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Correio Braziliense

Mostra de cinema projeta feminismo atemporal

Mostra de cinema no CCBB, com início hoje (26/03, terça), esmiúça a carreira da realizadora Vera Chytilová: crítica, censurada e porta-voz de revolucionário feminismo


postado em 26/03/2019 07:22

As pequenas margaridas: ousadia, em meados de 1960, pelo desbravamento propiciado por protagonistas ícones do feminismo (foto: Mostra Vera Chytilová / Divulgação)
As pequenas margaridas: ousadia, em meados de 1960, pelo desbravamento propiciado por protagonistas ícones do feminismo (foto: Mostra Vera Chytilová / Divulgação)
 
Atualíssima — com a qualificação, a cineasta Vera Chytilová, nascida na República Tcheca, e morta em 2014, talvez tenha das melhores apresentações. Nome de ponta no campo da inovação na década de 1960, Vera — que terá mostra apresentada até 14 de abril, no Centro Cultural Banco do Brasil — assina filmes polêmicos e que, por vezes, apostam em hibridismo. 

Nada menos convencional do que a dobradinha de títulos Algo diferente (filme de 1963, e que abre a mostra, hoje, 26/03  às 17h) e Armadilhas (1998). No primeiro, há contraponto das glórias reservadas à ginasta Eva Bosáková, num campeonato, enquanto uma dona de casa amarga rotina e nulidade. Já Armadilhas se concentra num revide: estuprada, uma mulher remove testículos de agressores, numa trama permeada por política. O espectador interessado em desbravar o mundo da diretora, na programação de quinta (às 20h) pode optar pelo documentário Jornada — Um retrato de Vera Chytilová (2004), assinado por Jasmina Bralic.
 
Com 26 obras, a mostra Vera Chytilová: A Grande Dama do Cinema Tcheco, que tem curadoria de Rosa Monteiro, montadora de filmes, traz fitas duras como Tainted horseplay (1988), inovador, ao tratar de personagem soropositivo, ou de registro histórico, como Calamidade (de 1981, a ser mostrado, amanhã, às 15h), sobre a derrocada da antiga Tchecoslováquia.
 
Num curta, O tempo é inexorável (1978), a diretora situa o foco no respeito a protagonistas idosos. O peso da idade, junto como caráter solidário e prestatividade de um senhor, despontam, no longa Conjunto habitacional (1979). Tendo enfrentado a censura, diante das pancadas dadas no regime comunista, da Tchecoslováquia sob jugo da União Soviética.
 
Hoje, às 19h, a diretora e pesquisadora Bárbara Cabral apresentará muitos aspectos da cinematografia da diretora cuja mostra terá meia-entrada (R$ 5) garantida a todas as mulheres espectadoras. Inconformismo e crítica balizam o feminismo explorado pelas narrativas da diretora. Curiosamente (ou melhor, ironicamente), Vera, diante da dificuldade de produzir filmes durante período movido à censura dirigiu comerciais que eram assinados pelo marido, Jaroslav Kucera.
 
Movida pela busca de origens de seus compatriotas, Vera criou títulos como Praga — O incansável coração da Europa (1984), sobre uma cidade que se rende à modernidade e Tomas Garrigue Masaryk (1990), sobre ex-presidente eleito logo após a queda do Império Austro-Húngaro (no começo do século 20).
 
Instabilidade, questionamentos e intuição estão na mostra, por meio de títulos como Chytilová versus Forman (1981), em que a diretora é confrontada com o colega de ofício Milos Forman (Amadeus), de natureza muito diversa da dela. Outro célebre encontro com um diretor importante se dá em Pérolas das profundezas (1965), no qual há curtas de Chytilová e de Jirí Menzel (Trens estreitamente vigiados). Amanhã, às 17h15, a mostra propicia sessão de As pequenas margaridas (1966), uma sagaz farsa, aos ventos do feminismo.
 
A curadora da mostra Rose Monteiro(foto: Arquivo pessoal)
A curadora da mostra Rose Monteiro (foto: Arquivo pessoal)
 
 
Três perguntas // Rosa Monteiro, curadora

Existe sutileza no surrealismo empregado pela diretora? São narrativas abstratas?
 
Na minha opinião, a Vera Chytilová personificou uma linguagem cinematográfica única com um estilo que não se apoia em convenções verbais ou literais. Em vez disso, ela faz uso de manipulações visuais que criam significados novos. A diretora misturava observações sobre seu dia a dia com alegorias surrealistas e chegava a um estilo único.

Há diálogo possível entre a produção do período áureo de Vera e a filmografia brasileira da época?
 
Acredito que o período áureo da produção da Vera tenha sido dos anos 1960 aos 1970, quando ela dirigiu Algo diferente, As pequenas margaridas e Fruto do paraíso, filmes altamente influenciados pelo Neo-Realismo (Itália) e pela Nouvelle Vague Francesa. Não vejo muita relação com o que se produzia no Brasil na mesma época, além da rejeição à narrativa tradicional e influência da Nouvelle Vague que também acontecia no Cinema Novo.
 
Em que título Vera destila feminismo e traz um cinema mais visível em termos de estandarte?
 
Definitivamente, em seu filme As pequenas margaridas (1966), quando ela ganhou notoriedade internacional e status de cinema antipatriarcal. O filme ficou conhecido por ausência de uma narrativa contínua, estilo visual único e montagem abrupta. Fazia críticas severas ao regime comunista e à misoginia, trazendo marcas que a Vera utilizaria em grande parte de seu trabalho posterior. O conteúdo feminista e de crítica social mesclados ao humor negro fez com que ela inclusive fosse banida da Tchecoslováquia, mas ela se recusou a ir embora. Os filmes dela não dissociam a visão subjetiva da mulher moderna de uma objetividade crítica feminista. As personagens de Chytilová são, emancipadas ou não, prisioneiras das palavras dos homens, da linguagem e do julgamento masculinos — nesse sentido, a tcheca seria uma cineasta antipatriarcal e isso está bem presente em As pequenas margaridas.
 
 

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