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Correio Braziliense

Reedição de duas obras de João Guimarães Rosa chega ao mercado

A revisão recupera neologismos e fortuna crítica que ajuda a entender o universo do autor e propõe novas leituras para o escritor mineiro


postado em 16/03/2019 06:30

Reedição de Grande sertão: veredas traz foto inédita de Rosa rodeado de boiadeiros (foto: Companhia das Letras/Reprodução)
Reedição de Grande sertão: veredas traz foto inédita de Rosa rodeado de boiadeiros (foto: Companhia das Letras/Reprodução)
Há muitas atualidades em Grande sertão: veredas. Algumas se ancoram na linguagem e nos neologismos criados por João Guimarães Rosa — palavras como nonada e frases como “o sertão é o mundo” entraram para o imaginário popular. Outras, no clima violento que cerca a narrativa de Riobaldo e no fato de um dos maiores romances da literatura moderna brasileira ser, até hoje, alvo de estudos acadêmicos e de adaptações para cinema, teatro e televisão. Junte-se a isso o centenário do nascimento de Rosa, celebrado em junho de 2018, e a reedição de duas obras fundamentais na trajetória do escritor. A Companhia das Letras acaba de lançar duas edições comemorativas dos 63 anos de Grande sertão: veredas e a Global coloca novamente no mercado o livro de contos Sagarana.

Grande sertão: veredas é um marco na literatura brasileira porque ninguém fez nada igual, nem antes nem depois de sua publicação, em 1956. Rosa não só criou todo um léxico particular moldado pelo sertão mineiro, mas fez dessa língua um universo literário que até hoje causa espanto em leitores e críticos. O romance é o que Silviano Santiago, autor de Genealogia da ferocidade: ensaio sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, chama de “monstro”. “A primeira condição da sua modernidade é que ele é totalmente diferente da produção romanesca da época e também de toda a produção cultural e artística no Brasil. Essa é, ao mesmo tempo, a qualidade extraordinária e a enorme dificuldade na leitura”, explica em entrevista ao Correio.

(foto: Companhia das Letras/Reprodução)
(foto: Companhia das Letras/Reprodução)
Para Santiago, o romance revela muito do Brasil de ontem e de hoje. Na década de 1950, o país vivia um momento de luzes com a construção de Brasília e o plano desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek. A poesia de João Cabral de Mello Neto e o abstracionismo seduzindo o mundo das artes com o prêmio para Max Bill na 1ª Bienal Internacional de Artes de São Paulo completavam essa ideia de iluminismo brasileiro cultivada por Santiago. Mas foram as trevas que Guimarães Rosa decidiu trazer à tona em Grande sertão. “Talvez não seja por coincidência que a ação do romance se passe ao lado de Brasília. Esse contraste é admirável, ele acaba falando mais sobre um período de trevas pelo qual nós estamos passando do que da grandiosidade das luzes da década de 1950”, diz Santiago. “O livro tem uma dimensão não apenas histórica, que é enxergar as trevas quando todo mundo queria ver as luzes, mas, por outro lado, acaba sendo uma grande alegoria do que a gente chama de coração do Brasil.”

Para o escritor, o atual momento do Brasil é um dos mais adequados para ler o romance. “É o momento quase ideal. Irascibilidade e ferocidade é o que não nos falta no momento”, diz, ao lembrar da cena em que o jagunço mata uma onça e come o coração. Santiago sugere uma leitura alegórica do livro, levando em conta o que se passava no Brasil da época: “Essa leitura alegórica é muito ampla, vai além da própria história, que é o presente do romance. E você pode vir até o presente e ver que, no fundo, isso que a gente chama de cenário no livro é um enclave onde dominam a ferocidade e irascibilidade. E se você olha um pouco para os lados no Brasil de hoje, o que vê? A irascibilidade e a ferocidade. E aí você vai vendo que a grande metáfora do livro é, a meu ver, o desenvolvimentismo”.

