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Correio Braziliense

Projeto Calangos Leitores muda a vida de alunos de escolas públicas do DF

O Calango Leitores foi finalista do Prêmio Jabuti em 2018


postado em 09/02/2019 06:45

Claudine Duarte: 'A leitura compartilhada é um fator de crescimento para conhecer o livro pelo olhar do outro''Cl(foto: Janine Moraes/Divulgacao)
Claudine Duarte: 'A leitura compartilhada é um fator de crescimento para conhecer o livro pelo olhar do outro''Cl (foto: Janine Moraes/Divulgacao)

 
“Antes de ler esse livro, eu pensava que quem estava preso era quem estava privado de liberdade. Quem está preso só necessita do mesmo que eu preciso: de um propósito para a vida”, disse um garoto de 13 anos, integrante das rodas de leitura do projeto Calangos Leitores, depois de ler o livro O menino do dedo verde, de Maurice Druon.

O projeto mudou a vida dos estudantes, o rendimento da aprendizagem, a relação com a família e o interesse pela biblioteca em quatro escolas públicas do ensino fundamental e do ensino médio do DF: Centro Educacional, do Lago Norte, Centro de Ensino Fundamental 1, do Cruzeiro, Centro de Ensino Fundamental 15, do Gama, e o Centro de Ensino Fundamental 5, do Paranoá.

Iniciado em agosto de 2016, o projeto foi finalista do Prêmio Jabuti de 2018 na categoria Formação de Leitores: “Não adianta premiar somente o mercado”, disse o presidente da Câmara do Livro, que promove o Jabuti. “É preciso investir na formação de leitores”.

A fundadora e coordenadora geral do projeto é a arquiteta aposentada Claudine Duarte, ao lado da sócia Danielle Rodrigues Cunha. Tudo começou na roda de leitura criada pela escritora e professora Lucília Garcez. A certa altura, o escritor Wilson Pereira levantou a questão: “As nossas rodas de leitura são magníficas, mas a gente poderia fazer mais. Temos de democratizar a experiência com as novas gerações”.

Claudine aceitou o desafio na hora e resolveu criar o projeto Calangos Leitores. A primeira escola a receber o projeto foi o Cedlan, do Lago Norte. Em seguida, a experiência foi expandida para centros de ensino das cidades-satélites. Nascida em Anápolis, Claudine se formou em arquitetura na UnB, mas é animada pela fé inabalável no poder de transformação da literatura: “O Mario Quintana escreveu que a literatura não muda o mundo”, comenta Claudine: “Muda as pessoas, e as pessoas mudam o mundo”.

O mascotinho do projeto é o calango, animal típico do Planalto Central: “A Danielle batizou o projeto. A nossa logo faz referência ao avatar”. Claudine é, atualmente, escritora e dramaturga. Lançou o livro Minicontos, com o coletivo Maria Cobogó. Adaptou e montou o romance O legado de Eszter, do escritor húngaro Sandor Marai. Nesta entrevista, Danielle fala sobre a aventura de transmitir a paixão pela leitura para os adolescentes: “Eu não sou teórica da educação. Mas o que sinto no encontro faz a diferença”.



Entrevista/Claudine Duarte


Muitos adolescentes dizem que não gostam de ler. Como promover a paixão pela leitura?
A gente tem de plantar uma semente, é uma centelha. Você diz que não gosta de sorvete de creme, mas nunca provou. Mas, de repente, você tem essa oportunidade e vê como aquilo é bom. É preciso criar a oportunidade para essa centelha. Depois que a gente acende, é irreversível. Recebemos muitas mensagens pelo Instagram, faça na minha escola. É criar oportunidade, público leitor nós temos.


Como é o processo de iniciação à leitura prazerosa nas escolas?
O projeto tem o modelo de clube de leitura. É uma roda de leitura onde todos participam com os seus olhares sobre a obra. São 10 encontros por ano em cada escola, segue o calendário letivo. Tem entre 24 e 30 participantes em cada clube de leitura. A gente considera a idade entre 13 e 18 anos. Uma das bases do projeto é que eles recebem o livro. Então, começam a criar a experiência de leitura a partir da posse de um objeto cultural. Vão formando outras bibliotecas. Ganham leitores nos irmãos, pais e primos. Muitos deles fazem alguma resenha. A leitura desperta o gosto pela escrita, a organização das ideias. Isso influi no aprendizado escolar.

