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Correio Braziliense

Mapeamento do feminismo é tema do novo livro de Heloisa Buarque de Hollanda

Uma preocupação de Heloísa foi convidar pesquisadoras e ativistas de todas as áreas para participarem e assinarem textos do livro


postado em 10/03/2019 07:30

Escritora Heloísa Buarque de Hollanda(foto: Arquivo Pessoal)
Escritora Heloísa Buarque de Hollanda (foto: Arquivo Pessoal)


Quando Heloísa Buarque de Hollanda ingressou na academia, ser feminista não era algo que se declarava em alto e bom tom. Ao contrário, era um tanto temerário ser classificada assim, mas a pesquisadora decidiu dedicar sua vida acadêmica ao trabalho com mulheres e adotou como compromisso intelectual a missão de dar espaço a novas vozes, novos saberes e novas políticas. Encontrou resistência no meio acadêmico e desenvolveu estratégias próprias para lidar com o fato. Por isso, levou um susto quando se deparou com a quarta onda feminista.

Até 2015, ela acreditava que sua geração era a última empenhada na luta feminista. Mas naquele ano, quando viu milhares de meninas e jovens mulheres irem às ruas em protestos contra o projeto de Lei n° 5069/2013, que pretendia restringir o pouco acesso que as brasileiras têm ao aborto, Heloisa se deu conta de que o feminismo havia tomado outra dimensão. E mais: as demandas vinham de todos os lados e estavam sendo ouvidas.

Dessa percepção nasceu Explosão feminista — Arte, cultura, política e universidade, uma compilação de 532 páginas sobre o feminismo em todos os campos da arte, incluindo aí os vários feminismos contemporâneos reivindicados por diversos setores.

Cooperação
Uma preocupação de Heloísa foi convidar pesquisadoras e ativistas de todas as áreas para participarem e assinarem textos do livro. O lugar de fala, ela entende, é importante. “Foi difícil, mas eu queria que elas estivessem no livro”, diz. Há capítulos para o feminismo negro, indígena, asiático, lésbico, protestante e para o transfeminismo, assim como uma seção dedicada às veteranas da luta feminista.

Para todas as pesquisadoras que assinam os textos do livro, 2013 é um marco na questão feminista brasileira. “Existe uma data e 2013 foi um pontapé para a quarta onda. Foi emblemática. Teve aquele turbilhão de emoções com as jornadas de junho e as redes sociais se tornaram um palco muito grande para a política. Começou-se, então, a falar muito em feminismo”, avisa Julia de Cunto, jornalista e pesquisadora que assina textos sobre teatro e música.

Ela conta que a maioria das entrevistadas se percebeu feminista a partir de 2013. São essas vozes que formam Explosão feminista, um verdadeiro documento sobre a chegada da quarta onda feminista no cenário brasileiro.

Artes visuais
Coeditora e fundadora da Revista Beira, a pesquisadora e jornalista Duda Kuhnert acredita que apenas na década de 2010 ficou confortável se autonomear feminista, mas há muito a ideia está presente na produção de artes plásticas no Brasil. E nesse universo, uma linguagem em especial tem presença marcante na autorrepresentação feminina. A performance com o uso do corpo, explica a pesquisadora, é uma das principais plataformas de expressão desse discurso. O corpo é um espaço de fala feminista nas artes visuais.

“Porque, afinal de contas, é disso que a gente fala quando está falando de feminismo: a gente fala do nosso corpo nesse estado. Com certeza, é uma linguagem muito própria desse tipo de pauta e as mulheres estão usando isso de forma a explorar cada vez mais o tema”, diz. No texto, Duda elenca uma série de nomes de artistas brasileiras cujos trabalhos encostam, voluntariamente ou não, em questões feministas. “É um tópico de debate, porque algumas não gostam de se entender dentro dessa área porque consideram que fecha uma leitura do trabalho”, explica. “Mas, ao mesmo tempo, outras acham que é potente juntar as duas palavras, arte e feminismo. No geral, a maioria se entende como feminista e se pauta pelo feminismo, mas não necessariamente se coloca nesse lugar.”

Poesia
O ano de 2010 também é um marco para Julia Klein, pesquisadora de cultura, literatura e contemporaneidade da PUC-Rio e coeditora dos Cadernos do CEP. Responsável pela pesquisa sobre o feminismo na poesia, ela explica que, na última década, surgiu uma nova poesia escrita por mulheres cuja forma e conteúdo estão intimamente ligadas às manifestações feministas. Julia cita Ana Cristina Cesar como um ponto de partida de uma geração que encampou a voz feminina na poesia e fez terreno para surgirem as contemporâneas Marília Garcia, Alice Sant’Anna, Bruna Beber e Angélica Freitas, herdeiras diretas do que chama de “efeito Ana C.”, com uma voz sofisticada e distante do que já foi chamado de “poesia de mulher”.

