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Correio Braziliense

Bidô Galvão fala ao Correio sobre a situação do teatro brasiliense

Para a atrz, o grande desafio é sobreviver e manter coragem de ousar fazer teatro fora do eixo Rio-São Paulo


postado em 20/04/2019 07:00

Bidô Galvão:
Bidô Galvão: "O teatro é um desafio constante que não te deixa estagnar" (foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press 31/5/11)
Nelson Rodrigues, Oscar Wilde, Harold Pinter, William Shakespeare, Molière — muitos dos grandes da dramaturgia nacional e internacional já serviram de base para que a atriz “carioca-brasiliense” Bidô Galvão brilhasse nos nossos palcos. Sob a batuta de mestres como Hugo Rodas, Alexandre Ribondi e Guilherme Reis, Bidô esteve em espetáculos como Varsóvia, Valsa nº 6, Álbum Wilde e Shakespeare em cena, entre tantos outros.

Bidô veio para Brasília ainda criança, aos 3 anos de idade, e adotou a cidade como sendo dela. “Nasci no Rio de Janeiro, mas completei 4 anos aqui em Brasília. Amo essa cidade. Ela é uma paisagem de luz na minha vida, mas, plagiando Clarice Lispector, também é a imagem da minha insônia”, afirma Bidô, em entrevista ao Correio.

Foi nas ruas da cidade que Bidô brincou e que descobriu a verdadeira vocação profissional: ocupar os palcos do teatro — ou as ruas, ou as telas, sempre levando arte e talento aos brasilienses. “Quis ser atriz quando descobri que havia uma multiplicidade em mim que precisava se realizar de alguma maneira. Na adolescência fiz artes plásticas, dança, mas o teatro me proporcionou uma saúde maravilhosa para vida. Como diz o nosso querido encenador uruguaio/brasiliense Hugo Rodas, ‘o teatro salva!’. Eu me transformei com o teatro. Se estou salva, não sei... Mas ele é um desafio constante que não te deixa estagnar”, comenta.

Definitivamente, estagnar é algo que Bidô está longe de fazer. Ativa, ela está “mobilizada em terminar um doutorado em artes na Universidade de Brasília” e ainda atuou em quatro filmes que devem estrear este ano: O homem cordial, de Iberê Carvalho; Dulcina doce sina, de Glória Teixeira, Ainda temos a imensidão da noite, de Gustavo Galvão, e Enigma, do artista visual Girafa. Aos palcos, Bidô volta no segundo semestre, com dois projetos “ainda embrionários” ao lado dos grupos Cena e Teatro do Instante.

Bastidores de peça com Bidô, em 1988(foto: James Fensterseifer/Divulgação)
Bastidores de peça com Bidô, em 1988 (foto: James Fensterseifer/Divulgação)

Duas perguntas//Bidô Galvão

Quais são os principais desafios de fazer teatro em Brasília?

O grande desafio é sobreviver. É manter a coragem de ousar fazer teatro fora do eixo Rio-São Paulo. Nos últimos anos surgiram alguns incentivos, mas que ainda não são suficientes. Faltam políticas públicas que realmente favoreçam o artista. Embora essa situação não seja um privilégio daqui, mas uma situação nacional. É preciso criar condições para ocupar os espaços que a cidade oferece. Não falo só dos teatros, que são poucos no momento, mas os espaços abertos, horizontes, que nos cercam. É como se fosse preciso conquistar os corações da cidade. Brasília, por suas circunstâncias sociais, geográficas e arquitetônicas nos propicia uma percepção de mundo muito singular. Isso se reflete no nosso teatro. Ou seja, fazer teatro em Brasília ainda é o exercício de desbravar horizontes. Implica em ter uma necessidade e um amor muito grande pelo que se faz. Um grande exemplo disso é a belíssima e competente exposição de fotografias de Mila Petrillo sobre a dança e o teatro dos anos 1980 e 1990 em Brasília, inaugurada esta semana no Museu da República, que demonstra a força e a potência das artes cênicas brasiliense.

O teatro brasiliense é feito de mulheres fortes. Quais você poderia destacar?

Existem muitas mulheres incríveis no teatro de Brasília! Da geração que eu admirei, da minha geração, das gerações que se seguem... Vou citar apenas duas mulheres, porque se me aventurar em citar várias atrizes com certeza me esqueceria de alguma e me sentiria injusta. A grande Dulcina de Moraes, importante nome do teatro nacional, que se tornou de Brasília e indubitavelmente não pode ser esquecida. Aqui localizou a sua Faculdade de Teatro, onde formou uma geração de atores e atrizes competentes. Faculdade esta, que mesmo após a sua morte, continua na luta por existir. É como se ela tivesse dado um emblema para Brasília: aqui formam-se atores e atrizes! Como se a capital do país possuísse esse destino teatral. E cito a minha companheira de diversas aventuras teatrais nos últimos 20 anos, a grande atriz Carmem Moretzsohn. Somos de uma época em que aprendíamos a fazer teatro fazendo teatro. Diferentemente dos dias de hoje. Admiro profundamente a sua garra, a sua competência, a sua sensibilidade, a sua disponibilidade para a cena e principalmente a sua capacidade de exalar o seu amor pelo teatro e pelo teatro de Brasília. Aprendi muito com ela. 

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