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Correio Braziliense

Retrospectiva reúne o violento e tenso cinema de Scorsese

Exímio no comando da violência, da narrativa clássica e no retrato de tipos alucinados, diretor norte-americano ganha mostra no CCBB da capital


postado em 12/02/2019 07:38

Martin Scorsese, ao lado do habitual colaborador dele: o ator Robert De Niro (foto: Warner / Divulgação )
Martin Scorsese, ao lado do habitual colaborador dele: o ator Robert De Niro (foto: Warner / Divulgação )


O retrato do submundo, com uma ponta de glamour, e o encaminhamento de personagens — com destinos traçados — para a violência são certamente alguns dos pontos de acesso para o brilhante mundo de cinema criado pelo diretor Martin Scorsese que, a partir de hoje (12/02, terça), ganha uma retrospectiva no CCBB, com exibição de 33 produções, entre as quais 25 longas-metragens de ficção. O veredicto se crimes compensam cabe aos espectadores. “Scorsese tem descendência italiana e cresceu em Nova York, no bairro de Little Italy. Ele cresceu vendo de sua janela algumas cenas de violência de membros da máfia. Daí, surge a relação dele com o tema”, observa Marina Pessanha, curadora da mostra, ao lado de José de Aguiar.

“Acho que, certamente, a violência é um tema recorrente na obra de Scorsese, apesar de não estar presente em todos os filmes dele. Embora o diretor tenha um posicionamento crítico em relação ao comportamento de seus personagens, é inegável que quando a violência aparece, ela é retratada de forma muito realista, sem pudor e chocante”, avalia Pessanha.

É à noite que alguns “animais” (como qualifica o psicótico protagonista de Taxi driver) de Scorsese atacam. Nela, as narrativas mostram da pobreza e o lado B do sonho americano (como em Caminhos perigosos, movido por mafiosos e dívidas de jogos) ao perambular de tipos desesperados como o condutor de ambulância encarnado por Nicolas Cage, em Vivendo no limite (1999).

Para além do grafismo violento, o cinema de Scorsese tem tempero e fundamento na variedade de recursos de quem muito bem entende a gramática da sétima arte, e de quem explorou gêneros contrastantes (fez o musical New York, New York e extraiu drama e sátira de Jerry Lewis, em O rei da comédia), sem obsessões por tema único.

A adoção de câmera lenta, a narração em off e o primor das sequências de abertura (“elas têm extrema importância, por prometerem algo”, já disse o mestre) calibram um filme de Scorsese. A isso se junta a capacidade de direção de atores (ao lado do propósito de criar estudos de personagens) — alguns premiados com o Oscar, casos de Ellen Burstyn (Alice não mora mais aqui), Robert De Niro (Touro indomável) e de Paul Newman (A cor do dinheiro).
 
Cabo do medo: revisão do clássico traz Jessica Lange e Juliette Lewis em cena do longa de 1991(foto: UIP / Divulgação )
Cabo do medo: revisão do clássico traz Jessica Lange e Juliette Lewis em cena do longa de 1991 (foto: UIP / Divulgação )
 
 
Peculiaridades

Entre 12 indicações (em diferentes funções) para a reluzente estátua do Oscar, e apenas uma vitória (pela direção de Os infiltrados), Scorsese nem sempre acena para o que seja rentável em Hollywood, e luta por injetar teor artístico em projetos nem sempre vendáveis. O Festival de Cannes soube louvar o cinema de Scorsese, com direito a duas vitórias de Palma de Ouro (por Taxi driver e Depois de horas).

Dar visibilidade a personas caras ao cinema como Jodie Foster e Harvey Keitel, com o lançamento de figuraças, como Joe Pesci (que, antes de ser ator, administrava restaurante italiano do Bronx) e se aliar sistematicamente aos talentos de Robert De Niro, Daniel Day-Lewis e Leonardo DiCaprio demarcam méritos do diretor de 76 anos.

Com 11 indicações ao Oscar, A invenção de Hugo Cabret (2011) provou a devoção de Scorsese pelo cinema, num enredo que mescla a construção de um androide aos mundos de lendas vivas da sétima arte como Georges Méliès e o ator Christopher Lee. Com Cabo do medo (1991), thriller em torno de um abusador sexual (personagem de De Niro), juntou os talentos de Jessica Lange e Juliette Lewis (indicada ao Oscar) aos de Robert Mitchum e Gregory Peck na concepção de uma refilmagem de uma fita clássica de 1962.

Na mostra que começa hoje, no CCBB, com mais de três horas e meia de duração, o documentário Uma viagem pessoal pelo cinema americano (exibido em caráter gratuito) é exemplar em trazer para a dimensão do conhecimento de Scorsese sobre o cinema. Na mesma linha, na programação de amanhã, Minha viagem à Itália, traz mais de quatro horas de cinema dos anos 1940 aos 1960 cobertos pela análise do pequeno gigante do cinema.


