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Correio Braziliense

Chico Sant'Anna celebra 40 anos de carreira com peça 'Saiba o seu lugar'

Monólogo escrito pelo dramaturgo argentino Santiago Serrano foi feito especialmente para o ator


postado em 15/03/2019 07:45

O ator brasiliense Chico Sant'Anna(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
O ator brasiliense Chico Sant'Anna (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)


O ator brasiliense Chico Sant’Anna parece estar em todos os lugares. Ele tremeu nas bases quando estreou, profissionalmente, em 1980, contracenando com nada menos do que Bibi Ferreira em Gota d’água, de Chico Buarque, com direção de Gianni Ratto, espetáculo que rodou o país durante 10 meses. Fez uma interpretação antológica do personagem Pantaleão na peça Arlequim, servidor de dois patrões, de Goldoni, sob a direção de Hugo Rodas. A performance no espetáculo Cru, de Alexandre Ribondi, lhe valeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Teatro do Rio de Janeiro, em 2011.

Teve atuação marcante no cinema. Levou o prêmio de melhor ator do Festival de Cinema de Pernambuco, pela performance em Simples mortais, de Mauro Giuntini. Ganhou o prêmio de Melhor ator coadjuvante no Festival de Gramado com Cine Drive-In, direção de Iberê Camargo.

Trabalhou em Uma vida em segredo, de Suzana do Amaral. Além disso, participou das novelas O rei do gado, Cabocla e Da cor do pecado, e dos seriados Malhação, A diarista e Carga pesada; e das minisséries JK, Felizes para sempre e Mad Maria.

No curta-metragem Brasília, dirigido por João Procópio(foto: Divulgação)
No curta-metragem Brasília, dirigido por João Procópio (foto: Divulgação)
A cada atuação, ele fica melhor. Chico está comemorando 40 anos de carreira e 10 anos do grupo Cia. Plágio de Teatro, com o espetáculo solo Saiba o seu lugar, escrito especialmente para o ator, pelo dramaturgo argentino Santiago Serrano. Na peça, em cartaz no Espaço Cena, um homem comum revela histórias relacionadas ao preconceito racial, à violência doméstica e à exclusão social. E, nesta entrevista, Chico fala sobre a paixão visceral pelo teatro, vírus benfazejo que o atacou desde os tempos de criança em Penápolis, São Paulo.

Como você se envolveu com o teatro?
Eu nasci propenso a isso. Desde os tempos de criança, sempre quis chamar a atenção das pessoas com as imitações e as encenações. Exercitava o teatro em datas comemorativas. Sempre fez parte de mim. Nasci em uma cidadezinha de São Paulo, Braúna e, aos 4 anos, me mudei para Penápolis, também São Paulo, onde havia um movimento teatral muito intenso. Quando terminei o colegial, vim para Brasília. Fazia administração de empresas na UnB e lá conheci o grupo de teatro da universidade, dirigido por Dímer Monteiro. Trabalhava em um órgão público e de noite ensaiava.

Como foi a história de contracenar com Bibi Ferreira na montagem de Gota d’água, sob a direção de Gianni Ratto?
Quando a Dulcina ia inaugurar o Teatro Dulcina, queria a montagem de um clássico. Então, ela convidou quatro grandes atores: Bibi Ferreira, Adriano Reis, Felipe Wagner e Oswaldo Neiva. A Dulcina disse: “Eu monto aqui, mas no grande elenco, quero atores de Brasília”. Chamou o Dímer para indicar os atores e para fazer um teste com  ela. Fiz o texto com a Dulcina, fui aprovado e viajei pelo Brasil com Gota d’água por 10 meses.

Você não tremeu nas bases ao fazer o teste com a Dulcina?
Foi muito engraçado. Fiquei nervosíssimo. Estava sentando nada menos que diante de Dulcina de Moraes. Não conseguia falar, a força daquela mulher era extraordinária, a postura, o jeito de olhar. Você sabia que estava diante de uma mulher que lia a sua alma. Depois do teste, ela chegou até o Dímer e perguntou: “Escuta, este rapaz é medroso também lá no grupo de teatro da UnB?” O Dímer me chamou e me deu um esporro daqueles. Mas o fato é que, em 21 de abril de 1980, subi ao palco para fazer Gota d’água.


Como foi contracenar com Bibi Ferreira? Ela era uma estrela humilhante?
Ela foi maravilhosa. Quem dirigia era Gianni Ratto, que também  foi ótimo. Então, éramos quase atores 30 de Brasília. Foi um privilégio, teve paciência com a gente, nos ensinou tudo. Foi fantástico. Daí em diante o medo acabou, cada dia era um aprendizado, uma aventura do palco.

Você fez uma gama de personagens muito diversificados. Qual a importância desse exercício para o ator?
Eu adoro. No teatro, fiz comédia, tragédia, Shakespeare, Goldoni, Nelson Rodrigues. O ator precisa ter essa versatilidade, independentemente do estilo. Sempre estudei muito, o ator está na rua, isso te dá uma bagagem para traduzir no seu corpo outro personagem.

Que trabalhos considera mais importantes na formação de ator?
Sem dúvida, Gota d’água foi uma faculdade. Mas fiz uma adaptação de Shakespeare, Macbeth ainda Mauser, muito importante. Fiz Viúva porém honesta, do Nélson Rodrigues. E outra atuação marcante foi em Arlequim, de Goldoni, dirigida por Hugo Rodas. Interpretei o personagem Pantaleão. Com ele, os diretores começaram a me chamar para outros trabalhos. Pantaleão tinha uma postura alterada, era muito alquebrado. Consegui a interpretação graças à direção do Hugo, que vai fundo na composição do personagem. Fui convidado pela Cia. Plágio. Montamos o espetáculo Cru, que viajou por mais de 40 cidades do país. Fizemos temporada em São Paulo, e a peça foi incluída entre os 10 melhores espetáculos da cidade. Por meio de Guilherme Reis, conheci os textos de Guilherme Serrado. Santiago assistiu a Cru, gostou e escreveu um texto para nós, Noctiluzes.

Como é ser ator sem ter estudado em escola de teatro?
Não estudei, me profissionalizei por tempo de serviço. Fazia outras coisas para sobreviver. Mas, nos anos 1970, tinha de trabalhar em outro emprego. Sempre amei representar. O movimento teatral em Penápolis era fortíssimo. Conheci os textos de Ariano Suassuna e Lauro Muniz. O teatro é um vírus que nasceu comigo. E a vida foi me levando para esse caminho.

É diferente atuar no teatro e no cinema?
Completamente. No teatro, o ator tem uma maneira de representar. Pode ter gestos grandiosos. Ajuda a plateia a entender o personagem. O cinema é a arte do mínimo. Um arregalar de olhos vira algo escandaloso na tela. É preciso aprender a transmitir a emoção na voz e no olhar.

Como começou a atuar no cinema?
Comecei com um filme  em que a maioria dos atores de Brasília estava, Louco por Cinema, de André Luiz Oliveira. Era do teatro, André Luiz me poliu para o personagem. Fazia um travesti, era surreal para mim.

O que é mais fácil de fazer, a comédia ou o drama?
A comédia é algo difícil de fazer. Por incrível que pareça, me  sinto mais à vontade no drama. O tempo da comédia é muito diferente. Em O Arlequim, o Pantaleão, felizmente, estava guidado pelas mãos do brilhante Hugo Rodas. Não que ache algo melhor. Quem faz comédia muito bem tem todo o meu aplauso. Titubeio antes de fazer uma comédia.

Qual é a escola de quem não teve a oportunidade de estudar em escola de teatro?
Tive o privilégio de trabalhar com Suzana do Amaral, em Uma vida em segredo, Subterrâneos, com José Eduardo Belmonte, Simples mortais, com o Mauro Giuntini. Com O último Cine Drive-in ganhei prêmio de melhor ator coadjuvante em Gramado. Olha, uma coisa que digo sempre: tive a sorte e o privilégio de trabalhar com grandes diretores. Os trabalhos que fiz sempre foram intensos, me ensinaram muito, me levaram a descobertas importantíssimas para a formação. Nos anos 1970, havia muitos grupos teatrais. Sempre estava envolvido com essas pessoas. Aproveitei o dom que Brasília tem para a arte, o cinema, a música. O movimento cultural de Brasília ajudou-me muito a me tornar um ator interessado no meu ofício.
 
 
 
 


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