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Correio Braziliense

Filme nacional 'Tito e os pássaros' estreia na quinta-feira na capital

Na trama do longa, uma doença associada ao medo amplifica a reflexão e a imaginação dos pequenos amigos Tito, Sara e Buiu


postado em 13/02/2019 07:03 / atualizado em 13/02/2019 08:22

Cena de Tito e os pássaros(foto: Elo Company/Divulgação)
Cena de Tito e os pássaros (foto: Elo Company/Divulgação)


No aspecto financeiro — de rede de apoio para produção —, o comparativo seria desleal: enquanto animações produzidas pela Pixar/Disney gastam entre US$ 100 milhões e US$150 milhões, com apenas R$ 5 milhões, o longa de animação brasileiro Tito e os pássaros (codirigido por Gustavo Steinberg, André Catoto e Gabriel Bitar) chegou perto do corte final para figurar no Oscar, ao lado de outros 19 filmes que não conseguiram a vaga. “Acho que chegamos longe. Com o filme O menino e o mundo (animação nacional indicada ao Oscar) tivemos a repercussão de ter estado no Festival de Annecy (evento francês, primordial no segmento).  A carreira do Tito foi bastante surpreendente, como foi a do longa brasileiro Uma história de amor e fúria (vencedor de Annecy). Tito entrou como uma continuação de sucesso: não éramos mais a exceção, mas a continuidade da tradição recente com repercussão internacional”, comenta o codiretor Gustavo Steinberg.



Num trabalho bem coletivo, com mais de 120 pessoas integradas ao projeto, nos últimos três anos, diariamente, mais de mil planos de desenhos foram concebidos. “O cenário veio de pincelada mais soltas incorporadas ao sistema digital, no qual trabalhamos com integração de pintura a óleo. Para uma leitura universal, apostamos em representar relações coladas ao conceito de diversidade; chegamos a mais de 80 festivais de cinema”, assinala Steinberg.

Na trama do longa, uma doença associada ao medo amplifica a reflexão e a imaginação dos pequenos amigos Tito, Sara e Buiu. “Desde o roteiro, fiquei entusiasmada. Com fábula e aventura, o filme tem coragem de falar da indústria do medo. Às vezes, nem percebemos como as crianças são criadas nesta realidade: o medo é ingrediente que paralisa. Existe uma cultura do medo que serve a muitas pessoas. É importante encorajar as crianças a duvidarem de alguns medos”, comenta a atriz Denise Fraga, que empresta a voz à personagem Rosa, uma mãe. Mateus Solano (leia entrevista) e Otávio Augusto também são nomes de peso na produção.

Assunto de debates constantes, o medo se instalem em muitas situações de Tito e os pássaros. “Tem uma coisa real acontecendo, muito caracterizada por esta questão de você liberar o porte de armas, como se isso fosse diminuir a violência. Sou da opinião contrária. O filme tem sido feito há oito anos: nos tempos em que estamos, é assustador ver quanto seja político e atual. O medo a serviço de interesses, porém, ocupa o mundo”, avalia a atriz. O “divertimento assustador” para o público infantil sedento de crescente espanto (apontado em pesquisa atrelada ao projeto do filme), pelo que reforça Denise Fraga, pode criar ambiente de conversas entre pais e filhos sobre adversidades da vida — “enfrentadas com persistência”.



Rara amizade

O The New York Times deu o mérito de Tito e os pássaros ser dos primeiros filmes a estabelecer relação positiva entre humanos e pombos, fundamentais à trama. “Aplicamos uma simbologia de trazer ao primeiro plano os livres e os rejeitados. Tem uma espécie de oráculo que é a mendiga que convive com os pombos. Eles são observadores privilegiados. Sendo um urbanoide típico, vejo pombos como seres que vivem com a gente, e trazem uma memória coletiva que optamos por esquecer”, observa Gustavo Steinberg.

Tito e os pássaros foi a primeira animação brasileira selecionada para o Festival de Toronto, ao lado de apenas outro título do gênero: Minúsculos 2. Melhor longa infantil, no AnimaMundi, ainda foi finalista ao importante Annie, como animação independente. Nos Estados Unidos, o longa estreou em 25 de janeiro.

O diretor explica que as cores adotadas no filme vieram por influência sugerida por Gabriel Bitar, parceiro na codireção. “Muitas referências vieram do expressionismo. Nos filiamos bastante à pintura a óleo do George Grosz (morto em 1959). Do cinema, a gente usa bastante a dispersão e as sombras. O vermelho é associado ao medo, por exemplo, quando o cenário está mais distorcido. Tínhamos a preocupação de quanto medo podíamos trazer para dentro do filme”, comenta Steinberg. Denise Fraga enfatiza a singularidade do longa. “No Brasil, os atores sempre pensam em só dublar, quando se trata de trabalhar em animação. Começamos os ensaios como se fôssemos encenar um filme. Os desenhistas ficavam vendo os ensaios. O resultado é o de que, quando vejo a Rosa desenhada no filme, por ser uma pessoa que gesticula muito, eu me vejo”, sintetiza.






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