Publicidade

Correio Braziliense

Agnès Varda inspirou um dos mais importantes movimentos do cinema moderno

Agnès Varda, morreu nesta sexta-feira (29/3), aos 90 anos, em decorrência de câncer


''

Varda: prêmio, pelo conjunto da obra, no Festival de Marraquexe (Marrocos), em dezembro de 2018(foto: Fadel Senna/AFP - 2/12/18)
Varda: prêmio, pelo conjunto da obra, no Festival de Marraquexe (Marrocos), em dezembro de 2018 (foto: Fadel Senna/AFP - 2/12/18)
Um tom memorialista desde sempre acompanhou a produção da diretora belga Agnès Varda, morta nesta sexta-feira, aos 90 anos, em decorrência de câncer. Isso, a ponto de culminar no filme testamento Varda par Agnès (em que ela discorre sobre seu processo criativo), exibido no Festival de Berlim, em fevereiro, quando foi homenageada, ao lado da atriz Charlotte Rampling. “Dividir, com o público descobertas e emoções”, como Varda declarou, no passado, nutriu toda a veia arqueológica de uma produção que privilegiava o ambiente campestre e com temas que desconstruíam padrões de narrativas.

Com tanta experiência, não foi de se estranhar que tenha se tornado a mais velha, entre todos os competidores do Oscar, ano passado, na disputa com o documentário Visages, villages. Homenagens acompanharam a diretora, dada como uma das precursoras da Nouvelle Vague. Em 2015, faturou Palma de Ouro, pelo conjunto da obra, no Festival de Cannes (cujo segmento Câmera de Ouro foi presidido por ela, em 2013); ano passado, recebeu Oscar especial e há cinco anos colocou na prateleira a honraria do European Film Awards. Nascida em 1928, com ascendência franco-grega, Agnès, curiosamente, se formou em Sorbonne, tendo por meta se tornar curadora de museu.

Mas foi na estreia na direção de filmes, com La pointe courte (1955), que tinha Philippe Noiret no elenco, que Varda se realizou, trazendo para a tela uma trama bifurcada que mostrava tanto um atrito conjugal quanto o cotidiano de moradores de um vilarejo de pesca. Na vanguarda, ela contou com o mestre Alain Resnais (morto em 2014) na edição do longa.

(foto: GEORGES BENDRIHEM/ AFP )
(foto: GEORGES BENDRIHEM/ AFP )


No último filme que chegou ao circuito nacional, Visages, villages, a idosa figura da cineasta emociona, dado o destino inesperado para uma prevista visita (na Suíça) ao gênio e amigo Jean-Luc Godard, que nem coloca uma pessoa sequer para recepcioná-la. Godard, vale a lembrança, além de amigo do marido de Agnès, o cultuado Jacques Demy (morto em 1990), é a figura mais relevante em meio à casta de realizadores como Claude Chabrol, Eric Rohmer e Jacques Rivette que tiveram convivência com a artista.

Décadas antes de aliar Jean-Paul Belmondo, Marcello Mastroianni, Catherine Deneuve, Alain Delon e Michel Piccoli para o longa As 101 noites (1995), que confirmou uma investida desastrosa de Varda pela comédia, a diretora já havia inscrito o nome na história do cinema. Com Cléo das 5 às 7 (1962), pelo qual concorreu à Palma de Ouro (em Cannes), Varda, ao lado dos atores Corinne Marchand e Antoine Bourseiller (pai da filha dela, Rosalie), eternizou a trama de uma cantora atônita, por horas, pela expectativa dos resultados de um exame de saúde, antes de conhecer um soldado.


Artista antenada à reciclagem de alimentos (entre várias bandeiras positivas) e que prezou a solidariedade na filmografia, Agnès Varda foi sinônimo de engajamento, ao abraçar causas em filmes dos anos de 1960 e 1970, como Longe do Vietnã; Saudações, cubanos! e Panteras Negras. Com interesse específico pela fotografia, outra das paixões, Varda, ex-estudante da Ecole du Louvre, consolidou a carreira por filmes chamados de ensaísticos e experimentais.

Muito da carreira da artista pode ser visto em Brasília, numa mostra promovida há 13 anos pelo CCBB que foi chamada de O movimento perpétuo do olhar. Para conhecer melhor seus objetivos e anseios, uma boa porta de acesso é a cineautobiografia batizada de As praias de Agnès (2008). Quem quiser um atalho pode se contentar com uma sequência transgressora dela, em Visages, villages. No melhor estilo sorrateiro, ao lado do amigo Jr., ela (de cadeira de rodas) invade o Museu do Louvre, reciclando uma das mais famosas cenas do clássico de Godard Bande à part (1964). Um espetáculo de vitalidade.


Filmes fundamentais


Jacquot de Nantes (1990)

Além das reminiscências do diretor Jacques Demy (marido dela, morto no ano da produção), o filme traz clipes de filmes assinados por ele, como Pele de asno (1971) e Lola (1960). Demy, que teria sido vitimado pela Aids (enquanto a versão oficial da morte foi atribuída a tumor cerebral), está em entrevistas, numa montagem que expõe paixões dele como a ópera e peças com marionetes.

Visages, villages (2018)

Junto com Jr., fotógrafo adepto da interferência em gigantescos espaços, Varda explora, em viagem numa van, realidades arcaicas e o poder inclusivo da fotografia. O dia a dia de mineiros, cabras e estivadores fica documentado. Varda, aos poucos, afasta Jr. da urbanidade. Brota a autoestima renovada de agricultores e de caminhoneiras, entre outros grupos.

As duas faces da felicidade (1965) 

Num clima primaveril, um romance extraconjugal é salpicado como amenidade, pelo maior interessado, o marceneiro François (Jean-Claude Drouot), que, em torno da vida dupla, proclama para a amante: “Felicidade a gente soma”. Premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim, registra um amor desmedido da costureira traída (interpretada pela verdadeira mulher do ator), capaz de sacrifícios inomináveis.

Sem teto nem lei (ou Os renegados) (1985) 

• A desajustada protagonista Mona (Sandrine Bonnaire, em interpretação premiada com o César) aceita de bom grado as qualidades da solidão. Num caminho errante, Mona caracteriza o cinema de Varda, na mescla de documental e ficção. Hippie, a personagem central fuma, pede água e recusa trabalho, além de trocar sangue por comida. Faturou o Leão de Ouro em Veneza.

Os catadores e eu (2000)

O relógio sem ponteiros — aquisição da diretora durante o documentário — ilustra à perfeição o tema: medir tempo é relativo, de nada adianta o acúmulo de riquezas. Formada em história da arte e atenta à efemeridade de fatos e objetos, Varda participa do filme.

Ydessa, os ursos e etc… (2004)

O média-metragem se escora na colecionadora,“curandeira” e artista Ydessa Hendeles, filha de sobreviventes do Holocausto. Multimídia, a diretora versa sobre o fetiche do teddy bear (ursinhos de pelúcia que transmitem segurança e proteção). Tudo é regido pela montagem de uma inusitada instalação fotográfica.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade