, algo continua pulsando incômoda e subterraneamente muitas milhas além da “cidade eterna”. (SM)

Sérgio Moriconi é crítico, professor, curador de mostras e autor de Apontamentos para uma história do cinema em Brasília. Foi programador do Cine Brasília


Indicações de Roma ao Oscar

Melhor filme

Melhor direção

Alfonso Cuarón

Melhor atriz

Yalitza Aparicio

Melhor roteiro original

Alfonso Cuarón

Melhor atriz coadjuvante

Marina De Tavira

Melhor direção de fotografia

Alfonso Cuarón

Melhor filme estrangeiro

Roma (México)

Melhor design de produção

Melhor edição de som

Melhor mixagem de som
 
 
 
 
 
 

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