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Correio Braziliense

Livro traz parceria entre Carlos Drummond de Andrade e Carlos Bracher

O artista ilustrou uma seleção de versos do poeta mineiro


postado em 04/02/2019 06:20

 
(foto: Bazar do Tempo/Reprodução)
(foto: Bazar do Tempo/Reprodução)
 
Os dois Carlos formam uma parceria de primeira linha de Minas Gerais: o poeta Carlos Drummond de Andrade e o pintor Carlos Bracher. Eles juntam as mineiridades no livro Canto mineral (Ed. Bazar do Tempo), esmerada edição de arte com 54 poemas de Drummond ilustrados por Bracher.

Trata-se de uma parceria quase mediúnica. No fim da década de 1970, o poeta visitou exposição na Galeria Bonina, em Copacabana, no Rio de Janeiro e, com a extrema sensibilidade, escreveu no livro de registros: “Encontrei-me com Minas Gerais através da pintura de Carlos Bracher. É o maior elogio que, de coração, lhe posso fazer. Viva Minas!”

Bracher fica estremecido ao lembrar da frase. A partir daí, se estabeleceriam fortes laços de amizade, apesar de Drummond ser tímido, taciturno e de raras palavras, enquanto Bracher se derrama em um permanente fluxo barroco borbulhante de ideias. O pintor chegou a ser convocado por Darcy Ribeiro para fazer um retrato do poeta de Itabira, mas ele não pôde, porque passava por um momento difícil da vida. Mas depois da morte de Drummond, eles se reencontram no Canto Mineral. O projeto foi concebido pelo neto do poeta, Pedro Drummond, responsável também pela seleção dos poemas com Joziane Perdigão Vieira.
 
(foto: Bazar do Tempo/Reprodução)
(foto: Bazar do Tempo/Reprodução)
 
É  a primeira vez que Bracher experimenta o risco do desenho a carvão. Ele é o pintor solar das cores no esplendor. Mas gostou muito de traduzir as atmosferas das cidadezinhas mineiras, a violência da mineração no meio ambiente, as montanhas, os 90% de ferro nas almas, os fantasmas da ancestralidade. Os desenhos conferem uma dimensão dramática à poesia drummondiana.

O livro chega precisamente no instante da tragédia humana, social e ecológica de Brumadinho, provocado pelo descaso da empresa Vale, contra quem Drummond desfechou luta titânica em meados da década de 1950. E, nesta entrevista, Bracher fala do amigo, da alma mineira, dos desenhos e do explosivo tema da mineração.

“Encontrei-me com Minas Gerais através da pintura de Carlos Bracher. É o maior elogio que, 
de coração, lhe posso fazer. Viva Minas!”
Carlos Drummond de Andrade
(foto: Bazar do Tempo/Reprodução)
(foto: Bazar do Tempo/Reprodução)


» Entrevista  Carlos Bracher

Como é essa parceria entre os dois Carlos? 
É o seguinte: fui convidado pelo neto de Drummond, Pedro Augusto Grana Drummond, a ilustrar 54 poemas. Ele me passou uma relação dos poemas, enfocando, principalmente,  o lado mineiro de Drummond. Era centrado em Itabira, Ouro Preto, Mariana, Congonhas, São João del-Rei e Tiradentes. Esse é o momento barroco de Minas. O epicentro é Ouro Preto. Cada vez que o Drummond viajou por lá escreveu  só obras-primas. A chama de Ouro Preto na vida de Drummond é muito forte e essencial. Não só do barroco, mas especialmente da arcádia mineira e, sobretudo, de Thomas Antônio Gonzaga. Era expressamente um eixo da própria poética do Drummond.

Poderia dar um exemplo?
Antônio Gonzaga escreveu: “Meu coração é maior que o mundo”. Caí de quatro quando vi. Eis que venho a Drummond: “Mundo vasto mundo, mais vasto é o meu coração”. É a mística mineira, a sensação de que é Minas, esse verbo profundo nele. A grande cantata de Minas é a da arcádia. Nessas duas ou três vezes em que foi a Ouro Preto, Drummond produzia quase um livro inteiro de poemas. Imagine um homem da sensibilidade de Drummond com essa carga mística mineira. É igual a Van Gogh, somente 70 dias, quando fez 70 obras-primas ao visitar Arles. Tanto ele quanto Van Gogh, quando mais doido ficou, melhor pintor foi ficando. O homem sem loucura é uma merda.

