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Correio Braziliense

Aziz Ahmed lança livro de entrevistas que narram a história brasileira

Nomes como Ricardo Boechat, Carlos Lacerda, Charles De Gaulle e Roberto Marinho são alguns dos personagens


postado em 09/03/2019 06:30

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
Existe um dogma inabalável nas redações de jornais, segundo o qual o jornalista não é notícia. Aziz Ahmed tem 80 anos e passou 55 nas redações de jornais. Sempre conversou com os colegas e ouviu histórias muito interessantes. Algumas delas desmistificam verdades aparentemente incontestáveis. É o caso da versão de que o ex-presidente da França Charles De Gaulle teria afirmado que o Brasil não é um país sério.

A frase é repetida 24 horas por dia nas páginas dos jornais ou nos programas de tevê. Mas Aziz foi apurar com Luiz Edgar de Andrade para quem De Gaulle teria concedido entrevista, e o repórter repeliu categoricamente a versão. Para Aziz, é um caso clássico de cascata ou, se preferirem, fake news: “É a maior fake news da história da imprensa brasileira”.

Aziz resolveu reunir 26 jornalistas veteranos e ouvi-los para compor uma história dos bastidores, uma história não oficial da imprensa escrita. A iniciativa resultou no livro Memórias da imprensa escrita, a ser lançado, na segunda-feira, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). É um mar de histórias reveladas: a maioria divertida, outras trágicas e todas reveladoras do jornalismo e da história brasileira.

Dos 26 entrevistados, somente três tinham menos de 70 anos: Aluizio Maranhão, Bruno Thys e Ricardo Boechat. Aliás, Boechat concedeu a última entrevista a Aziz e falou durante três horas. O livro traz a inovação de oferecer um QR Code, que permite ouvir e ver os diálogos dos personagens na íntegra. Marcelo Monteiro, cartunista de O Globo desde 1962, faz as caricaturas.

Aziz é carioca de Vila Isabel, iniciou a carreira jornalística no Correio da Manhã em 1961, exerceu o cargo de chefe de reportagem em O Globo e na Última Hora. Dirigiu a sucursal da Última Hora em Brasília e foi editor. Dirigiu o Jornal do Comércio de 1979 até 2013. E, nesta entrevista, ele conta histórias e fala sobre os anos dourados, os anos de chumbo, a redemocratização e os dilemas atuais da mídia.
 

Como nasceu a ideia de fazer o livro?
Sempre conversei com colegas da minha geração. Comecei no Correio da Manhã em 1961 e conheci muitos fatos interessantes nesses diálogos. Miranda Jordão, ligado à Última Hora, era amigo de Samuel Wainer. O jornal fechava tarde e Wainer ficava em uma mesa de restaurante cheia de  homens de negócio até duas horas da manhã. Miranda ligava e ele perguntava: o que era a manchete do jornal? Miranda respondia: é a história de um marido traído, que mata a mulher e coloca no freezer. Do outro lado da linha, Wainer respondia: “olha, acho melhor você colocar assim: marido mata mulher e coloca no freezer. Daqui a pouco, os jornaleiros gritavam a manchete para vender o jornal e todos os participantes da mesa pensavam que Wainer havia reelaborado a manchete.


Quem trabalha em jornal tem muitas histórias para contar?
Vamos a uma história de jornalismo policial. Jarbas domingos trabalhava na Última hora com Amado Ribeiro e fizeram uma matéria com um cara que tinha o apelido Coisa ruim. Era de uma família de marginais. O pai tinha uma escola de punguistas, de batedores de carteira. O aluno tinha de tocar nos bonecos sem mexer nos guizos. O Arnaldo Niskier conta história do que era o Adolfo Bloch. Ao mesmo tempo generoso e cheio de rompantes. Vinha descendo até as rotativas e tinha um funcionário dormindo. Bloch deu uma esculhambação: eu trabalhando e você aí descansando. O cara ficou puto e deu um soco no nariz dele. Teve de ir até o hospital para se tratar. Aí, perguntaram para ele se ia demitir o funcionário. Ele disse: não, fui muito grosseiro com ele.


