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Correio Braziliense

Livro traça o retrato dramático do ex-senador Pinheiro Machado

Livro de narrativa saborosa. 'O senador acaba de morrer' traça o retrato dramático da trajetória de Pinheiro Machado, um dos senadores mais brilhantes da história brasileira. Era defensor tenaz da República


postado em 09/02/2019 07:00

Pinheiro Machado: o mais importante político brasileiro do fim do início do século 20(foto: Arquivo Pessoal)
Pinheiro Machado: o mais importante político brasileiro do fim do início do século 20 (foto: Arquivo Pessoal)

Anonymus Gourmet escreveu um livro saboroso. O mais conhecido dos críticos de gastronomia gaúchos acaba de tirar do forno uma obra sobre... o senador Pinheiro Machado, o condestável da República, o fazedor de presidentes, o mais importante político brasileiro na última década do século 19 e na primeira do século 20, esfaqueado e morto em 8 setembro de 1915.

Esse livro, intitulado O senador acaba de morrer, 296 páginas, editado agora pela LPM, começou a nascer de 1968, quando mil jovens brasileiros imaginaram que seria possível realizar um congresso secreto da clandestina União Nacional dos Estudantes na zona rural de Ibiúna, no interior paulista. Não foi, claro.

Anonymus estava lá. Levado a um presídio em São Paulo, certa noite recebeu a visita de um grandalhão, que lhe disse: “Vamos começar com você. Vem comigo!”. Ainda não havia notícias sobre torturas, mas o rapaz supôs que ia entrar no sarrafo.

“Qual é o seu parentesco com o falecido general Pinheiro Machado?”, quis saber o inquiridor. “Bisneto”. “O seu bisavô salvou a vida de minha avó!” Foi assim que Anonymus escapou ileso: graças a uma mentirinha (era sobrinho-neto) e à lembrança do parente ilustre, falecido havia mais de 50 anos.

Ao longo das cinco décadas seguintes, o hoje famoso chef palmilhou, como diria Borges, centenas de livros e documentos que lhe permitiram esboçar um acurado retrato de João Gomes Pinheiro Machado (1851-1915).

Sorocaba 


A família Pinheiro Machado era originária de Sorocaba, em São Paulo. Mas Antônio Gomes Pinheiro Machado, pai do futuro senador, em 1842, meteu-se um uma revolta armada contra a Regência e acabou tendo que se mudar para o Rio Grande do Sul. Instalou-se em Cruz Alta.

Homem ativo e articulado, Antônio tornou-se deputado provincial. Com o dinheiro trazido de São Paulo, mais os proventos da advocacia, comprou uma grande propriedade rural em São Luiz Gonzaga. Ali, começou a criação de mulas que depois venderia em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Da produção própria de mulas, mais a compra de tropas de outros criadores e o transporte delas até os mercados consumidores virá o dinheiro que patrocinará a vida do senador, já que na época não havia as, eufemisticamente chamadas, “verbas indenizatórias”.

No começo de 1865, Antônio leva seu filho até o Rio de Janeiro e matricula-o na Escola Militar. Quando Dom Pedro II convoca os Voluntários da Pátria para lutar contra o Paraguai, o imberbe José, de apenas 14 anos, mentindo estar com 18, inscreve-se como recruta e é mandado para o campo de luta. Lá, será descoberto mais de um ano depois por seu pai, nomeado auditor de guerra. Pouco depois se desliga do Exército, muito doente.

Em 1874, o jovem José ingressa na Faculdade de Direito de São Paulo, onde terá como colegas mais dois irmãos, Ângelo e Antonio, fato que indica a riqueza da família. Naquela faculdade desperta para a política. Participa da fundação do Clube Republicano em 1876. Lá, se aproxima de Júlio de Castilhos, que em 1891, já governando o Rio Grande do Sul, o indicará para participar, como senador, da Constituinte daquele ano.

Em 1893, se dá o único afastamento do cargo que exercerá até a morte. Defensor intransigente da República, Pinheiro Machado comandará, no Rio Grande do Sul, a célebre Divisão do Norte na guerra contra os maragatos de Gumercindo e Aparício Saraiva. Ao fim da luta, vitorioso, recebe de Floriano o título de general, que nunca usará.

Provocação ou medo?


São incontáveis as histórias marcantes, dramáticas ou cômicas, da vida de Pinheiro Machado. Bastante famosa é aquela em que o senador, saindo do prédio do jornal O Paiz, que o apoiava, defronta-se com uma horda de adversários que o recebe aos gritos e ameaças. Ordena, então, ao seu motorista: “Nem tão devagar que pareça provocação, nem tão depressa que pareça medo”.

São muitos os relatos que dão Pinheiro Machado, além de extremamente hábil articulador político, como homem de muita coragem pessoal. Chegou a duelar, por exemplo, com Edmundo Bittencourt, proprietário do Correio da Manhã, jornal que mantinha cerrada campanha contra ele.

No capítulo 24 de O senador acaba de morrer, há uma detalhada descrição desse combate, ocorrido em 1906, em uma zona então desértica do litoral carioca, hoje conhecida como Ipanema.

Antes mesmo que a contagem chegasse a três, um afoito Bittencourt sacou o revólver e disparou contra Pinheiro Machado. Já o senador, “exímio atirador”, e dono de “notável destreza no manejo de uma pistola, propositalmente atirou para o lado”, registra O Paiz.

“Houve então um movimento por parte das testemunhas do sr. Bittencourt, sugerindo o encerramento do duelo. O general Pinheiro Machado recusou: “Os meus atos políticos podem ser atacados politicamente. Mas, quando sou agredido na minha honra pessoal, castigo.” As armas foram municiadas. Mais uma vez, Bittencourt adiantou-se ao três! E de novo falhou.

Foi então a vez de Pinheiro Machado atirar. Prossegue O Paiz: “De novo o sr. Bittencourt teve sua vida à mercê do general Pinheiro Machado. Sua Excelência, entretanto, não deu o tiro de misericórdia: calmamente baixou a pontaria, ferindo-o na nádega. Sua honra estava redimida”. Descontado o panfletarismo militante da época, alguma verdade haverá aí.
 

Tramas do assassinato

 
Francisco Manso de Paiva Coimbra, o homem que matou Pinheiro Machado, era um gaúcho de Cacimbinhas, padeiro desempregado, mas que arranjara muitas confusões quando trabalhara como agente da polícia municipal de Pelotas.

Na época, não foi descoberto o mandante, ou mandantes, do crime. O que o livro de Anonymus traz de interessante, nesse aspecto, são os muitos sinais que ligam o assassino ao então governador do Rio de Janeiro, Nilo Peçanha. Após o crime, João Francisco Pereira de Souza, “A hiena do Cati”, destacado caudilho gaúcho, disse ter ouvido de Pinheiro Machado dias antes do atentado: “Não há hipótese de que um atentado contra mim possa falhar. Eles querem a minha morte instantânea... Nilo é um assassino e quer que eu morra antes de ser decidida pelo Senado a intervenção no Rio de Janeiro.”

Seis anos após o crime, em 1921, Manso de Paiva reconheceu, em entrevista ao Rio-jornal, que tivera longas conversas com Nilo Peçanha e que nelas deixara clara sua intenção de matar o senador. “Um mês depois, éramos dois bons camaradas. Eu frequentava já sua residência”. Na onda reversa pós-atentado, um interventor decidiu mudar, na marra, o nome de Cacimbinhas para Pinheiro Machado, mesmo arrostando a revolta da população. Manso de Paiva curtiu duas décadas de cadeia e depois era visto pelas ruas do Rio tentando vender sua história aos jornalistas.

Vinho e charuto

Há vários capítulos notáveis. Num deles, o autor esboça um belo retrato dos dias que antecedem a proclamação da República, deixando clara sua simpatia pelo desencantado Dom Pedro II. A verdade é que os fanáticos adoradores da República, como Pinheiro Machado, jamais poderiam imaginar que, afastado o unificador poder real, as gananciosas e deletérias oligarquias dos Estados iriam se empenhar em uma luta fratricida que dura até hoje e que tantos lucros proporcionou a elas quanto prejuízos causou ao país. Há ainda um valioso capítulo sobre a execrável arte da degola, exercida largamente na Revolução Federalista de 1983.

Casado com dona Nhanhã, Benedita Brazilina, sem filhos, Pinheiro Machado era um homem extremamente elegante, que jamais foi visto usando uma bombacha. Trazia sempre uma pérola cara na gravata vistosa. Usava chapéu panamá. Bebia um vinho até hoje muito caro, o Chateau D’Yvrem, cuja garrafa deixava no chão, ao seu lado, enquanto os comensais contentavam-se com zurrapa. Fumava os ainda hoje famosos e dispendiosos charutos Partagás, de Cuba.

Era tão elegante quanto seu sobrinho-bisneto que jamais abandona a gravatinha borboleta enquanto pilota um fogão. O nome verdadeiro de Anonymus Gourmet é José Antonio Pinheiro Machado, advogado e jornalista em Porto Alegre.

Lourenço Cazarré é escritor e jornalista


O senador acaba de morrer

De José Antonio Pinheiro Machado, Ed. LPM/256 páginas
 
 
 
 
 
 
 

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