Ao lado, vem uma geração não tão impactada pelo “efeito Ana C.”, mas igualmente potente, formada por nomes como Micheliny Verunschk, Maria Rezende e Laura Eber que, segundo a pesquisadora, trouxeram de vez para a cena brasileira a poesia feita por mulheres. Mas isso não quer dizer que são poetas feministas. “Mesmo quando o feminismo não aparece tematizado ou refletido numa dicção mais ousada, infalivelmente ecoa como uma espécie de fecundação subterrânea do poema, ainda que isso não seja muito visível no texto”, avisa a autora. As perspectivas de gênero e corpo, segundo ela, estão presentes e toda a poesia pós-2013, mas é preciso atentar para não fazer disso um reducionismo.

Música
A música, para a pesquisadora Julia de Cunto, talvez seja a área em que o feminismo tenha mais visibilidade, especialmente quando se trata de pop, rap e funk. Entre as entrevistas realizadas por Julia e Maria Bogado, pesquisadora da UFRJ com quem divide o texto, estão nomes como Karol Conka, as meninas do grupo Rakta, Ana Frango Elétrico, Linn da Quebrada, Karina Buhr e MC Carol. “Na música, o que é mais potente são as reivindicações de uma voz para as mulheres nesse espaço da cultura pop, com o funk e o rock, porque praticamente todos eram dominados pela masculinidade”, explica Julia. Se no teatro as mulheres eram vistas como musas ou atrizes, na música eram reservadas a elas a função de cantoras. “Mas agora elas estão ocupando muito mais o papel de escrever as letras, compor as melodias. É uma reivindicação muito potente. E na música, ainda tem as performances, como a da Carol Conka, que fez um vídeo, Lálá, sobre o sexo oral nas mulheres. As pessoas estão comprando muito isso do empoderamento feminino.”

Maria Bogado acrescenta o fato de que boa parte dessas mulheres chegam à música depois de passarem por outras áreas. “As mulheres não tiveram tanta oportunidade de fazer e de estudar música, nem de ocupar os espaços da música. Acaba que elas passam meio ao largo e, quando fazem música, acabam trazendo outros repertórios”, diz. 

Teatro 
O que mais se nota no teatro contemporâneo feito por mulheres é a vontade de ressignificar histórias que, há décadas, são contadas a partir de uma perspectiva masculina. Heroínas como Medeia e Ofélia são revisitadas e apropriadas pelo que a pesquisadora Julia de Cunto chama de novas dramaturgias femininas. Mas não é só isso. A presença de mulheres em todas as fases da produção teatral também é uma preocupação que pauta a produção de nomes, como Grace Passô, Laura Castro, Juliana Pamplona, Mariana Nunes e Diana Herzog, algumas das entrevistadas para o capítulo dedicado ao teatro.

“No teatro brasileiro contemporâneo, o feminismo é muito potente, é pé na porta mesmo”, avisa Julia. “As mulheres são pessoas que agem e pensam. E tudo é político. O teatro o feminista se potencializa muito. Elas querem fazer grupos de produção só de mulheres e esse tipo de ocupação do espaço é muito importante pra elas.”

Cinema
Com o protesto de Patricia Arquette, atriz de Boyhood, no Oscar de 2015 e o impacto causado pelo longa Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, no mesmo ano, foi quase concomitante a chegada das discussões sobre a presença da mulher no cinema brasileiro e internacional. Visto por mais de 490 mil espectadores, o longa sobre a empregada doméstica Val (Regina Casé) e sua filha Jéssica (Camila Márdila), que se recusa a ficar confinada à condição de filha da empregada, trouxe para o centro do cinema brasileiro a discussão sobre o protagonismo feminino na produção nacional.

As pesquisadoras Érica Sarmet e Marina Cavalcanti Tedesco partem do episódio em que Anna Muylaert falou, durante um debate em Pernambuco, que homens têm dificuldade de ver uma mulher no papel de protagonista. A fala veio depois de ser atacada por Claudio Assis e Lírio Ferreira e as discussões que se seguiram passaram a ocupar um lugar importante em festivais e eventos de cinema nacional. O episódio motivou a criação do grupo no Facebook Mulheres do Audiovisual Brasil, idealizado pela produtora Malu Andrade para discutir o tema. Hoje, são mais de 18 mil membros.

Feminismo em HQ
A história da luta feminista, desde os primórdios, no século 19, é contada na HQ Mulheres na luta — 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade, da escritora sueca Marta Breen e da ilustradora Jenny Jordahl. É em 1840, nos debates pela abolição da escravidão na Inglaterra e nos Estados Unidos, que a autora decidiu começar o livro. Ao longo da HQ, o feminismo se mescla a várias lutas por direitos humanos e Breen incorpora personagens emblemáticas nesse cenário desde o século 19 até o 21.  Faz questão de explicar quais eram as bandeiras feministas e como elas fazem sentido até os dias de hoje. Educação, direitos iguais entre homens e mulheres e o poder de decidir sobre o próprio corpo.  

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