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Correio Braziliense

Dhi Ribeiro é referência na cena do samba de Brasília

Cantora nascida em Nilópolis escolheu a capital para fazer carreira


postado em 03/02/2019 06:30

 Programação carnavalesca da cantora começa em 8 de fevereiro com a terceira edição da Festa Azul e Branco, na Aruc(foto: Paulo Anderson/Divulgação)
Programação carnavalesca da cantora começa em 8 de fevereiro com a terceira edição da Festa Azul e Branco, na Aruc (foto: Paulo Anderson/Divulgação)

 

Apesar de ter nascido em Nilópolis, no Rio de Janeiro, e de ter passado um pedaço da vida em Salvador, foi em Brasília que a cantora Dhi Ribeiro fez carreira e se mantém até hoje tocando nos bares e nos eventos da capital federal. “A cidade me abraçou, tenho grandes amigos, fiz uma família de amigos, fiz a minha família aqui. Eu me apaixonei pela cidade mesmo, por tudo que aprendi e ainda aprendo aqui todos os dias”, diz a sambista.

Esse amor por Brasília faz com que a artista há anos escolha permanecer na capital durante o carnaval, período em que a agenda dela se agita com shows em eventos carnavalescos, além da produção dos próprios blocos e festas dedicadas à folia. Em 8 de fevereiro, por exemplo, a cantora promove a terceira edição da Festa Azul e Branco, que celebra o carnaval de antigamente. “É uma festa diferente do que o pessoal faz aqui, é um baile de carnaval com desfile de fantasias, com mistura de ritmos bem bacana, com samba, música baiana e marchinha. A ideia é misturar mesmo”, explica Dhi Ribeiro.

Como já virou costume, o baile ocorre a partir das 21h, na sede da Aruc, no Cruzeiro Velho. Além de Dhi Ribeiro, acompanhada da banda que está ao lado dela há anos, a festa contará com participações de Batuke de Rua e Patakundum e a realização de um concurso de fantasias carnavalescas. “Esse é o terceiro ano do evento e é um baile que eu quero que marque, que seja uma coisa que vá acontecer todos os anos”, espera a cantora, que, no Guará, já tem tradição com o bloco Pipoca Azul.

Neste ano, o bloco criado e promovido pela artista sairá às ruas no domingo e na segunda-feira no Guará II, local onde Dhi mora. “É um projeto em que a gente coloca o carnaval para a comunidade do Guará II, de graça para o público. A minha ideia foi sempre de levar a folia para o bairro e para a região administrativa”, diz fazendo referência à descentralização do carnaval do Distrito Federal que, em sua maioria, se concentra no centro de Brasília.

Projetos da carreira

Como o carnaval é um período agitado, ela revela que retoma os projetos da carreira depois da folia. A ideia é lançar dois clipes de canções que integram o DVD Leme da libertação, que foi gravado em 2017 e acabou não sendo lançado oficialmente no ano passado como estava previsto. “São músicas do DVD. A gente teve um atraso grande com o lançamento dele e resolvemos fazer um trabalho diferente. Vou fazer um ‘ao vivão’ para a galera para mostrar o trabalho e esses dois clipes”, adianta.

Dhi Ribeiro ainda revela que vai lançar no segundo semestre outro projeto, que mistura audiovisual e música. “É muito bacana. Estamos nessa correria fazendo das tripas coração para conseguir”, define Dhi, que é uma artista que sempre batalha para alcançar suas metas e sonhos na música. “A gente trabalha o tempo todo em busca de realizar nossos projetos. Quando a gente acaba um, já está pensando no outro. É muito difícil mesmo, mas é tão bom quando a gente consegue realizar algo pela primeira vez”, afirma.

A atual celebração de Dhi foi ter conseguido, pela primeira vez, aprovar um projeto pelo Fundo de Apoio à Cultura. “Graças a isso estamos lançando um material novo. Tem uma série de coisas que a gente tem que correr atrás diuturnamente. Quando não estou resolvendo um projeto, estou em outro, ou ainda tocando nas casas noturnas, porque é isso que ajuda a fomentar o trabalho do artista. Tem que manter a banda tocando. Não sei como a gente consegue, é 99% de transpiração”, completa. Ela não para!

Cenário musical

Há bastante tempo no mundo da música, a sambista conta que faz questão de valorizar os músicos que a acompanham nessa labuta, uma banda grande de oito integrantes. “Minha banda está comigo há séculos. São músicos incríveis por quem tenho um respeito enorme. Eu sempre me preocupo em manter eles trabalhando, tendo seus cachês porque quase todos nós vivemos só da música”, explica. Para ela, o grupo é uma família: “Vamos da pousadinha ao hotel três estrelas, estamos sempre juntos e faço questão de levar todo mundo para todo lugar. Do barzinho em Brasília aos shows em São Paulo”.

Sobre o cenário do samba da capital, Dhi Ribeiro se diz muito feliz. Ela percebe um crescimento nos últimos anos. “O samba chegou a Brasília junto com a construção. Assim que vieram os funcionários do Rio de Janeiro, o samba veio junto. Graças a esses precursores, que trouxeram o samba pra cá, que nós tivemos o apoio para dar segmento a esse trabalho e levando essa mensagem do samba”, afirma. “Tem muita gente fazendo coisa boa, músicos excelentes, temos grandes violonistas, cavaquinistas, a rapaziada que está compondo é maravilhosa. Tenho muito orgulho do que é feito aqui”, acrescenta.

Por essa efervescência e qualidade, a cantora acredita que o samba de Brasília tem suas particularidades e até a própria cara. “Acredito que o samba tem um frescor. Tem uma sonoridade e uma força harmônica diferente. A força de contar as histórias tem algo mais profundo, mais militante. Se assemelha com o samba feito antigamente, só que com roupagem nova. Tem uma profundidade nas composições, sinto isso”, aponta. Ela cita um dos sambas gravados por ela, Negra ouro, de Fabinho Samba e Dudu Hermógenes, como exemplo. “Gravei essa música que vem trazendo a história todinha do meu bisavó até chegar em mim hoje. É uma canção de autores que não tem nem 30 anos de idade. Nosso samba têm mensagens subliminares”, defende.

Sendo mulher negra e sambista, Dhi sabe que teve que enfrentar muitas barreiras e vê com alegria o fato de ter participado da abertura de portas para a chegada de outras mulheres no mercado brasiliense. “O samba sempre foi um território difícil para a mulher. A gente é sempre convidada para fazer o “lalaia”, o backing vocal. Então, ou você se impõe, ou fica sendo coadjuvante. Fiz backing vocal durante anos, mas depois pensei que havia chegado a minha hora, que eu tinha condições de fazer o meu próprio trabalho. É difícil entrar no mercado, ter divulgação, conseguir colocar o trabalho na rua, mas eu sou tão positiva, corro tanto para que as coisas aconteçam, que chega uma hora que as dificuldades vão diminuindo. Mas acabar, não acabam”, conta.

“É muito difícil colocar uma mulher negra com mais de 50 anos, que canta samba, para entrar no mercado. Entrei no mercado, na verdade, com 44. Tem muita gente que desiste, cansa e passa a levar como hobby. Mas a minha mola é mestra, cada ‘não’ que eu recebo é uma força que tenho para criar uma nova situação”, destaca.
 

  

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