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Correio Braziliense

Bacurau abre passagem para o brilho de Sonia Braga e Kleber Mendonça

O longa nacional está na seleção do 72º Festival de Cannes


postado em 15/05/2019 07:00

(foto: Victor Juca/Divulgação)
(foto: Victor Juca/Divulgação)

Na primeira das três exibições do filme nacional que compete pela Palma de Ouro em Cannes, Bacurau, uma tremenda lacuna será sentida no tapete vermelho, hoje: sem detalhar o motivo, a estrela Sônia Braga, às vésperas dos 69 anos, confirmou ausência no evento em que compete a fita assinada pelos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. É a sexta vez em que a estrela que galgou posto internacional, desde as aparições em filmes como O bandido da luz vermelha (1968) e Mestiça, a escrava indomável (1973), será vista nas privilegiadas telas do evento francês, que é central na difusão do cinema de escala mundial. Em Cannes, Sonia Braga, fora da tela, integrou júri (em grupo composto por personalidades como Sydney Pollack e Charles Aznavour), em 1986, quando a brasileira Fernanda Torres (Eu sei que vouteamar) empatou como melhor atriz com a alemã Barbara Sukowa.

A mais recente passagem da estrela que já fez filmes com lendas do cinema do porte de Clint Eastwood (Rookie) e Marcello Mastroianni (Gabriela) pelos holofotes de Cannes foi ruidosa: com a equipe de Aquarius (também de Kleber Mendonça), levantou placas, há três anos, contra a conjuntura da iminente saída da presidência de Dilma Rousseff. Vale lembrar do histórico presente de Sônia Braga, quando o assunto é política: em Patriamada (1984), por exemplo, interpretou a si própria para saudar a reimplantação da democracia e já varreu praça carioca, em 1995, contra a degradação da obra do paisagista Burle Marx.

Entre 150 profissionais envolvidos com o filme a ser exibido no Théâtre Lumière, Sonia Braga é o nome mais reluzente, mas o antigo diretor de arte dos filmes de Mendonça, Juliano Dornelles, chega como revelação (leia entrevista). Em Bacurau, Braga dá vida à personagem Domingas, cercada de mistério, mas já é possível especular sobre impasses econômicos e sociais que cerquem a caracterização, no filme que, no Brasil, estreará no segundo semestre.

Produzido por Emilie Lesclaux (o mesmo de O som ao redor, o filme que atualmente tem criado um cenário desfavorável para alguns envolvidos), e com imagens captadas na divisa dos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba, Bacurau tem o alemão Udo Kier no elenco e traz a agitada Lia de Itamaracá, na pele de Dona Carmelita, figura central para um povoado que, com a morte dela, se vê, subitamente, limada do mapa.

Ainda em Cannes

No evento estendido até o dia 25 de maio, nomes proeminentes desde já estão escalados para ocupar a tela e espaços na mídia, dada a grandiosidade de Cannes. No filme Diego Maradona, do britânico Asif Kapadia (o mesmo que dirigiu fitas em torno de Ayrton Senna e de Amy Winehouse), o ex-atleta argentino é revisto, por meio do acesso a três entrevistas e ao exame de 500 horas de material inédito. As atrizes Charlotte Gainsbourg e Béatrice Dalle interpretam bruxas, tomadas por histeria, no set do longa Lux Aeterna, do polêmico Gaspar Noé (de Irreversível). Mais de 50 anos depois de Um homem, uma mulher, os icônicos Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant retomam personagens criados por Claude Lelouch, no novo Os mais belos anos de uma vida.



Três perguntas / Juliano Dornelles


Qual a perspectiva de estrear o filme, sob olhares do mundo e de um Brasil “transformados”?
Bacurau é um filme de muitas ideias e temas, mas é, essencialmente, um faroeste sobre o Brasil e seu povo. É claro que esperamos um alcance máximo para o filme. O filme poderá transitar bem entre diferentes tipos de público e suas mensagens serão discutidas e refletidas. O Brasil está precisando mais do que nunca se reconhecer no espelho, me parece haver uma confusão de representação e de identidade. Acho que muito do que é dito e visto no filme é, de fato, uma imagem muito nítida de um caminho que nossa sociedade pode estar trilhando.


Como foi estabelecer uma parceria com Kleber Mendonça Filho?
Foi muito fácil. A melhor ideia é a que fica. É muito tempo trabalhando junto, muita confiança e liberdade. Acho que em 98,3% das vezes, a gente conseguiu seguir um plano de filmagem que tinha sido desenvolvido no roteiro. O roteiro já era algo bem consolidado para a gente, num projeto que nasceu em 2009, tivemos tempo de sobra pra deixar nossas ‘marcas’ e ao mesmo tempo fazer um filme de que os dois, individualmente, gostam muito. Não sei se funcionaria com qualquer pessoa, sou muito sortudo em ter um parceiro como Kleber Mendonça.


Prevê reações diferenciadas para o exterior e para a perspectiva do “consumo” interno do filme?
Acho que no Brasil tem muita tensão sendo alimentada diariamente. Bacurau é um filme que fala de coisas que estão acontecendo no Brasil e no mundo agora, acredito que as reações terão muitos pontos de convergência, o que pode ser diferente no Brasil é que, além de ter um mapa de rostos autenticamente brasileiros, o filme é daqui, no sertão, e está cheio dessa energia gerada por essas tensões do momento histórico.



O brilho em cannes 


• Em protesto, de 2016, Sonia Braga esteve acompanhada pela produtora Emilie Lesclaux (tampada por placa)


• Com o longa de Arnaldo Jabor, Eu te amo (1981), competiu no segmento Um Certo Olhar


• Sob a direção de Hector Babenco, esteve em O beijo da mulher (1985), que rendeu prêmio para o colega William Hurt


• Rebelião em Milagro (1988), de Robert Redford, participou fora de competição


• Vinte e oito anos depois da estrondosa bilheteria nacional, Dona Flor e seus dois maridos esteve no festival, pela seleção chamada Cannes Classics
 
 
 
 
 
 
 

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