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Correio Braziliense

2019 marca estreias de diversos documentários sobre música brasileira

Com os documentários 'Fevereiros' e 'Ultraje', em exibição na cidade, a música se confirma fonte inesgotável de aproveitamento pelo cinema brasileiro que terá, ao longo de 2019, entre outras cinebiografias, as de Erasmo Carlos, Gal Costa e Wilson Simonal


postado em 02/02/2019 07:45 / atualizado em 02/02/2019 09:52

 Cena do documentário 'Fevereiros'(foto: ArtHouse/Divulgação)
Cena do documentário 'Fevereiros' (foto: ArtHouse/Divulgação)
Seja reconstruindo biografias de artistas idolatrados ou mesmo acoplando uma infinidade de músicas à narrativa de um enredo de ficção, o cinema nacional tem crescente compromisso em aliar imagens a músicas de sucesso. Com mais de 550 mil espectadores quando da exibição no cinema, Elis (2015), por exemplo, ampliou em escala estratosférica o alcance, depois de recauchutada (com cenas inéditas) e transformada em recente série de tevê. Depois de muitos rumores, num caminho inverso (primeiro, a ser feito para a televisão), a trajetória do grupo Mamonas Assassinas, que disparou na preferência do público entre 1995 e 1996, está prevista para alcançar os cinemas.

Com roteiro do veterano Carlos Lombardi, o projeto da Record deverá ser capitaneado pela produtora Total Filmes e terá direção de Léo Miranda (de Jesus). Com mais de três milhões de exemplares vendidos, na primeira e única investida no mercado fonográfico, Mamonas Assassinas foi consagrado com um humorado tom para músicas de tremendo apelo popular. Por enquanto, figuras como Yurdi Tamashiro, MC Gui e Gretchen vieram a público confirmar a escalação para o longa-metragem.

Em show recente, Sophie Charlotte tieta a cantora Gal Costa, que ela viverá nas telonas(foto: Reprodução/Twitter)
Em show recente, Sophie Charlotte tieta a cantora Gal Costa, que ela viverá nas telonas (foto: Reprodução/Twitter)
Também tomando forma, o projeto encabeçado pela atriz Sophie Charlotte, um longa-metragem sobre Gal Costa, batizado de Meu nome é Gal (na esteira da telessérie de 2017, O nome dela é Gal) ,tem data de estreia: 7 de novembro. Charlotte está na Bahia, formatando, com workshop in loco de aulas de canto e de violão, a oportunidade da vida, que terá direção de Lô Polite e Dandara Ferreira. Quatro anos depois de entoar Sua estupidez (no especial de Roberto Carlos), a atriz já desfila um visual diferenciado, enquanto faz passeios pelo Centro Histórico de Salvador, complementados por atividades como a participação na Lavagem da Purificação (em Santo Amaro, Bahia).

Mais Bahia

Entre registros de procissão de baianas na célebre casa de dona Canô (em Santo Amaro) e reflexões sobre as injustiças atreladas à mestiçagem no Brasil, o longa Fevereiros, documentário que saúda o dueto entre a figura de Maria Bethânia e a Estação Primeira de Mangueira, está em cartaz em Brasília, traz  as raízes do samba, a ligação com uma polifônica crença espiritual por parte da devota de Nossa Senhora, atenta à sabedoria de Mãe Menininha do Gantois, passagens por terreiros de candomblé e trechos de músicas como Reconvexo e Viola, meu bem. Autor da última, Caetano Veloso comparece no filme para saudar da irmã aos “negros escravizados”, passando pelo “pai mulato” e lembrando a importância do 13 de maio (de 1888) para detectar a necessidade de “uma segunda abolição”.

Com uma intenção também crítica, mas adotando a irreverência como marca, artistas como o vocalista Roger, o guitarrista Edgard Scandurra e o baterista Leôspa crivaram de sonoridade os anos 1980 em que despontaram com o grupo Ultraje, que dá nome à primeira investida do diretor Marc Dourdin no ramo dos longas-metragens que equilibram imagens e música como objetivo. “Acredito que o filme, por passar por todas as fases da banda e por mostrar o que estava acontecendo no país e no mercado fonográfico ao longo da trajetória do Ultraje, pode interessar a todos. Até porque, com o Ultraje, houve uma explosão de bandas que são referência até hoje, entre elas  Titãs, Ira!, Paralamas, Legião, Magazine... As músicas do Ultraje tocam nas rádios até hoje e são meio atemporais, as letras ainda fazem muito sentido”, destaca o diretor.

