Publicidade

Correio Braziliense

Conheça histórias de quem conviveu com Dulcina de Moraes em Brasília

Personalidades que conviveram com a atriz enfatizam a importância dela para o teatro de Brasília e do Brasil


postado em 10/02/2019 06:30

Fonte de inspiração permanente para as novas gerações (foto: Monique Renne/Esp. CB/D.A Press)
Fonte de inspiração permanente para as novas gerações (foto: Monique Renne/Esp. CB/D.A Press)

“Quero que vocês façam teatro com T maiúsculo”. Essa era uma das icônicas frases dita pela musa das artes cênicas no Brasil, Dulcina de Moraes. Para a cultura de Brasília, a atriz tem um valor inestimável por fundar faculdade e formar uma cena teatral com força na capital. Mas para quem foi seu aluno e conviveu diretamente com ela, Dulcina continua sendo uma inspiração para seguir em frente na profissão.

Nascida em 1908, Dulcina veio para Brasília nos anos 1970 para realizar o projeto de manter a Fundação Brasileira de Teatro (FBT), assim como a Faculdade Dulcina de Moraes, por aqui, é um verdadeiro exemplo para os alunos que passaram por lá durante todos esses anos. Mas, principalmente para quem teve o privilégio de estar presente em cena com a atriz ou como tê-la como professora.

O diretor de teatro Fernando Guimarães é um deles. Ele conta que só virou ator por causa dela. Estudante de engenharia civil na (UnB) em 1983, aos 18 anos, Fernando encontrou Dulcina no elevador da faculdade quando foi conversar com uma amiga no local. “A Dulcina me viu e perguntou se eu era ator. Quando eu respondi que não, ela me olhou como se eu fosse um alienígena, e me convidou para fazer um teste para uma peça e para entrar na faculdade ali mesmo”, relembra o diretor.

A partir daí, o curso de engenharia não fazia mais sentido para Fernando. Fez o teste para ser figurante na peça Julio Cezar, de Shakespeare e começou a ter aulas com Dulcina. “Eu devo tudo a ela. Larguei a UnB e comecei a praticamente morar no teatro, e isso dura até hoje”, afirma o diretor.


Mentora

Dulcina de Moraes em cena: presença fundamental na história do teatro brasileiro(foto: Acervo/Fundação Brasileira de Teatro)
Dulcina de Moraes em cena: presença fundamental na história do teatro brasileiro (foto: Acervo/Fundação Brasileira de Teatro)

Em 1982, o ator André Amaro ainda não tinha muito conhecimento dos trabalhos que Dulcina tinha feito, só sabia que era uma pessoa importante. Eis que no primeiro dia de aula, André se deparou com uma pergunta que Dulcina fazia para todas as turmas: “O que vocês estão fazendo aqui?”.

Impactado pelo questionamento, com apenas 20 anos, André decidiu responder que estava no teatro para dar vazão a uma natureza artística que já possuía. “Foi um contato muito forte, de uma personalidade muito forte, com uma presença muito forte. A pergunta chegou em uma forma inesperada, ninguém sabia o que responder”, recorda.

A partir daí, Dulcina sentiu a dedicação que André tinha e resolveu adotá-lo como um ator de quem ela queria cuidar. “Ela começou a me cercar mais, me botar no gabinete dela, eu sentia que ela queria se aproximar porque acreditava que eu tinha potencial para seguir a carreira. E até hoje a minha vida tem sido pautada pelo teatro”, afirma o diretor.

“Eu me sinto muito privilegiado, é um reconhecimento de que a presença de um mestre é definitiva na vida de uma pessoa e você tem que saber aproveitar. Mais do que me sentir envaidecido eu me senti agradecido por ter essa chance de aprender teatro com uma das maiores almas teatrais que esse planeta já viu”, elogia André Amaro.

Devoção ao teatro 

A perseverança em realizar um projeto e o amor pelas artes cênicas eram o que mantinham Dulcina de Moraes apaixonada pela vida. O ator Preto Rezende também foi um dos alunos de Dulcina e conheceu o amor pelo teatro quando teve a atriz como professora em 1984. Rezende lembra que Dulcina era uma mulher cheia de energia, principalmente em se tratando de estar em cena. “Ela não cansava de nos alertar sobre o caminho que tínhamos escolhido. Com frases inesquecíveis como ‘cuidado com a cobra verde’, se referindo à vaidade’”, disse o ator.