Ilustrações de Poty para as primeiras edições do romance(foto: Companhia das Letras/Reprodução)
Ilustrações de Poty para as primeiras edições do romance (foto: Companhia das Letras/Reprodução)
A edição lançada pela Companhia das Letras é a 22ª e foi feita em duas versões. Uma para o mercado em geral e outra para colecionadores, com a capa bordada com palavras do romance pela artista Elisa Braga. O exemplar custa R$ 1.190 e só foi vendido sob encomenda. Esgotada, a edição contou com 63 volumes, número escolhido para comemorar o aniversário do lançamento. Acompanha a nova edição uma fortuna crítica com textos assinados por Walnice Nogueira Galvão, Roberto Schwarz, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Benedito Nunes, Davi Arrigucci Jr. e Silviano Santiago. Boa parte dessa compilação foi retirada de livros, caso de Walnice e Santiago, revistas e catálogos de seminários. No caso de Clarice e Sabino, trata-se de uma troca de correspondência.

A edição ficou por conta de Érico Melo, doutor em literatura comparada brasileira e estudioso da obra do escritor. “Tudo é um desafio quando se trata de Guimarães Rosa, ele está à altura de James Joyce e Marcel Proust, então, qualquer abordagem tem que ter essa premissa”, acredita Melo. “O desafio inicial foi o estabelecimento do texto: queríamos resgatar, principalmente, os acentos que as reformas ortográficas tinham eliminado. Eles são importantes porque são marcadores das mudanças de voz e da própria pesquisa de Guimarães Rosa, principalmente os neologismos que ele criou.”

As palavras mais corriqueiras seguiram o Novo Acordo Ortográfico, mas aquelas fundamentais para o léxico criado por Rosa permaneceram como eram na época em que foi publicada a segunda edição da obra, aquela que o autor considerava definitiva. Entre palavras restituídas e recuperadas, segundo Melo, foi um total de 115 operações. Ele também ficou responsável pela pesquisa iconográfica e pela cronologia, trabalhada como se fosse uma pequena biografia. Melo percorreu todas as citações a Rosa na hemeroteca do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP). Entre as fotos, há alguns momentos inéditos, como o autor sentado em volta de uma fogueira ao lado de boiadeiros e o registro do ensaio para a posse na cadeira nº 2 nas escadarias da Academia Brasileira de Letras (ABL).


Introdução ao clássico

Autora de As formas do falso: um estudo sobre a ambiguidade no Grande sertão: veredas, Walnice Nogueira Galvão também assina a introdução da nova edição de Sagarana e recomenda aos novos leitores, iniciantes em Guimarães Rosa, que comecem com o livro de contos. “É o menos complexo”, explica. “Ele só vai se tornar mais complexo mais para a frente. É melhor seguir os passo do próprio Rosa. É em Sagarana que ele acerta o espaço, que é o sertão, acerta a linguagem, essa mistura de arcaísmos com neologismos inevitável, e acerta o narrador, o sertanejo e anônimo.”

Se em Grande sertão Rosa dá nome ao narrador Riobaldo, em grande parte dos nove contos de Sagarana prevalece o anonimato. O livro foi apresentado ao público pela primeira vez sob o título de Contos, em um concurso literário no qual ficou em segundo lugar. Era 1938 e Rosa assinava com um pseudônimo. Apenas em 1946 ganharia uma edição oficial. Sagarana, Walnice aponta, é um ponto de partida. Ali, o autor encontrou o caminho que o levaria a Grande sertão. Muitas das questões presentes no romance estão nos contos: o cenário, os embates simbólicos entre Deus e o diabo, os personagens e a oralidade sertaneja com seus arcaísmos e regionalismos.

Sagarana também traz A hora e a vez de Augusto Matraga, o conto mais importante da coletânea e um dos mais adaptados para outras linguagens. A história do homem que se redime após perder tudo está em dois filmes, um de Roberto Santos (1965) e outro de Vinícius Coimbra (2015). Essa apropriação dos clássicos de Rosa pelo cinema, pela tevê e pelo teatro, na visão de Walnice, ajuda a tornar a obra mais palatável. “Já tem muita mediação, de todo tipo, muito filme, novela, minissérie, muita popularização. Isso é bom. Torna mais acessível, no caso do Guimarães Rosa, porque desmistifica. Isso tem um efeito estético de familiarizar com os achados dele, com o que ele está propondo de novo. E tem o efeito psicológico de não ficar assustado porque acha que é difícil”, acredita a pesquisadora. 

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