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Correio Braziliense

A voz-jazz de Rosa Marya Colin está de volta após 18 anos sem lançar discos

Famosa por dar uma interpretação única para o clássico California dreamin', nos anos 1980, cantora recupera no novo disco disco antiga parceria com Tim Maia e interpreta canções de Itamar Assumpção, Arlindo Cruz e Legião Urbana


postado em 23/04/2019 07:00 / atualizado em 22/04/2019 19:58

"Jazz e blues não é música de elite. Esses ritmos vêm dos negros", diz Rosa Marya Colin (foto: Armando Paiva/Divulgação)


Depois de 18 anos sem lançar um novo álbum, a cantora, compositora e atriz Rosa Marya Colin volta mostrando seu talento em conferir requinte e impacto em releituras singulares. Foi o que fez no fim dos anos 1980 com California dreamin’, sucesso do grupo The Mamas & The Papas, de 1965, que ganhou uma versão memorável na voz da mineira. No recém-lançado disco Rosa, resgata É por você que eu vivo, canção que compôs com Tim Maia em 1971. Também regrava Legião Urbana (Giz), Itamar Assumpção & Alzira (Man) e Sylvia Patricia (Depois das seis). Entre os destaques está o Eu canto esse blues, composição inédita de Arlindo Cruz, e uma homenagem a Blecaute com a canção General da banda. As 10 faixas do disco Rosa estão disponíveis nas plataformas digitais.

Aos 73 anos e com quase seis décadas de carreira, a cantora que “sempre foi blueseira e jazzista”, mostra que tem muito fôlego. Demorou para lançar um novo trabalho porque teve de conciliar as idas ao estúdio com a vida nos palcos e as participações na tevê. Ela atuou em dezenas de novelas da Rede Globo, sendo Deus salve o rei a mais recente e interpretou Tia Nastácia no Sítio do pica-pau amarelo. Em 1997 lançou Fever, no qual interpreta músicos de diferentes segmentos, como Lennon-McCartney, Ben E. King e Janis Joplin.

“Não sou uma cantora de rótulos. Eu canto o que vier. Mas gosto mesmo é de blues e de jazz. Porque, aqui no Brasil, você tem que chupar cana e assoviar. Então, gravei samba, rock. Várias coisas. Mas nisso é que me encontro: jazz, spirituals, blues. Tudo que canto tem traços disso, porque é para isso que tenho voz”, explica Rosa em entrevista ao Correio: “Esses ritmos que canto vêm dos negros, da África. Dizem que o jazz e o blues são músicas de elite, não tem nada disso. É o sofrimento de um povo que foi cantado. Assim como aqui aconteceu com o samba, com o chorinho, o lamento”, afirma.

Nascida em Machado, Minas Gerais, ela começou a vida artística em 1963 no Rio de Janeiro. Logo no ano seguinte, foi descoberta pelo produtor André Midani e pelo bossanovista Roberto Menescal. Passou a se apresentar no Beco da Garrafas, de onde saíram alguns dos artistas mais ilustres da MPB, e foi apadrinhada por Wilson Simonal, com quem gravou uma faixa para o LP Simbora.

Depois, viajou para os Estados Unidos e Europa e foi elogiada internacionalmente. No retorno para São Paulo, ainda nos anos 1960, tornou-se próxima de Tim Maia. Os dois iniciavam a carreira e foram aproximados por um amigo de Tim, que Rosa namorava. “A gente andava muito juntos”, diz a artista, que lembra das variações de humor do músico, “às vezes brincalhão e tranquilo, às vezes temperamental. Tinha muito das duas coisas”. Com o expoente do soul, ela escreveu É por você que eu vivo. A única parceria entre os dois foi lançada originalmente para o disco Tim Maia 1971 e volta aparecer agora em Rosa.
 
Atenta às questões raciais, ela afirma: “Tim Maia é um dos poucos cantores negros que são lembrados e reverenciados”. Ela fala sobre as dificuldades de se construir uma carreira sendo negro no Brasil. “Sempre foi muito difícil ser negro no Brasil, porque é um país racista. Eu dizia para mim mesma, para que não sofresse muito, pois o problema do racismo está no racista. ‘Eu o incomodo. Ele não me incomoda’. Isso sempre foi um lema que segui firmemente para não  sucumbir a essas coisas todas”.
 
Disco 'Rosa' está disponível em plataformas digitais(foto: Moisés Santana/Divulgação )
Disco 'Rosa' está disponível em plataformas digitais (foto: Moisés Santana/Divulgação )
 

Sempre bem acompanhada, ela conta que era fã de longa data do vanguardista paulistano Itamar Assumpção. “Eu sempre ia ver os shows, na época em que ele era acompanhado pelo grupo Isca de polícia. Gosto muito do trabalho dele e nos tornamos grandes amigos”. Rosa diz que era ele quem cuidava das orquídeas dela. “Um dia foi à minha casa e viu que as orquídeas estavam todas morrendo, porque eu não tinha mão para elas. E ele falou: ‘Vou levar para casa e cuidar delas’”, recorda-se aos risos.

O auge do sucesso de Rosa surgiu quando foi convidada para gravar 30 segundos de California dreamin’ para um comercial. A versão ecoou por todo país e não demorou a ganhar uma versão na íntegra, até hoje a principal da carreira dela. “Foi uma música que apareceu para mim. Na época, eu fazia teatro. E, lá de São Paulo, fui chamada para gravar um jingle. Eu tinha gravado jingle para a mesma loja no ano anterior. Gravei Summer time days. E fez sucesso. Daí me chamaram para fazer California dreamin’. Gravamos 30 segundos. Depois de 15 dias, fui chamada para gravar a música inteira. E, daí, virou um LP.”

*Estagiário sob supervisão de José Carlos Vieira


Três perguntas / Rosa Marya Colin 


Tem espaço para blues e jazz hoje em dia?
Hoje em dia está começando a ter um espaço melhor. O Brasil inteiro tem festivais, e as pessoas mais populares, digamos assim, estão se interessando por isso. É o estilo que vai pegar, que vai ganhar muita abertura.

Você compartilha do receio de alguns colegas músicos que temem pela redução de investimentos em cultura?
Em São Paulo a gente está fazendo um movimento pró- preservação de espaços culturais que estão sendo encerrados. Aqui, no Rio, não se tem espaço para fazer show. Nos teatros que têm, cobram caro. Isso me preocupa muito.

Teve problemas com a ditadura? Qual sua opinião sobre pedidos de volta daquele período?
Eu não sei o que esse povo quer. Está na hora de a gente cuidar de coisas mais elevadas. O passado é passado, e só serve como aprendizado para o presente. E se as pessoas querem voltar ao passado, o problema é delas. Elas que vivam o passado. Eu estou no presente e preocupada com o futuro. Mas nunca tive problemas com a ditadura. Eu sempre tive que trabalhar. Fui a fonte de renda familiar e sou até hoje. Não tive tempo de cuidar de politicagem. Meu negócio era apenas trabalhar e sustentar minha família.
 


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