Fernando Guimarães disse que conviveu com uma Dulcina madura. Mas, apesar do peso da idade, Dulcina tinha um “ritmo fenomenal para falar”. Muito assertiva e com uma consciência de classe do ator, foi com ela que Fernando aprendeu o que era o papel de uma atriz. “Eu herdei a minha disciplina e rigidez com meus alunos por causa dela”, afirma o diretor, que também é professor na Faculdade Dulcina de Moraes. 

Dulcina era uma figura muito característica. Mesmo muito rígida e empenhadíssima em realizar uma peça, a musa é lembrada até hoje pelo bom humor e com muito carinho. Sempre muito sorridente, desfilava pela Faculdade com seus óculos enormes e batom vermelho nos lábios. “Aprendi com ela o amor pelo teatro, o respeito ao público e a disciplina incansável do trabalho proposto, mas sempre com a satisfação em fazê-lo. Também aprendi a dividir com os mais novos a generosidade em ensinar. O principal legado foi o prazer em estar em cena”, elogia Preto.

Já André Amaro diz que Dulcina foi um ser especial, que desde o embrião já tinha uma estatura de um grande ser humano. “Quando ela veio ao mundo para servir ao teatro, o fez com muita dignidade, respeito e, principalmente, com muito amor”, elogia.

Até hoje, todo o prédio do império de Dulcina de Moraes parece ser um local sagrado para quem trabalha e estuda lá. Os alunos e funcionários ajudam na manutenção do espaço para manter o legado dessa atriz que passou a vida inteira lutando pela sobrevivência da alma artística e do próprio teatro no Brasil.

Dulcina morreu aos 88 anos, em agosto de 1999, e construiu um legado teatral que jamais se deve desprezar, ignorar ou esquecer. André concorda que ela deixou o sentido de responsabilidade e de luta pelo direito de existir no teatro. “Além disso, eu acho importante a resistência que se mantém em todo o complexo cultural Dulcina de Moraes no Conic até hoje. É um legado de absoluta devoção a essa arte que é na verdade uma grande mágica”, conclui André Amaro.


Depoimentos


“Dulcina foi uma das nossas mais importantes figuras do teatro brasileiro. Tem uma importância fundamental para Brasília fundamental. A Faculdade tem formado grandes atores por conta de seu legado. Ela foi a criadora dos descansos das segundas-feiras, porque antigamente nós tínhamos sessões de segunda a segunda, e aí ela instituiu a folga na segunda-feira. E isso nos inspirou a criar a sessão especial do Teatros das segundas-feiras, no Teatro Nacional. De qualquer maneira, sem ela o teatro brasileiro não seria o que é hoje”.
João Antonio, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), ator e diretor de teatro.   

“Dulcina é a pessoa de mais importância das artes cênicas do século 20 no Brasil. Ela compreendeu o mercado das artes, tanto trazendo novas peças como valorizando a carreira do ator. Até a época da Dulcina, tinha-se que representar no teatro o português de Portugal, e com ela, começa a performar com o português brasileiro. Ela foi uma pessoa que veio e falou ‘isso aqui é profissão, não é um hobby’. Sem falar na importância do empoderamento feminino, muito importante para a época. A gente está muito melhor por causa dela” 
Adair Oliveira, ator e professor da Faculdade Dulcina de Moraes

“Primeiro, não podemos negar a questão da formação que ela trouxe para os atores. O princípio dela era profissionalizar e ampliar a relação da arte. Eu acho que é o mais impecável. Partindo daí, vem a Faculdade que era a academia de teatro, que teve grandes nomes como Bibi Ferreira. Então, hoje o que nós vemos é o trabalho que é feito no complexo cultural Dulcina de Moraes é fortalecer e manter o que a Dulcina ensinava. Eu acho que ela talvez começasse a se sentir em casa novamente”,
Chris Ramires, coordenadora executiva da Faculdade Dulcina de Moraes 


“O que eu aprendi com a Dulcina foi me colocar no centro do espaço de como eu vivo artisticamente e culturalmente. Ela foi um exemplo mais pelo que ela fez, do que falou. Foi uma mulher revolucionária, que conquistou o que queria para realizar o sonho dela. Ela queria formar artistas e pessoas para a vida cultural, quando ela diz isso significa que todos nós fazemos parte deste sonho dela. Dulcina disse que ela era uma colecionadora de emoções e eu acho isso lindo”, 
Glória Teixeira, cineasta e diretora do documentário sobre Dulcina, previsto para ser lançado em abril
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade