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Correio Braziliense

De graça: filmes, exposição e oficinas trazem moda ao primeiro plano

Evento no Museu Nacional da República celebra a moda, com variadas atrações, pelo Feed Dog, festival internacional que chega à cidade pela primeira vez


postado em 12/03/2019 07:38 / atualizado em 11/03/2019 19:40

Filmes documentais estarão entre as atrações(foto: Feed Dog / Divulgação)
Filmes documentais estarão entre as atrações (foto: Feed Dog / Divulgação)
 
Personagens fascinantes, o desvelar do universo da moda para não iniciados e o registro de narrativas de histórias de vida, com muita informação de moda, estão entre os atrativos dos filmes integrados no Feed Dog Brasil — Festival Internacional de Documentários de Moda, a partir de hoje, com sessões, de graça, no Museu Nacional da República. A sessão de abertura da noite de hoje, entretanto, é restrita a convidados. Nos próximos cinco dias, 14 sessões serão mostradas, com direito a aprofundamento de elementos fashionistas: filmes trazem os bastidores das notícias das passarelas, do mercado e das publicações de tema.

Exposição examina riquíssimo acervo de dois milhões de imagens (foto: Feed Dog / Divulgação)
Exposição examina riquíssimo acervo de dois milhões de imagens (foto: Feed Dog / Divulgação)
 
Quem detalha o programa de longas-metragens é a documentarista e curadora Flávia Guerra: “A moda está intimamente ligada ao comportamento e ao espírito de seu tempo; daí, assistir a filmes como The first monday in may ou Mapplethorpe: Look at the pictures é interessante. Quem já acompanha o baile do Metropolitan Museum de NY pelas celebridades vai entender que o tapete vermelho é só a ponta do iceberg de uma engrenagem complexa”.

A curadora da mostra assegura que mesmo quem não visitou o acervo de moda e indumentária do MoMA (Museu de Arte Moderna de NY) vai adorar ver as reuniões em torno do tema da festa, os estilistas que participam, o trabalho de Anna Wintour (editora-chefe da revista Vogue) e dos cineastas Baz Luhrmann e Won Kar Wai, além de todo o tesouro da moda mundial e vestuário chinês expostos no filme The first monday in may.

A perpetuação e a atualidade de imagens de criadores como o fotógrafo Robert Mapplethorpe (morto em 1989, e objeto de análise dos cineastas Fenton Bailey e Randy Barbato, em longa-metragem) revela vida e obra de um considerado gênio da fotografia, com muito da obra inclinada a aspectos homoeróticos. “Ele influencia artistas, estilistas e fotógrafos até hoje. É um privilégio poder descobrir mais sobre sua personalidade tão livre e revolucionária, em tempos como os de hoje”, diz Guerra.
 
Mostra com filmes inéditos é chamariz do evento(foto: Feed Dog / Divulgação)
Mostra com filmes inéditos é chamariz do evento (foto: Feed Dog / Divulgação)
 
 
 
Duas décadas de moda

A caminho da simplicidade, na curadoria da exposição Feed Dog Fotosite, Jussara Romão assistiu a todos os filmes da mostra e se “enfiou, de cabeça, no universo dos 2 milhões de fotografias que a agência Fotosite conserva no acervo”. Buscou como desafio, na viagem pictórica, fragmentos e releituras das narrativas do cinema. A exposição, com 40 imagens coloridas instigantes, ficará no Hall do Museu da República até domingo (amanhã, haverá visita guiada, às 19h).

Um desfile icônico, há 14 anos, do designer Jum Nakao com as roupas feitas de papel; o impacto de uma modelo desfilando com luz negra, ao final de desfile de Lino Villaventura (em 2011) e a imagem surreal do desfile de Karla Girotto, com uma jaqueta flutuando, presa a balões, estão entre as fotografias pinçadas pela curadora Jussara Romão.

Inseridos no conceito de arte, os nus têm representação, numa imagem de desfile da Ellus. “O nu, há tempos, deixou de repercutir como choque na vida. O público da moda é preparado. Há 10 anos, ainda era preciso traduzir o que se passava nas passarelas e editar antes da publicação nas páginas das revistas. Em 2019, as passarelas quase só refletem as ruas: como se vestem as pessoas, como se comportam, do que gostam e o no que acreditam”, observa a curadora. 

 
Além da imagens
 
Dois debates, um na sexta e, outro,  no sábado, às 17h, tratarão, respectivamente, de sustentabilidade e de cinema e moda. Além disso, duas oficinas — uma de moulage (de quarta a sexta, entre 16h e 18h, com apenas 10 vagas) e outra de upcycling (sábado e domingo, das 15h às 20h) — estão programados. Confira:

Moulage
Por Karina Pertzold, formada pelo Iesb e professora de corte e costura
• “As roupas, num caminho contrário ao corriqueiro, são modeladas diretamente no corpo, com as formas feitas no manequim. Desta forma, se vê o caimento, a funcionalidade, os drapeados, e, depois, é planificar. Se faz com uso de tecido mais simples, mas com caimento similar ao da futura peça. Não é só na alta-costura que estilistas estão livres para transformações. Com a técnica do moulage, fica mais fácil exercitar a criatividade”

Upcycling
Por Nina Maria Fonseca, formada, em moda, pelo Centro Universitário Euro Americano
• “Brasília anda bem adiantada em termos de moda: são vários os estilos que circulam. O upcycling é antigo, e sempre circulou, com outros nomes como customização. Se trata, no fundo, de transformar peças, sem ter que destruí-las. Na oficina, vou abordar conceito e prática, e as pessoas devem levar suas peças de roupa. Uma jaqueta não precisa deixar de ser uma jaqueta, no novo uso. Há a reutilização de materiais, sem a necessidade de deformar os usos e os materiais a serem empregados” 
 
Agência Fotosite tem material integrado ao evento(foto: Feed Dog / Divulgação)
Agência Fotosite tem material integrado ao evento (foto: Feed Dog / Divulgação)
 
Cinco perguntas // Flávia Guerra, curadora 
 

O Brasil tem volume e qualidade de filmes que englobam a diversidade variedade da moda regional?

O Brasil está começando a realizar mais documentários sobre o universo da moda e a entender que este é um tema que vai muito além da moda como consumo e mercado. Os títulos brasileiros que compõem o Feed Dog Brasil em Brasília demonstram isso. São filmes como Fios de alta tensão, que é sobre o cabelo afro, mas é também muito mais que isso. Trata das nossas origens sócioculturais, da importância da cultura africana, passa pelo orgulho de ter o cabelo afro e a valorização da beleza e da cultura negra. Assim também é Deixa na régua, que retrata o cotidiano de barbearias da zona Norte do Rio e revela que muito mais que apenas um lugar para se cortar o cabelo, a barbearia é um ponto de encontro, de cultura, de troca de informações, de afirmação de identidade, de amizade. Fora do figurino também retrata como, pela nossa própria falta de parâmetros métricos na indústria do vestuário, revelamos tanto sobre nossa mistura de raças, culturas, tipos, referências.

 

Há peculiaridades no cinema documental da moda?

Na maioria dos filmes, há cineastas que se interessam justamente pelo caráter multidisciplinar do universo da moda, pelo quanto, por meio da moda, da beleza, da imagem, podemos contar ótimas histórias de vida, refletindo realidades. Não há um país que seja a grande referência no assunto. A Europa, muito por sua proximidade com o mundo e o mercado da moda, e por questões históricas, acaba produzindo mais filmes sobre o assunto. Mas em geral há produções e coproduções de diversos países. E cada vez mais observamos produções de países e continentes que não são tão óbvios quando pensamos em moda, como o próprio Brasil e países africanos.

 

 

Existe um norte das grandes contribuições nossas para a moda mundial?

O Brasil é um país mundialmente famoso por sua moda de praia, por seu estilo criativo e vivaz, mesmo em grifes mais urbanas, pois nossas referências são amplas, da moda europeia às nossas raízes indígenas e africanas, entre outras referências. Estabelecer uma definição de qual é nossa grande contribuição é complicado, pois a moda é também complexa. Mas o Brasil tem estilistas respeitados mundialmente, nosso estilo de vida e nossa herança multicultural despontam como pontos muito fortes.

 

Pelo recorte dos filmes, segue a associação de longa data da preponderância de mulheres na moda e dos homens no audiovisual?

Não acho que se associe mais a moda somente com mulheres e nem  o audiovisual com homens. Isso não faz sentido. Na amostragem dos filmes, por exemplo, Bangaologia trata da força da moda e do estilo angolano e do Banga, que é prioritariamente protagonizado por homens cheios de atitude e criatividade. Antônio Lopez é um dos estilistas perfilados na mostra; Kevin Aucoin foi a primeiro grande estrela da maquiagem no mundo, Out of fashion retrata o belo trabalho da estilista Reet Aus. Enfim, exemplos da mescla de gêneros e de linguagens não faltam.

 

Num dos filmes, vemos Wong Kar Wai como diretor de arte; há muitos casos de cineastas renomados que dão ressalto à moda na filmografia?

Wong Kar Wai é um caso de cineasta que une sua estética à sua ética para criar universos em que o figurino de seus personagens são imprescindíveis para se entender melhor a personalidade e a história de cada um. Vide Amor à flor da pele. Mas citaria também Buñuel que, em A bela da tarde, escalou Yves Saint Laurent para criar o figurino de Catherine Deneuve. Não há uma cena em que o figurino dela não contribua para revelar ao espectador algo de sua personalidade, seu estado de humor no momento ou sua experiência em cena. Brian de Palma também é outro estilista que sempre valorizou a moda como elemento narrativo.  
 

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