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Correio Braziliense

Editora argentina reúne tirinhas que relacionam Mafalda e o feminismo

Sacadas da garota rebelde publicadas há mais de 40 anos tratam de problemas que continuam atuais


postado em 31/03/2019 06:10

(foto: Ediciones de la Flor/Reprodução)
(foto: Ediciones de la Flor/Reprodução)

Quino começou a publicar as tirinhas de Mafalda em 1964. Desde então, foram mais de 2.000. Não há tema proibido para a garotinha cheia de perguntas e, por isso, não foi difícil identificar um bom volume de tirinhas de teor extremamente feminista. Reunidas em Femenino singular pela editora argentina Lumen, a compilação das tirinhas ainda é inédita no Brasil, mas já mobiliza os leitores da pequena rebelde.

Há de tudo nas historinhas reunidas em Femenino singular, a começar pela implicância da menina com a falta de diploma da mãe e o desespero de não conseguir fazer a amiga Susanita compreender que a vida não se resume a casamento e filhos. Quando Quino começou a publicar Mafalda, havia muito da contracultura explodindo no mundo inteiro. Os Beatles surgiam em Liverpool enquanto os hippies pregavam a liberação sexual e o uso da pílula estava prestes a causar uma verdadeira revolução na vida das mulheres.

Mafalda nasceu nesse meio e veio para contestá-lo. Assim, não há como não ter se tornado um ícone do movimento feminista. A garota não aceitava as explicações fáceis e deterministas sobre o lugar da mulher na sociedade. O olhar afiado de Quino se debruçava sobre todas as particularidades da época, da economia e das obsessões psicanalíticas argentinas à guerra fria.

Com esses temas, Mafalda conquistou legiões de fãs de todas as idades e influenciou várias gerações de quadrinistas. Em Brasília, ela tem seguidoras como Gabi Love Love e Inara Régia, quadrinistas que conheceram as tirinhas ainda na infância. Gabriela Masson, conhecida como LoveLove 6 e autora de Garota Siririca, conta que costumava ler as tirinhas com a irmã. Mafalda virou uma referência forte porque é inteligente e despretensiosa ao mesmo tempo. “Os outros personagens são superinteressantes também. Acho que ser uma criança é uma forma de deixar mais acessíveis essas questões políticas e sociais que a Mafalda aborda. Acho incrível”, diz Gabi.

Progressista


Para a ilustradora, o feminismo da personagem criada por Quino é uma consequência. “Acho que a Mafalda é feminista porque é uma pessoa razoável e progressista, e não necessariamente porque levanta e representa um movimento específico feminista. Ela é um ícone do feminismo em quadrinho porque tem esse bom senso de entender que as mulheres precisam de direitos iguais, são tão capazes quanto os homens”, acredita.

Para Gabi, abordar questões sociais e políticas nos quadrinhos é uma forma de tornar os temas mais acessíveis e populares. No caso da produção feminina, a HQ ajuda a ampliar vozes: “As mulheres têm mais acesso porque você pode fazer sozinha, não precisa de equipe, de dinheiro e pode divulgar na internet. Então, acho que tem esse apelo especial para mulheres que querem falar sobre feminismo e não encontram espaço nos meios de comunicação”. Atualmente, a artista está debruçada na produção de Sheiloca, uma distopia sobre um mundo formado apenas por mulheres e que está sendo publicada no site da autora.

(foto: Ediciones de la flor/Reprodução)
(foto: Ediciones de la flor/Reprodução)


A também ilustradora Inara Régia acompanha a trajetória de Mafalda desde pequena. O primeiro contato com as tirinhas ocorreu durante as tarefas da escola. A mocinha argentina aparecia nos livros didáticos e ajudou Inara a entender que quadrinhos eram coisa séria. Ali, ela compreendeu como o poder de síntese era tão importante quanto a ideia, a sacada. Ao mesmo tempo, mergulhou na ironia engraçada destilada por Mafalda.

Meninos


O fato de a personagem ser uma menina gerou identificação imediata, já que boa parte dos personagens das tirinhas eram meninos. “E é melhor ainda que a postura dela seja feminista e não um modelo conservador de comportamento para meninas. Adoro como a Mafalda é questionadora, quer entender como as coisas funcionam e não fica calada quando acha que algo está errado”, diz. “É uma boa influência para todos, mas para as meninas principalmente, porque mostra que elas podem ser assim e isso não é errado. Também é uma boa maneira de introduzir o feminismo e questões relacionadas a ele”.

Morgana Boeschenstein, autora de Bruxas da vida real, não chegou a ter Mafalda como uma referência, mas sabe do peso da personagem e de sua importância na abordagem de questões feministas. “No meu caso, busco trazer minhas experiências pessoais ou a de pessoas próximas, ou ainda coisas que vejo na mídia” diz. “Muita coisa que acontece com uma pessoa pode trazer identificação com quem está lendo e o quadrinho é especial por ser uma mídia que traz o texto e o visual. É uma forma única de expressar.”

Mafalda: femenino singular
De Quino. Lumen, 136 páginas. R$ 57,48

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