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Correio Braziliense

Marcelo Falcão estreia na carreira solo com disco 'Viver'

O ex-O Rappa quer mandar embora o mal-estar deixado pelas últimas eleições


postado em 10/03/2019 06:30 / atualizado em 10/03/2019 15:26

(foto: Daniel Madsen/CB/D.A Press)
(foto: Daniel Madsen/CB/D.A Press)


Marcelo Falcão não quer saber de briga perto dele. Distanciando-se do acalorado debate político, ele lança primeiro disco solo exalando good vibes com o álbum Viver (Mais leve que o ar). Em momento de grande envolvimento da classe artística nos assuntos tangentes à política, Falcão dispara: “Poucos no mundo artístico entendem realmente de política e são sensatos. Os que conheço, dá para contar na mão”. Nas 13 faixas do novo trabalho (ele assina 12 delas) o ex-Rappa procura ventilar o clima de desunião e acirramento de ideias divergentes com letras simples e despretensiosas movidas a muito reggae; “Sem economizar na qualidade musical”. Quanto à política: “Idealismo tem de ficar dentro de casa”.

“O disco é uma resposta a tudo que estou vivendo de tempos para cá, que inclui perdas de pessoas que amo muito. Ainda estou não está sabendo lidar com essa história de perdas, tanto familiares quanto de amigos que se foram”, desabafa Falcão em entrevista ao Correio. Além do ex-companheiro de banda e fundador do O Rappa, Marcelo Yuka, morreu Ricardo Boechat em fevereiro, de quem era próximo. 

Apesar das adversidades, ele conclama a serenidade. “Cansei de fazer cara feia”, resume, citando uma frase dita a ele por Mano Brown quando lançou Boogie Naipe (2016). No lançamento, Falcão abre mão de versos, digamos, mais complexos, e aposta em “papo direto” — diferentemente do que fazia em o O Rappa, cujas composições assinadas por ele e Yuka tocavam em temas sociais se valendo de metáforas nem sempre instantaneamente assimiláveis. 

Em Viver (Mais leve que o ar), Falcão está acompanhado por Bino Farias (Cidade Negra ), João Fera (tecladista de apoio d’Os Paralamas do Sucesso), Hélio Ferinha (também no teclado), DJ Negralha (ex-Rappa), Marcos Suzano (percussão), Felipe Boquinha (bateria), Edésio Gomes (sax tenor), Eneas Pacífico (trompete) e Vinicius de Souza (trombone). O maestro e arranjador Arthur Verocai contribuiu na orquestração de Eu quero ver o mar. Lula Queiroga faz parceria na canção de maior sucesso do disco até agora: Viver, que acumula milhões de visualizações nas plataformas digitais. 

“Além da esperança, o convite é para remexer o esqueleto, dançar e ouvir uma boa ideia”, completa o músico, que entrará em turnê a partir de 6 de abril, em Recife. “De um lado, estamos vendo o que aconteceu com a Venezuela. O outro, estamos de olho percebendo o que está acontecendo. Vou levantar bandeira de qual lado desses? “

Agora, solo
Estou juntando músicas há 18 anos. Mas, o disco mesmo, vem de dois anos para cá. Estou namorando ele porque fiz 600 arquivos musicais, entre músicas praticamente prontas, com uma roupagem minha, meu jeito de ser; e outras pela metade. Filtrei esses 600 arquivos, chegando a 80. Chamei para parceria de produção Felipe Rodarte, que toma conta da Toca do Bandido com Constança Scofield. Chegamos a 13 músicas.

Dissociação
Ainda existe aquele Falcão do O Rappa aqui. Mas meu mundo pedia para que eu falasse sobre viver, deixar coisas ruins de lado, e viver a própria vida. Eu queria que o amor plural fosse maior neste momento. Eu jamais faria qualquer coisa para comparar ou seguir em qualquer linha parecida do Rappa. Meu coração é pop, é rock, é reggae. 

Capa do disco 'Viver (Mais leve que o ar)'(foto: Warner Music/Reprodução)
Capa do disco 'Viver (Mais leve que o ar)' (foto: Warner Music/Reprodução)


Política?
Nunca levantamos bandeira política de partido no Rappa. Mas sim, de política social, durante muitos anos. Eu queria que o novo trabalho tivesse a leveza do meu sentimento. Que as pessoas deixassem de pensar que tem de ser combativo o tempo todo. Fui combativo por 25 anos. Não vi nenhuma banda fazendo um som parecido com o Rappa ou querendo fazer. Pagamos um grande preço com isso. Só fomos fazer sucesso 8 ou 10 anos depois de banda.

