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Correio Braziliense

Paulo Lins debaterá em torno da representação das metrópoles na literatura

Entre os temas que trará a debate na capital, Paulo Lins demarca o racismo e desigual distribuição de renda no país


postado em 16/04/2019 07:42

Paulo Lins: %u201CNunca vi povo tão analfabeto em política quanto o carioca%u201D (foto: Arquivo pessoal)
Paulo Lins: %u201CNunca vi povo tão analfabeto em política quanto o carioca%u201D (foto: Arquivo pessoal)

 

Paulo Lins deu voz às classes populares urbanas por meio da literatura. Ele começou escrevendo poesia, mas, quando passou para a ficção, continuou a impregnar de poesia as situações dramáticas representadas. Ele faz palestra hoje (16/04, terça) sobre o tema As Metrópoles na Literatura Brasileira, às 19h, no Teatro dos Bancários, pelo projeto Diálogos Contemporâneos. 

 

Autor de Cidade de Deus e Desde que o samba é samba, roteirista do filme Quase dois irmãos e da série Subúrbia (em parceria com Luis Fernando Carvalho), Paulo Lins fala, nesta entrevista ao Correio, sobre a sua formação, as afinidades com Machado de Assis e Lima Barreto, as raízes da violência, o culto às armas e as saídas para o Brasil: “Racismo e má distribuição de renda estão na origem de todos os problemas do país”. 

 

Entrevista// Paulo Lins


O que foi importante para você representar na ficção o Rio de Janeiro sob o ponto de vista das classes populares? Que autores te influenciaram? O que foi importante em sua formação de escritor?

 

Eu comecei fazendo poesia ainda menino, na escola. Depois passei para o samba enredo e samba de quadra, no bloco Anjinhos da Cidade de Deus. Em seguida, compus com Etelvino Henrique Ramos, o Téo, para o bloco Estrela de Jacarepaguá também em Cidade de Deus. Na faculdade, voltei à poesia e logo entrei na prosa com o romance Cidade de Deus, por meio do projeto antropológico Crime e criminalidade nas classes populares, de Alba Zaluar, abrigado na Unicamp e depois no Instituto de Medicina Social da UERG. O importante, para mim, foi, mesmo sendo morador, falar de minha realidade com base científica. Posso dizer que tudo que li me influenciou, mas Guimarães Rosa, José Lins do Rêgo, Dostoiévski foram os que eu mais li nas revisões finais. Antes de começar a escrever, li todos os livros possíveis, de poesia e de prosa, publicados no Brasil nos 10 anos anteriores, sem, claro, abandonar os clássicos. Foi um mergulho profundo.

 

Você começou pela poesia e, quando partiu para a prosa de ficção, a poesia continuou presente. Qual a relevância da poesia em sua visão de mundo?

 

Fernando Pessoa diz que não sabe se é poesia ou filosofia. A primeira coisa que Paulo Leminski me disse, quando nos encontramos, foi que a poesia é a verdade. Torquato dizia que a poesia é a mãe das artes e eu não duvido disso. Busquei nos poemas que li o modo mais eficaz de mostrar o sentimento dos meus personagens. Quando Roberto Schwarz leu as primeiras 100 páginas do livro, me disse que a verdade era fundamental. Eu entendi que não era a legitimidade dos fatos e, sim, a verdade humana que estava ali, na violência da miséria. Aquela verdade que está dentro do ser humano, seja ele de qual tempo e lugar for. E só a poesia e filosofia podem mostrar isso. A poesia é humana, demasiado humana. 

 

Como percebe a questão que é tema da sua palestra: a representação literária das metrópoles brasileiras?

 

Isso vem lá do Brasil Colônia. Vem mudando a forma, se ampliando, envolvendo pessoas mais jovens, porém a origem é a mesma: racismo e distribuição de renda. Algo que está principalmente nos países em que houve escravidão, que foram colonizados, que tiveram mistura de raça. Tudo mundo sabe disso. É claro.

 

Que diferenças a gente poderia levantar na representação ficcional do Rio de Machado de Assis, de Lima Barreto e a sua?