Uma vida frenética e dedicada à sétima arte


Conhecido pelo pioneirismo na preservação e no restauro de filmes, Scorsese teve uma infância modesta, tendo nascido no Queens e lidado com a condição de saúde frágil, que o encaminhava para as regulares sessões de westerns e épicos bíblicos que enchiam as telas novaiorquinas. A percepção do movimento dada pelos filmes é dos elementos mais caros ao diretor, que já comentou, em entrevista no exterior: “Adoro o modo como uma câmera se move”. Desenhos e croquis fazem parte das pesquisas imagéticas de Scorsese. A música também diz muito a respeito dele, que foi supervisor de montagem de Woodstock (1970), dirigiu o clipe Bad (1987), de Michael Jackson, e esteve à frente do documentário The last waltz — O último concerto de rock, com a The Band (que moveu paixões de Bob Dylan) e se despediu em Winterland (São Francisco), na presença de artistas como Eric Clapton, Ringo Starr e Joni Mitchell.

Numa indústria por demais machista, Scorsese afirmou, em colaboração singular, um longevo casamento artístico com a montadora Thelma Schoonmaker. Ela, por sinal, assinalou a edição de filmes que retratam os tipos absurdamente machistas de Quem bate à minha porta? e Touro indomável.

“Na obra dele, há uma predominância de personagens masculinos e, em muitos de seus filmes, os protagonistas realmente são machistas. Entretanto acho que Scorsese filma de uma forma que ele se desloca destes personagens, ou seja, ele não compactua com o machismo destes personagens. No filme Touro indomável, por exemplo, apesar de ficarmos bem perto do pugilista Jake La Motta, o filme mostra a todo tempo suas contradições, seus defeitos, seu ciúme exagerado, sua violência contra sua mulher. O filme expõe, de maneira bem crua e real, o machismo”, comenta a curadora Marina Pessanha.

Precisão


Excepcional na captação da degradação, do apogeu, dos excessos e da finitude de figuras poderosas (como visto em Os bons companheiros, Cassino e O lobo de Wall Street), Scorsese não mede esforços para trazer requinte a versões da alta sociedade mostradas em A época da inocência (1993) e de O aviador (2004), cravando deslumbre até mesmo de ambientes inglórios como os de Gangues de Nova York (2002) e daqueles em que habita o solitário Travis Bickle (De Niro em Taxi driver), que se sente injustiçado pelas lambanças de um sistema de governo que reforça sua visão de excluído. Ainda no recorte da mostra, entram os dilemas religiosos do ex-estudante de seminário Scorsese. Dúvidas, inseguranças e sensualidade permeiam sua adaptação para a obra de Nikos Kazantzakis A última tentação de Cristo , que mostram Willem Dafoe como um Cristo baratinado pela imersão numa vida cotidiana. A vertente espiritualizada se imprime ainda em filmes como Kundun (1997) e Silêncio (2016).
 
Três perguntas // José de Aguiar, curador 

Dentro da nova engrenagem do cinema americano dos anos de 1970, qual a peculiaridade de Scorsese?
Com a chamada “Nova Hollywood”, Scorsese tem vários elementos de contato, como filmar a baixo custo para ter liberdade, usar locações reais, escrever roteiros de narrativa mais livres e sujos, com o uso de palavrões e a presença da nudez; mas ele possuí peculiaridades, tanto na carreira como nos seus filmes. Na sua carreira nos anos 70, destacaria o fato de que apesar da Palma de Ouro, em Cannes, com Taxi driver, Scorsese era um realizador até certo ponto marginal em relação à produção dos grandes estúdios, diferentemente de Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg, com projetos de certa forma pequenos, de relativo baixo orçamento, e, até o início dos anos 90, ele era visto de certa forma como um cineasta mais independente e de visão bastante pessoal. Além disso, alguns elementos do seu estilo são singulares, por exemplo o uso da música popular como trilha sonora e de recursos como o da câmera lenta, da narração em off — que são suas assinaturas.

Como percebe o impacto das obras em que Scorsese explora temas ou registros musicais?
Scorsese é um dos pioneiros na utilização da música popular, em especial o rock’n’roll na trilha sonora de seus filmes. Acho que estas músicas fazem com o que filme se torne menos preso a uma formatação do cinema clássico e que ele tenha uma relação mais orgânica com elementos de seu tempo.

Qual a aparição do diretor, nos moldes do que Alfred Hitchcock fazia, que mais impressiona?
A aparição que mais marcante dele é no filme Taxi driver, quando ele interpreta um personagem de um passageiro do taxista, que acha que sua mulher o está traindo. Ele diz que gosta de atuar em seus filmes para se colocar no lugar de seus atores e entender o processo fílmico do ponto de vista deles, já que para Scorsese a atuação é um elemento central nos filmes. 
  
 
 

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