Quero sorrir
Lembra-me uma conversa que tive com o Mano Brown, em que eu disse a ele: Que irado. Todo mundo esperou você vir de rap pesadão, mais boladão de todos (sobre o álbum Boogie Naipe, de 2016). Ele falou: Não mano, tô cansado de fazer cara feia. Quero sorrir. Aí, o cara surgiu com uma pegada da década de 1970, que era o que o cara queria fazer. As pessoas devem desapegar do que conheceram para abrir espaço para o novo que está chegando. Um novo som. Uma nova banda. Eu sou desse pensar. 

Perder pessoas
Vejo pessoas perdendo amigos por questões que depois percebem não valerem a pena. Quem está unido é que está mandando no país, enquanto nós estamos desunidos. Se estivéssemos unidos, eles estariam ferrados. A galera fica brigando nessa balança. Nunca levantei bandeira de partido nenhum. Vejo que o Brasil fica atrasado por causa da desunião da população. As pessoas deveriam falar do que vem do interior.

Clima esperançoso
Enquanto todo mundo fala que o mundo está acabando, eu acredito na esperança, em oferecer uma palavra de alento. Quero oferecer palavras positivas para que as pessoas não vivam só o momento triste. Fico muito feliz de ser uma dessas vozes que ainda existem no país. Que eu possa oferecer essa mudança por meio da música. Ela tem um poder gigantesco. Mesmo em momentos difíceis, a música alegra. 

Fé extrema
Eu sou um cara de fé extrema; então, acredito que posso dar esperança. Quero que o cara que vá ao meu show, e me conhece pelo O Rappa, ouça músicas novas e se sinta curado. A mensagem é: vamos ser felizes. Estou te convidando para dançar, para passarmos duas horas juntos nesse momento especial. Que as pessoas possam usufruir de um momento de diversão, e pensem: “Falcão está falando coisas que sinto, que preciso ouvir”. É o que mais recebo de mensagens. Além da esperança, o convite é para remexer o esqueleto, dançar e ouvir uma boa ideia.

Reação?
O disco é total reação ao momento político. Sempre briguei pela comunidade, pelo plural, por pessoas humildes. Quando perguntam meu partido, respondo que meu partido é o da música. É um partido que cura, que salva, que grita, que desabafa, que não agride ninguém. Não sinto necessidade de ficar gritando e mostrando o que faço. As pessoas do Rio de Janeiro sabem dos projetos sociais em que me envolvo.

Preconceito
Eu não tenho preconceito com nada porque sou rastafári, pardo. Lá em casa tem o branco, o pardo e o negro. Dentro da minha casa as coisas são muito bem resolvidas. Todas conversadas, bem colocadas.

E os fãs do Rappa?
Quem gosta do Rappa e quiser ficar em casa ouvindo, beleza. Mas eu acredito que o cara vai se dar muito bem indo ao meu show ouvir algo novo. Vejo como algo novo, não como o cara que era do Rappa e se garantindo nisso. Se a curiosidade das pessoas parte de conhecer algo novo, é o que ofereço. E o fã do Rappa se dará bem, porque terá dois shows. Essa herança musical do Rappa está em mim. Mas o que tenho a oferecer ao fã é algo novo. E, se ele for saudosista, ele vai se dar bem também.

Relação com Brasília
Minha relação com Brasília é mais de show. Vivi numa época perto dos caras de Brasília. Ícones da música nacional, como Capital, Legião, Câmbio Negro, várias pessoas pelas quais tenho respeito, que foram da minha geração. Raimundos que foi da minha geração, Natiruts e tal. As pessoas gostam de música em Brasília, são curiosas. E elas estão curiosas para me ver no palco novamente. Independentemente de ser o Marcelo Falcão ou O Rappa. Sempre tivemos casa cheia em Brasília e públicos maravilhosos. Fica meu convite para que elas venham ouvir coisas novas. Que elas se entretenham com essa música da alma que estou oferecendo.

* Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

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