E a história de que a frase do De Gaulle sobre o Brasil é fake news. Procede?
Essa história é interessante. O Gabeira até escreveu uma coluna que nunca havia conversado com Luís Edgar de Andrade, o repórter a quem é atribuído ter registrado a frase do De Gaulle. Entrevistei o Luís Edgar. Ele era corresponde em Paris, entre 1960 e 1965. Ele negou taxativamente que De Gaulle tenha proferido a frase. Disse que o presidente francês nunca falou isso. Houve, sim, uma conversa com um embaixador. Edgar não sabe de onde tiraram essa história. É a maior fake news da história da imprensa brasileira.


Como é a história do sonho de Carlos Lacerda ser autor de radionovelas?
Antes de ser o político que foi, Carlos Lacerda queria ser autor de novelas. Ficou empolgado com a radionovela Direito de Nascer. Entrou para a Tribuna da Imprensa, comprou o jornal e desistiu. Se fosse novelista, Getúlio Vargas não teria se suicidado, Jânio Quadros não havia renunciado e Jango não seria derrubado. Como se vê, esse episódio influiu muito nos destinos do país.


Fatos aparentemente triviais afetam a vida do jornalismo e do país?
Henrique Caban conta uma história interessante sobre o destino das organizações Globo e do Jornal do Brasil. Na visão de Caban, o pragmatismo do doutor Roberto Marinho venceu a soberba do Nascimento Brito. Roberto era um cara que recebia todo mundo; Nascimento Brito não recebia ninguém. Quando estavam disputando os classificados, não recebia nem Sérgio Dourado, empreendedor imobiliário, o grande anunciante da época. Nascimento Brito tinha o espírito de nobreza, só se referia a Roberto Marinho como “aquele mulato”. Quando viajou para outros países, o doutor Roberto percebeu que o futuro do jornalismo se dirigia mais para a redação do que para as oficinas. Nascimento não entendeu esse movimento crucial para o jornalismo contemporâneo. Investiu na sede e no parque gráfico. Comprou um prédio majestoso, adquiriu 32 máquinas de linotipo que nunca foram usadas. O Globo conquistou o mercado.


A quem se dirige o livro?
Acho que para estudante de jornalismo tem muitas coisas interessantes. Contribuo um pouco para um centro de memória da imprensa. Quem faz obituário tem de ter livro desses na mão. Ao longo das revelações, os jornalistas vão explicando o que é cascata, nariz de cera, barriga. Qual a importância da notícia verdadeira. É a experiência de uma época romântica e maravilhosa. Não havia internet, nada disso. Caban foi diretor de uma revistinha que só passava a programação da tevê. Vendia 500 mil exemplares. Tinha uma ou outra reportagem com algum artista. Uma semana depois do controle remoto, a empresa teve de fechar. Ninguém mais comprava. Acabou com uma revistinha. Se refletir sobre a internet, ela acabou com vários jornais.


Como vê a relação entre jornal e tecnologia?
A tecnologia modifica totalmente a relação com o jornal. No tempo que instalaram o fax, eu era o único cara na redação que sabia operar a máquina. Lembro do João Saldanha, eu o levei para trabalhar na Última Hora. Ele tinha uma casa em Maricá. Aí, falei: “João, tem um negócio de um fax aí”. Instalou em casa e comentou: “Não vou mais para o Rio de Janeiro, mando tudo por fax”. O fax já foi uma revolução. Com a informatização do jornal, tudo mudou.