Ainda que tenha havido muita evolução e mudanças de interesses entre integrantes e ex-integrantes do Ultraje, o orgulho do trabalho foi elemento comum detectado pelo cineasta. Gozando ainda hoje da popularidade de músicas como Inútil, Pelado e Marylou, o Ultraje esteve, por fase, identificado com elemento politicamente incorretos. Foi com naturalidade, aliás, que o diretor encampou o tema.

“O papel do cinema é o de apresentar uma realidade pouco conhecida pelo público, ou até trazer de volta um tempo que passou, em que as coisas eram diferentes. Acho interessante ver filmes mais antigos ou documentários sobre fatos do passado em que temos a oportunidade de revistar costumes. Acho que o cinema tem a liberdade para trabalhar o politicamente incorreto justamente para levar a uma reflexão ou apresentar outra realidade ou ponto de vista sobre o mundo. Numa história contada de uma forma interessante, a preocupação com o politicamento incorreto não me parece um grande problema”, avalia Marc Dourdin.


Três perguntas / Márcio Debellian 

Que dimensão tem o elemento da miscigenação no teu filme?
O recôncavo baiano é o lugar do Brasil que mais recebeu escravos e Santo Amaro celebra a abolição desde a assinatura da Lei Áurea, em 1888. É um lugar especial do Brasil porque ali existe uma ocupação que acho que é muito simbólica para o país. Era ocupado por índios, nossos habitantes originais, donos da terra, recebeu um número enorme de negros, também portugueses e o catolicismo ibérico, e encontram uma maneira de conviver em harmonia.

A capacidade de congregar pessoas e a serenidade são características potentes em Maria Bethânia. Ela nunca perde a linha? Como alcançaram tamanha disponibilidade dela?
Tive uma preocupação de não ser invasivo. Eram momentos muito especiais para ela, durante a festa do carnaval ou diante da santa em seu momento de fé. Queria que ela pudesse viver plenamente e se esquecesse de que havia uma câmera ali. Ela não tinha um compromisso de atuar no filme, simplesmente estava vivendo e me permitiu acompanhar isso, sabendo, claro, que eu respeitaria seu espaço.

Você não se atém a foco único no filme. O que baliza o pilar da tolerância descrito na produção?
O filme traz questões que têm mais urgência agora. Na época, pareciam conquistas consolidadas, mas o tempo mostrou que não é bem assim. Santo Amaro tem essa convivência e tolerância, algo muito natural para eles. Tudo ali se misturou de uma maneira que você não precisa despir um santo para louvar outro. Nenhuma fé se sobrepõe à outra ali, elas convivem bem. No recôncavo, há uma sabedoria que está fazendo falta ao Brasil. O filme vem num momento bom para se olhar para esse Brasil onde fé e festa convivem bem.
 
 
Rafael Gomes, diretor de cinema(foto: Reprodução / Internet)
Rafael Gomes, diretor de cinema (foto: Reprodução / Internet)
 
 
Três perguntas // Rafael Gomes 
 
 
Meu álbum de amores e Música para cortar os pulsos (ainda inéditos) serão filmes que levam você ao entendimento de exploraruma narrativas diferenciadas, diante da associação com a música?

Certamente. A música deixa de ser apenas "embalagem" e combustível emocional (para, digamos, intensificar a sensação a que se pretende uma cena) e adquire outra relevância narrativa. No caso de Música para cortar os pulsos, as canções são mote da dramaturgia — é uma história sobre como as músicas pautam e traduzem os sentimentos. No caso de Meu álbum de amores, ela é a própria dramaturgia, já que se trata de um musical — ou seja, a existência das canções e suas letras contam coisas que não estão na história de nenhuma outra maneira senão ali.
 
O que música representa para o teu cinema: é garantia de afinar a empatia junto ao público?

Garantia não sei se é, mas música certamente é um atalho direto para o coração. No caso destes filmes em específico, é como eu falei: a música está na linguagem, mas ela constitui a própria linguagem. É como se a música existisse na história como sentimento e sensação, mas também como um convite a pensar sobre a presença dela na história.
 
É difícil adaptar a presença de cantores como Arnaldo Antunes, Clarice Falcão, Maria Gadú para a tela, ou, ao contrário, você que se ajustou à capacidade musical deles?

Não foi difícil porque os filmes foram pensados em torno dessas participações, desde sempre. Logo, as cenas foram criadas para abarcar estas presenças e dialogar com elas da melhor maneira possível.
 



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