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Correio Braziliense

Confira a entrevista da sambista Leci Brandão ao Correio

Entre outros assuntos, ela fala do relançamento de Refazendo a cabeça, que, segundo ela, continua muito atual


postado em 06/02/2019 07:00

Em 1978, numa das muitas vezes que veio a Brasília(foto: Marcos de Oliveira/CB/D.A Press - 24/11/78)
Em 1978, numa das muitas vezes que veio a Brasília (foto: Marcos de Oliveira/CB/D.A Press - 24/11/78)


Leci Brandão, muito antes de assumir qualquer cargo político, sempre esteve antenada nas questões sociais do país. Isso é notório em diversos sambas que a artista compôs e gravou desde o início da carreira, ainda no início dos anos 1970. Mais que isso, a carioca da gema tem ideias e atitudes vanguardistas há décadas, incluindo tornar-se a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores da escola de coração, a Estação Primeira de Mangueira.

Como parlamentar — Leci é deputada estadual pelo PCdoB paulista — mantém ideias progressistas e garante que, independentemente da posição do partido, atua no sentido de fortalecer as pessoas. Em meio ao turbilhão político que o Brasil enfrenta, a cantora decidiu relançar Refazendo a cabeça, um samba dela em parceria com Zé Maurício. Entre outros versos, a canção diz: “Fale e frise que a crise / Não foi você quem criou / Eles falaram, eles ganharam / E a gente acreditou”. Quer algo mais atual e necessário que isso?”, questiona ao Correio, enquanto fala sobre outros assuntos, como a divisão entre sambistas e o carnaval.

Refazendo a cabeça
A música é da década de 1980 e percebi que está bem atual. A letra não se perdeu no tempo. Aí, ganhamos um prêmio no ano passado como melhor cantora de samba, com um trabalho independente, uma coisa feita por mim e por meus músicos, sem gravadora. Isso me animou muito para dar continuidade ao nosso trabalho. O Refazendo a cabeça é do LP Um beijo no seu coração, de 1988,  que me fez ganhar um disco de ouro. Como a gente começa a fazer uma reflexão do nosso trabalho, da nossa carreira, do que a gente gravou, completou e pensou, eu resolvi regravar um samba, de minha autoria, com Zé Maurício, que não perdeu a sua importância. Estará nas plataformas digitais em 20 de fevereiro.



Temática atual
Tem uma coisa que um dos meus disse: “Leci, essa música está muito atual”. Foi gravada em 1988 e, 30 anos depois, tem tudo a ver. É uma música minha com meu principal parceiro na carreira, Zé Maurício. Fizemos muitas músicas juntos. Ele é contrabaixista da minha antiga banda. A gente ouvindo a música, falei: “Meu Deus, realmente, quer algo mais atual que isso?”. Digo isso porque acho que chegou um momento no país em que os artistas têm que falar alguma coisa. Algo que chame a atenção das pessoas de forma plena. Ela diz “Fale e frise que a crise / Não foi você quem criou / Eles falaram, eles ganharam/ E a gente acreditou”. É um recado geral do povo para o país.

Importância do samba
Acho que o samba tem que ter sua prestação de serviço. Temos uma responsabilidade de também conscientizar o povo. A Mangueira teve coragem de fazer aquele samba contra o posicionamento da prefeitura. E, aliás, continua acontecendo isso no Rio. Lá, nem desfile técnico está acontecendo. Tem interesses, sei lá, não sei o motivo. Essas coisas acabam prejudicando nossa cultura. A gente não pode permitir que isso aconteça. Foi legal essa reprise que teve da Elis, especial que a Globo mostrou. A gente viu ali, na época dela, uma cantora que teve posicionamento, um papel fundamental na política e no comportamento brasileiro. Fiquei bem feliz quando a gente gravou duas músicas para a Biscoito Fino e eles escolheram a Refazendo a cabeça para fazer o lançamento.

Política
Veja bem, eu costumo não me preocupar muito com o posicionamento das outras pessoas. Você sabe que estamos no terceiro mandato. Fui reeleita, talvez, porque meu comportamento na condição de parlamentar sempre foi de votar a favor de projetos que tenham alguma coisa a ver com o fortalecimento das pessoas. Sou a favor independentemente de sigla partidária. Não sou muito ligada com isso. Sou ligada com ações. Até porque essa coisa de partido no Brasil é meio que engraçada para mim. Você vê pessoas de um lado numa hora e daqui a pouco estão do outro. Dependendo da sua conveniência e interesse. Como sou uma pessoa que tenho compromisso com minha cabeça, com meu lado...



Divisão no samba
Todo mundo sempre soube que sou uma cantora de esquerda. Sou uma cantora que sempre tive no meu trabalho de compositora músicas que falam sobre questões de minorias. De todas as minorias. Nunca tive nenhum problema com isso. Sempre falei isso de forma bem natural. Não poderia ser diferente. Eu quero ver o que acontecerá com as pessoas que apoiaram a cultura do ódio, xingaram mil coisas porque não respeitaram a nossa opinião, eu quero ver a continuidade. Eu acho que muita gente não tem muita ideia do que aconteceu no país alguns anos atrás. Eu nunca fui presa. Não fui exilada. Não fui espancada. Nada disso. Mas eu acompanhei o processo de muitas pessoas que lutavam pela democracia e sumiram. Foram assassinadas, perseguidas. Acompanhei tudo isso. Mas tem gente que não sabe o que é isso. Tem gente que não faz a menor ideia. Acho que você tem que respeitar a ideia do outro. Você tem que ter equilíbrio. A palavra democracia é muito ampla. Você tem que saber ouvir.


Deputada X cantora
Eu não fui procurar a política. Quando me convidaram para ser candidata, fui depois de muita insistência dos movimentos sociais. Essas pessoas conhecem minha história. Fui eleita, não porque o partido era tal, mas por causa da minha história de vida. Eu não tinha grana, não tinha nada. Nem na mídia eu estava. Isso foi em 2010. Quando fui eleita, peguei todos os meus LPs assinalando tudo aquilo que cantei que eram letras de luta, de resistência, de defesa de minorias, de posicionamento. E, assim, fiz a pauta do meu mandato. Meu mandato tem uma cara. Tinha que ter uma coerência. Não adianta eu cantar uma série de coisas e, na hora que vou para dentro do parlamento, eu esqueço essas coisas, dou as costas. Meu mandato foi voltado pra defesa da mulher, dos negros, da educação, dos LGBTs, dos quilombolas, do samba, da cultura popular. Defendo realmente toda cultura popular porque, às vezes, acho que os gestores dão muito mais atenção para coisas elitizadas e não olham muito para o lado do que a periferia está fazendo. Não defendo partido, defendo pessoas. Meu negócio é com as pessoas. É por isso que a gente continua na Assembleia. Saíram mais de 50 deputados. É uma Assembleia com a cara nova. Estou entre os quarenta e poucos que continuam lá.

*Colaborou Robson G. Rodrigues, estagiário sob supervisão de Igor Silveira
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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