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Correio Braziliense

Simbologias e identidades: Mostra reúne obras de Nilce Eiko Hanashiro

Exposição dá visibilidade à artista que produziu frutos questionadores


postado em 05/02/2019 06:00 / atualizado em 04/02/2019 19:53

Nilce Hanashiro fazia parte de suas performances em casa(foto: Arquivo Pessoal)
Nilce Hanashiro fazia parte de suas performances em casa (foto: Arquivo Pessoal)


Nilce Eiko Hanashiro era uma artista discreta. Quando deixou um pouco de lado a produção de desenhos, no final dos anos 1980, e passou a realizar performances, escolhia fazer isso de forma solitária. Em casa, fotografava momentos do próprio cotidiano, imagens mais tarde reunidas como registros performáticos de um ato presenciado apenas pela artista. É uma característica marcante da obra de Nilce, mas não a única. A presença de um questionamento sobre o feminino e sobre as próprias origens também permeia a obra de maneira muito incisiva e serve de âncora ao percorrer os 300 trabalhos de Antologia: Nilce Eiko Hanashiro, em cartaz no Museu Nacional da República.

Nissei nascida de um casal de imigrantes japoneses, Nilce veio para Brasília em 1958, aos 10 anos. Começou a desenhar na capital, mas foi no Rio de Janeiro, entre as aulas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e a convivência com a cena carioca dos anos 1970, que a artista começou a carreira. O desenho constituía boa parte da produção de Nilce na época e a prática passava pela experimentação das mais variadas técnicas.

Nos anos 1980, quando voltou para Brasília, o trabalho tomou outro rumo. Nilce passou a explorar a performance, a fotografia e a instalação. Gladstone Menezes, curador da mostra em parceria com Fernando Cochiarale, acredita que a mudança se deu porque a artista teve problemas de visão. Nilce era diabética, doença responsável pelas complicações que a levaram à morte, em 2015.

Os desenhos traziam seres híbridos(foto: Arquivo Pessoal)
Os desenhos traziam seres híbridos (foto: Arquivo Pessoal)


Nilce levou para as performances e as instalações os mesmos elementos desenvolvidos nos desenhos. “Era muito diferente. Porém, agora, vendo a obra hoje, é possível ver que elementos do desenho se repetem nas performances. A simbologia e algumas figuras são as mesmas”, explica Gladstone. Os seres híbridos dos pastéis, guaches e nanquins encontraram eco nos mantos com tecidos pouco comuns usados pela artista. São as “mitologias individuais” citadas por Cochiarale em texto produzido para a mostra.

Processo criativo

Gladstone, amigo de Nilce e hoje guardião do acervo com mais de mil obras deixado pela artista, lembra que ela costumava realizar as performances sozinha, em casa. Com máquina analógica, fotografava o processo. O acúmulo de objetos, recolhidos ao longo do tempo, fazia parte da construção da obra, assim como reflexões sobre a identidade. “A questão feminina sempre aparece nas instalações e nas performances, quando ela usa elementos como meia de seda, sapatos de salto vermelhos e bijuterias”, analisa Gladstone. “Ela levanta essas questões de maneira poética, brinca com esses fetiches machistas. Ela não era uma mulher padrão, era nissei, mas com características muito brasileiras.” O conflito entre a rigidez japonesa da origem familiar e o despojamento brasileiro também aparecem, segundo o curador, nas investigações estéticas da artista.

São fruto dessa experiência as três instalações montadas na exposição. Em uma delas, Nilce é a figura que se desnuda, aos poucos, nas sequências fotográficas. Outra traz os registros de momentos do cotidiano captados ao longo de dois anos. Raramente a artista dava nome às obras, mas Fonte, construída com tecidos como tule e cetim pendurados em um aro de metal cujo núcleo abriga uma montagem de flores, acabou nomeada.

Nilce era uma artista conhecida em Brasília, mas de pouca projeção nacional. Como a exposição no Museu Nacional, os curadores acreditam que o nome da artista vai começar a circular nacionalmente. A partir da iniciativa, Gladstone, a quem a família confiou o acervo da artista, procurou outras instituições para que recebessem a obra de Nilce em seus acervos. Já iniciou negociações com o Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR), o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ) e o Museu de Arte de Curitiba. No total, são mais de três mil negativos e mais de mil desenhos deixados pela artista. “O acervo é enorme e foi digitalizado”, garante o curador. “A inserção da obra dela na arte brasileira começa agora, com essa exposição”, completa Fernando Cochiarale.

Registros da artista integram as instalações em cartaz no museu(foto: Arquivo Pessoal)
Registros da artista integram as instalações em cartaz no museu (foto: Arquivo Pessoal)

 

Serviço

 

Antologia: Nilce Eiko Hanashiro
Curadoria: Gladtsone Menezes e Fernando Cochiarale. Abertura nesta terça-feira (5/2), às 19h30, no Museu Nacional na República. Visitação até 31 de março, de terça a domingo, das 9h às 18h30.

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