Mas como o senhor estabeleceu amizade com Drummond?
Drummond foi ver uma exposição minha na década de 1970, na galeria Bonino, no Rio. Gostou muito, era sobre Ouro Preto. Ele era extremamente calado e taciturno. Escreveu uma frase que valeu minha vida: “Encontrei-me com Minas Gerais através da pintura de Carlos Bracher. É o maior elogio que de coração lhe posso fazer. Viva Minas!”. Aí, quando o neto dele veio a Ouro Preto, pediu que me procurasse para orientá-lo sobre a cidade. Ficou lá em casa. Começou a amizade, o neto entrou no esquema. No terceiro momento, eu tinha feito um retrato do Darcy Ribeiro quando perdeu a eleição para governador do Rio de Janeiro. Ficou tão amargurado, sem chão, que resolveu voltar a Minas para, segundo ele, “regar raízes”. Fiz um retrato dele de preto, meio arrasado. Mas ele gostou muito da maneira como era pintado. Daí a um mês telefonou e disse: “gostaria que pintasse uns amigos meus”.

E quem eram os amigos?
Só gente fraquinha, só gente do terceiro escalão:  Luiz Carlos Prestes, Niemeyer, Carlos Drummond, Otto Lara Resende e Lucio Costa. Alguns não quiseram, fiz Niemeyer e outros que não me lembro. Mas o Drummond estava com a esposa muito doente. Ficou triste. Ele me falou: “não estou em condições psicológicas. Depois a gente faz”.  Nunca fizemos, e aí veio o Canto Mineral.

Qual a interpretação que o senhor tem desta dimensão mineral do mineiro, que Drummond desvelou com genialidade? 
Como juntou Ouro Preto e Itabira?
Aí, você fala do nosso cosmos mineiro. Moro há 48 anos em Ouro Preto, eu a adotei   como cidade do coração. De repente, virou a cidade mais importante para mim. Sou de Juiz de Fora, que é uma força mais carioca. Nós estamos na divisa do Rio, a grande cidade é o Rio. Mas, quando fui morar em Ouro Preto, percebi que o buraco é mais embaixo ou talvez mais em cima, nas montanhas. Todo aquele extraordinário acontecimento de filosofia, de arte e de poesia durante um século. Ali, se fez Minas,  o bicho pegou. Entendi como é distante a Minas de Ouro Preto da Minas de Juiz de Fora. Minas do Norte  é baiana. A do Triângulo Mineiro é paulista. Mas a grande é a  de Ouro Preto. É de lá que saem Aleijadinho, mestre Athaíde, Tiradentes. É uma Minas profunda, que é a do Drummond. Ouro Preto foi um pouco a nossa Grécia brasileira. Deus falou: “vamos mandar gente de primeira”. Olho para a Ouro Preto dessa época e só vejo gregos na minha frente.

Como é que pensou e executou as ilustrações?
Sou neófito em desenho, mas gostei tanto de fazer. Foram as minhas primeiras ilustrações. Ilustrei durante um ano.  É um desafio muito grande, fazer as coisas terem cor sem tê-las. Tem de dar o sentimento cromático ao preto e branco. Para mim, foi um parto desgraçado. A mulher gesta em nove meses, levei mais de um ano.

Drummond denunciou a exploração predatória das mineradoras em inúmeros poemas, crônicas e contos. Qual a sua 
experiência sobre o tema?
Ele era pê da vida com tudo isso. Acabaram com Pico do Cauê. A Vale começou em Itabira. Era o símbolo da cidade.  Drummond fazia uma oposição artística, ambiental e filosófica contra a Vale.  Isso foi muito grave, teve uma briga violenta. Fazia oposição frontal. Fiz uma interpretação dos poemas  que não deixa, obviamente, de ser uma denúncia. Fiz o Cauê em cima e embaixo o que ficou destruído. O positivo para cima e o negativo para baixo. O excelente designer Victor Burton achou que era o melhor desenho para capa. Fiz uns 70 desenhos.

O que pensa da mineração? Ela não pode levar a desastres como o de Brumadinho?
Isso que aconteceu é um negócio muito terrível. Tanto que a Vale resolveu desativar todas as barragens.  Não se trata de ser contra a mineração, mas de exigir que ela siga preceitos rigorosos. Vivemos no século 21 situações análogas às do século 18.

(foto: Bazar do Tempo/Reprodução)
(foto: Bazar do Tempo/Reprodução)


» PICO DO ITABIRITO (Trecho)
Será moído e exportado
Mas ficará no infinito
Seu fantasma desolado.
Com tanto minério em roda
Podendo ser extraído,
A icominas se açoda
E nem sequer presta ouvido
Ao grave apelo da história
Que recortou nessa imagem
Um outro azul da memória
E um assombro da paisagem.
Carlos Drummond de Andrade


Canto mineral
De Carlos Drummond 
de Andrade Ed. Bazar do Tempo/ 
148 páginas Ilustrações 
de Carlos Bracher 

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