Sem nostalgia, o que era maravilhoso e precisaria ser resgatado no jornalismo de 1940, 1950 e 1960?
O idealismo. Era fascinante, você tinha uma liberdade muito grande. Hoje, qualquer um te processa. Você entrava em uma redação de manhã e saía de madrugada. Fazia com prazer, não era obrigação, estava se lixando para horário de saída. Geralmente, tinha mais de um emprego. Depois, veio televisão e pagou melhor. A rádio mantém ainda um pouco desse espírito romântico. O jornal, não, mudou muito. Esse pessoal antigo tem essas recordações de um período muito combativo.


O que está fragilizando o jornalismo impresso no Brasil: as inovações vertiginosas das tecnologias de comunicação ou a incapacidade de se preparar para se inserir  em um novo tempo?
É uma conjugação desses dois fatores. Grandes patrões como Samuel Wainer e Roberto Marinho se antecipavam aos problemas. O pessoal da Zero Hora também. Há mecanismos para você botar a tecnologia e o jornal impresso funcionando. O Japão é um centro de alta tecnologia, mas, apesar disso, tem jornal com seis milhões de exemplares. Por que o jornal não acabou no Japão?

O último depoimento de Boechat

O jornalista Ricardo Boechat, morto recentemente em um acidente de helicóptero, era amigo de Aziz Ahmed. Boechat concedeu uma entrevista de três horas, a última de sua vida. Contou que o pai era militante comunista e foi demitido da Petrobras quando veio a ditadura. Toda a família viveu um período dramático: “Ele chegou a fazer um teste para vender sepultura em um empreendimento, mas não foi aprovado”.

Boechat apresentou a sua versão para fatos polêmicos nos quais se envolveu(foto: Rede Bandeirantes/Divulgação)
Boechat apresentou a sua versão para fatos polêmicos nos quais se envolveu (foto: Rede Bandeirantes/Divulgação)


A mãe e o próprio Boechat passaram a vender livros. Uma das pessoas para quem tentou comercializar as obras literárias era diretor comercial do Diário de Notícias e o indicou para uma vaga de repórter no jornal: “Ele disse que foi uma etapa que marcou muito a vida dele,” lembra Aziz. “Foram muitas batidas da polícia na casa dele. Muito tempo depois, ele teve acesso a um relatório do serviço de inteligência, que apontava a casa da família dele como um local onde se guardavam as armas para atividades subversivas, e a mãe dele era acusada de ser uma agente do grupo terrorista Tupanaros. Uma coisa totalmente absurda. A mãe era uma pobre portenha, que viajava para o Uruguai para tratar da irmã de Boechat”.

Boechat faz um relato de como conheceu e se tornou amigo dos empresários Paulo Marinho e Nelson Tanuri, amizade que provocou a saída dele de O Globo. A revista Veja revelou conversas clandestinas, que comprometeram Boechat. No livro, ele conta a sua versão dos fatos e diz que, no fim das contas, foi bom, porque ele teve a oportunidade de trabalhar na televisão e abrir novas perspectivas para a sua carreira: “A tempestade me levou para outras praias”, diz Boechat no depoimento. “Penso que estou no melhor momento da minha vida. Se nada disso tivesse acontecido, não teria ido para a Band e não teria condições melhores e um salário melhor. Aquelas baixezas e tristezas pertencem ao passado”.

Ele conta a história de furos que conseguiu no jornalismo e também o relacionamento tenso dos tempos em que era assistente do famoso colunista social Ibraim Sued. Certa vez, Ibraim pediu para Boechat para ligar ao Kremlim. Era grosseiro, vivia dando broncas terríveis. Mas Boechat fazia muitas ligações internacionais intermediadas pela secretária. Ela conseguiu fazer a absurda conexão: “A secretária disse para Boechat: ‘Kremlim na linha’. Boechat chamou Ibraim, que deu tremenda bronca: ‘Você está louco, veja se vou gastar meu dinheiro com essa porcaria’. Depois de 12 anos, não aguentou e avisou que não queria mais trabalhar com Ibraim e seguiu carreira no jornalismo. (SF)


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