 

Não me sinto bem me comparando com dois mestres da literatura universal. Machado de Assis criticou os valores burgueses da segunda metade do século 19, a imposição do capital sobre a lógica de classes, mas em qualquer sociedade de qualquer tempo ele iria entrar na alma humana como entrou, mostrando ao ser humano como ele é por dentro, sem importar o que está por fora, se utilizando da ironia mais fina que um escritor pode ter. Machado é o nosso maior escritor. Já Lima Barreto, insistia em falar sobre nosso racismo, num Brasil pós-escravidão, onde o Rio de Janeiro recebia os negros baianos e do Paraíba do Sul. Num Rio de Janeiro da reforma do prefeito Pereira Passos, ele falava de uma zona norte que se construía à beira da via ferroviária, com portugueses pobres e negros entrando no mercado de trabalho. Sua literatura é feita de personagens negros, netos e filhos de escravos. Os problemas que afetam seus personagens são os mesmos que o afetam, segundo a historiadora Lilia Moritz Schwarz. Ele faz crítica à corrupção, crítica à república, crítica aos escritos que não estavam mostrando o nosso rosto. Enfim, um escritor combativo a toda injustiça social. 

 

E, quanto a você, qual a perspectiva?

 

Eu já pego um Brasil do pós-tudo, inclusive a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, que trouxeram imigrantes europeus e seu pensamento escravocrata português, aumentando e dimensionando o racismo; um Brasil da seca e de migração nordestina, um país em que já via a desgraça da ditadura, quando apareceu o crime organizado. Falo de um país da neofavela, com o aparecimento dos conjuntos habitacionais. A nossa semelhança para falar do Rio é que somos negros, cariocas e falamos sobre o mesmo tema. Nossa diferença é a genialidade que é inerente aos dois. 

 

Você escreveu o roteiro de Faroeste caboclo, de Renê Sampaio. Como se conectou com o universo da periferia de Brasília narrado na letra de Renato Russo que inspirou o filme?

 

Eu fiquei em Taguatinga por um tempo, frequentei as demais favelas, rodei pelo plano, enfim, fui a todos os lugares citados na canção. Como o Rio de Janeiro chegou a este estado de colapso? O carioca vota mal? Sim, o carioca só votou bem quando votou em Brizola. Carioca é um povo burro quando se trata de política. Veja agora o resultado das últimas eleições. Nunca vi povo tão analfabeto em política. Essa desgraça da igreja evangélica deixou os cariocas mais tapados. Tenho vergonha dos políticos que governaram o estado e a cidade do Rio de Janeiro.

 

O Rio parece ser um trailer do Brasil. Quais são as raízes da violência no Rio de Janeiro e no Brasil?

 

Racismo e desigualdade.

 

Você acha que a liberação das armas contribui para a segurança dos cidadãos? Que consequências prevê com essa medida?

 

Quando escrevi Cidade de Deus, fiz uma pesquisa sobre as armas clandestinas no Brasil e constatei que o número de armas ilegais na mão da população eram fabricadas no Brasil. Colocavam a culpa no tráfico internacional para despistar. Esse governo, de nenhuma inteligência, libera as armas. Um presidente que faz gestos de armas o tempo todo é sem noção.

 

Porque o nosso incompetente presidente não faz uma investigação e prende os traficantes de armas? 

 

Porque Moro não aponta um plano para desarmar a população já que eles vieram para mudar o Brasil? Nunca pensei que, no governo, fosse aparecer coisa pior que o Collor, mas apareceu. Esse povo só sabe golpear para levar vantagem, enganando os imbecis que votaram nele. Eu tenho vergonha do direito no Brasil. Esse senhor só está no poder porque prenderam Lula sem provas. Estão afundando o Brasil.

 

O Brasil vive uma escalada da barbárie. O que precisamos fazer para salvar o Brasil e para nos salvarmos? O que fazer para dar um passo de civilização?

 

Distribuição de renda, trabalho sociais, educação e saúde. Todos nós estamos fartos de saber isso. Inclusive a elite racista, burra e violenta.

 

SERVIÇO

 

Metrópoles Brasileiras na Literatura

Palestra do escritor Paulo Lins, no Teatro dos Bancários, hoje (16/04, terça), às 19h, dentro do projeto Diálogos Contemporâneos. 

 

 

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