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Correio Braziliense

Em entrevista, Serjão Loroza fala de carreira e oportunidades

Ator e músico, o artista conta que é preciso fazer acontecer para trabalhar na cultura no Brasil


postado em 04/02/2019 06:30 / atualizado em 03/02/2019 16:33


 Loroza volta a viver Domingos na série Filhos da Pátria(foto: Renato Rocha Miranda/Divulgação)
Loroza volta a viver Domingos na série Filhos da Pátria (foto: Renato Rocha Miranda/Divulgação)
 
 
Sergio Loroza é aquele tipo de pessoa que joga nas 11. Desde o início da carreira artística nunca se limitou a uma área apenas. Tornou-se conhecido do grande público na música como cantor sendo um dos vocalistas do início da banda Monobloco. Já na dramaturgia, com experiência na tevê, no cinema e no teatro, ganhou notoriedade ao participar da minissérie Hilda Furacão. Mas ser ator e cantor nunca foi suficiente. Loroza alçou voos mais altos, se tornando humorista, apresentador e, mais recentemente, empresário com uma marca de cachaça própria, a DoLoroza.

“A gente, às vezes por ser artista, não fica muito ligado nas paradas. Acha que não é legal ficar pensando em business (negócio). Mas nesse momento, eu quero juntar o show com o business. Porque nesse momento temos essa possibilidade de não ter o apoio governamental para fazer cultura. Então, acho que o artista vai te que ser malandro para ser autogestor da brincadeira toda. A gente vai ter que descobrir jeitos para fazer a parada acontecer”, analisa, em entrevista ao Correio.

Fazer acontecer é algo que integra a vida do carioca. Boa parte do que ele conseguiu foi colocando a mão na massa. Esse, por exemplo, foi o caso da criação do programa Loroza talk soul, um talk-show lançado inicialmente na web e que desde o último dia 21 é exibido no canal da tevê por assinatura Music Box Brazil, com exibição às segundas, às 21h30. “Não surgiu a oportunidade, a gente fez acontecer. (Risos). Durante muito pouco tempo da minha vida fiquei esperando o telefone tocar. Tem coisas que desejo fazer e sei que tenho que botar a cara”, explica.

Ao lado do amigo e sócio Cassius Cordeiro, da produtora Brothers, ele criou o projeto que mistura música e bate-papo, como costuma ocorrer no formato de talk-show, e que traz debates importantes e atuais de forma descontraída. Na primeira temporada, em oito episódios, Loroza recebe nomes negros da cultura nacional, como o cantor Léo Maia (filho de Tim Maia), o humorista Marcelo Marrom, as cantoras Luciana Mello e Leci Brandão, e o ator Robson Nunes. “A gente pensou em abordar esses assuntos que hoje são meio proibidos, porque tudo é visto como “mimimi”... Não pode falar sobre preto, sobre gay, sobre feminicídio... Ali é uma maneira descontraída que a gente tem de falar sobre essas coisas de uma forma que as pessoas respeitem”, afirma.

Outro objetivo de criar o programa foi ocupar uma lacuna. Loroza percebeu uma ausência de negros no formato talk-show. “Eu tinha essa vontade de fazer alguma coisa com Cassius Cordeiro, que é codiretor junto comigo do programa. A gente percebeu que aqui no Brasil — pelo menos eu não me recordo, mas acho que deve ter — outros talk-shows apresentados por pretos. Talvez, deva ter um ou dois. A gente viu essa lacuna; então, acho que é importante para gente, porque representatividade é uma coisa muito importante, porque causa autoestima no nosso povo”, diz e ainda lembra da importância disso em sua trajetória. “Quando eu era moleque, eu via o Toni Tornado na televisão e pensava “que orgulho de ser preto”. Pode parecer bobagem para muita gente, mas para a nossa galera é “importantão”. Hoje, quando vejo uma mulher, um indígena, um nordestino ou pessoas que tenham dificuldades semelhantes, arrebentando, fico feliz, porque infelizmente a gente sabe que o mundo não é justinho assim”, completa.

Outros projetos

O sucesso do programa na televisão e na web já garantiu uma segunda temporada, que deverá ser gravada no segundo semestre. Enquanto isso, Loroza acumula uma série de projetos em diferentes áreas. Para o carnaval, tem dois em vista. O lançamento de um aplicativo da marca DoLoroza para divulgação de conteúdo em formato de realidade aumentada e um single, a música O mundo coloridão. A música, composta por Gabriel Moura (compositor de faixas como Burguesinha e Mina do condomínio, sucessos de Seu Jorge) e Rogê, é a aposta de Loroza para a folia.