O que a roda de leitura proporciona?
A leitura partilhada é um fator de crescimento para conhecer o livro pelo olhar do outro. É uma experiência riquíssima. Nada substitui a experiência de todos lerem o mesmo livro. Isso é enriquecedor e transformador. Muitas pessoas resolvem ler o livro novamente para encontrar a impressão dos outros amigos. É algo que tem a capacidade empática de levar a outro lugar.


Qual é o poder de transformação da leitura?
Mario Quintana escreveu: “Os livros não transformam o mundo. Transformam as pessoas e elas transformam o mundo”. Um menino leu O menino do dedo verde, de Maurice Druon, e disse: “Antes de ler esse livro, pensava que preso era quem estava privado de liberdade. Quem está preso só necessita do que eu preciso: de um propósito”. Ou seja, a leitura possibilita a um garoto de 13 anos fazer essa volta de que um presidiário é uma pessoa tão humana quanto ele. Só precisa de um projeto. Isso me emociona. Num dos minidocumentários, uma garota, integrante do projeto, diz: “Eu leio, mas não tinha com quem conversar. Não tenho diálogo com a mãe”. Emprestou o para mãe e ela leu. Começaram a conversar. É lindo, o livro que eles receberam ganha vida na família. Um garoto disse que livro é como roupa. Uma professora contou que, depois do projeto, a biblioteca da escola passou a ser mais frequentada. Já tem fila de espera para entrar no projeto.


Como é a relação de responsabilidade dos alunos com o projeto?
É extracurricular, participa quem quer e não tem vaga para todo mundo.


Como percebe a situação das bibliotecas nas escolas?
Elas estão bastante desaparelhadas. O profissional que trabalha na biblioteca, às vezes, não é apaixonado por leitura. A escola pública tem muito a fazer nesse campo: tornar a biblioteca atrativa. É um caminho grande de trabalho.


Qual é o impacto do projeto na escola?
A biblioteca passa a ser mais frequentada. Uma garota diz que tem mais gente no intervalo com os livros do que com o celular. Quero mais ler do que mandar mensagens de WhatsApp. Os professores começam a ver a mudança de qualidade da escrita. As meninas falaram que alcançaram notas melhores no Enem. Não falam mais apenas “gostei” ou “não gostei”. Começam a discorrer sobre os estilos de narrativas. “Adorei esse Cervantes, mas não gostei do final”. E muitos dizem que vão reescrever o final do livro. No Moby Dick, usaram um filme e dublaram com falas deles. Leram, ao mesmo tempo, O alienista. Falaram que, depois desse livro, descobriram que o português deles era pobre. “A gente achava que Machado de Assis era uma coisa para a minha avó ler. E adoramos.” Leram Terra dos homens, de Saint-Exupéry. Não gostaram do livro, achavam que era um diário. Mas adoraram as frases e começaram a emprestar para pessoas que passavam por situações difíceis. Começavam a ver o poder curativo da literatura.

Como lidar com a concorrência ou a convergência dos meios tecnológicos?
A relação não é de exclusividade com o livro físico. O meio poderia ser o celular ou o computador. Mas o livro físico e impresso, que pode ser manuseado e visto na biblioteca, ainda causa paixão. Tem um livro sobre uma conversa entre Umberto Eco e Jean Claude Carrière: eles dizem “não contem com o fim do livro.” Apesar de todo o avanço tecnológico, a gente tem um lugar para o livro físico. A relação é muito forte. A gente vê mesmo os youturbers falando sobre os livros físicos.


Que dica daria aos professores? 
Eu diria para eles que lessem mais para passar a paixão aos alunos. Quem nos inspira é Antonio Candido: ele fala no direito à literatura. Enxergar a literatura como paixão e direito. É um instrumento de humanização.

Qual o ganho e qual o legado da leitura?
É a humanização, vai nos tornando mais humanos. Enxergando o outro como igual. O encontro nos ensina muito a ver o diferente. Vivemos uma sociedade tão repartida, que não consegue estar presente em um campo de discussão porque a gente não concorda e não ouve o outro. Os encontros ensinam a escuta e o respeito ao outro. Que linda contribuição para a sociedade. Um adolescente que aprende a se expor e a ouvir o outro mesmo que não concorde. Assisti a um documentário sobre uma faculdade de medicina que instalou um laboratório de leitura. A literatura era o instrumento para conferir um pouco mais de humanidade aos futuros médicos.





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