Sobre a canção, Loroza explica: “O mundo coloridão é quando a gente está em estado de graça e de alegria. Quanto mais cor; melhor, ainda mais para gente que pensa nessa coisa da diversidade. Penso que é interessante pensar em todas as formas possíveis de amor, porque o amor é definitivo e o que faz a diferença”, complementa.

“Estou programando um single para o carnaval. Na verdade, será para o ano todo, mas lançado no carnaval. (Risos). Estou gravando a música com a participação do Gabriel Moura. Vamos lançar essa canção e a ideia é gravar um videoclipe na sequência para tudo isso desembocar no carnaval”, revela.

O carnaval, inclusive, é algo bastante importante na trajetória de Loroza que ficou entre seis e sete anos à frente do Monobloco, banda e bloco carnavalesco do Rio de Janeiro, e hoje tem o próprio evento momesco, o Baile do Loroza. O fascínio pela folia é algo natural para o artista, que nasceu e cresceu no bairro de Madureira, no subúrbio do Rio. “Diz-se que Madureira é a terra do samba, tem duas escolas: o Império Serrano e a Portela. Então, a vida com o carnaval é muito automática, morando em Madureira o carnaval vai tocar em você de alguma maneira. Depois da minha experiência com o Monobloco, ficou mais forte”, lembra.

Voltar à televisão e aos cinemas também está entre os projetos de Sergio Loroza. Neste ano ele grava a segunda temporada da série Filhos da Pátria, da Rede Globo, em que dá vida ao personagem Domingos. Ainda deve aparecer nos longas já gravados e com previsão de lançamento em 2019, Rir para não chorar, da brasiliense Cibele Amaral; O amor dá trabalho, com Leandro Hassum; e No gogó do Paulinho, com Paulinho Gogó.

Entre os planos de Sergio Loroza ainda estão um novo projeto nos palcos. A ideia é criar um espetáculo teatral solo, que misture música e humor. “É um espetáculo em que basicamente falo umas merdas e toco umas músicas. É meio que uma brincadeira com a parada musical e com o humor, que eu curto muito. Não que eu deseje um humor politicamente correto, mas eu desejo que seja um humor mais responsável. Se você começar a pensar em fazer gracinha com qualquer coisa, você fica limitado. Tem que fazer piada que seja legal, que faça as pessoas pensarem”, afirma.

» Duas perguntas / Sergio Loroza

Você é uma pessoa com várias habilidades artísticas. Como percebeu isso lá atrás?
Penso que tenha sido muito em função da minha inabilidade física para jogar futebol. (Risos). O violão acabou caindo na minha mão na igreja que eu participava. E eu também era muito tímido em função da diferença, essa questão de ser diferente me interessa muito por isso. Eu acabei sendo muito excluído. Eu era muito tímido e a arte e o teatro, principalmente, me deram muita possibilidade de interagir com outros núcleos, com outras pessoas. Eu sou ainda muito tímido, mas hoje tenho muita oportunidade de me comunicar com as pessoas e isso acabou me levando muito para arte. Graças a Deus, porque é difícil você vivendo na favela e ter oportunidades legais, é uma questão de sorte. Sou um negão de sorte!

Você tem falado muito de diversidade. Para você, qual é a importância disso principalmente no momento em que vivemos de muita 
intolerância?
Um dos meus maiores ídolos é Jesus Cristo, que fala da parada do amor na Bíblia. E ele fala muito sobre tolerância. Tem hora que é difícil amar, mas a gente precisa pelo menos não odiar. Gostaria de cada vez mais poder odiar menos, claro que é um desejo. Acho que as pessoas têm que pensar: “Eu gostaria de poder amar, mas já que eu não consigo, se eu puder odiar menos, já tá bom”. A primeira vez que eu vi essa conotação de ódio da web foi no Orkut. Fizeram uma comunidade “Eu odeio o Serjão Loroza”. A impressão que eu tenho é de para essas pessoas destruir é mais fácil que construir e que faz mais barulho. Acredito que o amor pode fazer barulho também. Tem uma galera que é muito mais do amor, do que do ódio. Muito mais do bem do que do mal. Mas é que às vezes parece que essas coisas tocam mais na gente. É só o movimento de saber mudar e cada um fazer a sua parte.
 

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