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Correio Braziliense

Longas de artistas plásticos de renome mundial estão em cartaz na capital

A partir de materiais alternativos, que vão de antigas latas de filmes a películas que registram closes de artistas famosos


postado em 15/05/2019 19:19 / atualizado em 15/05/2019 19:28

(foto: Guillaume Souvant/AFP - 3/4/15)
(foto: Guillaume Souvant/AFP - 3/4/15)




Desvendados em dois documentários exibidos na cidade (Tunga, o esquecimento das paixões e Agnès por Varda), os artistas plásticos de renome mundial Tunga e Agnès Varda ajudam a destrinchar a expressão e o peso das instalações no cenário das artes. Diretor de Tunga, o esquecimento das paixões, Miguel de Almeida (leia entrevista) conceitua, ao Correio, a abordagem de seu filme: “Não quis fazer uma biografia, tampouco um filme jornalístico, do tipo informativo. Muito menos discutir a obra de Tunga à base da estética. Interessaram-me dois personagens reais: Tunga e Gerardo (pai do artista) ,capazes de antenar o Brasil com os melhores pensamentos e conceitos planetários, numa tentativa de nos desvencilhar de nossa atávica jequice, e oferecer uma narrativa de aventura. Tunga, até hoje, foi o único artista contemporâneo a expor na pirâmide do Louvre — num tempo em que também vivem Richard Serra, Kieffer e outros de menor potência”.

A partir de materiais alternativos, que vão de antigas latas de filmes a películas que registram closes de artistas famosos, a diretora Agnès Varda expandiu o talento, na produção de instalações — criando cabines de cinema integradas a grandes exposições europeias. Propondo uma observação diversificada (com inesperados suportes e plataformas eletrônicas), Varda — morta em março passado — trouxe à tona temas simples como o consumismo desmedido do plástico e o tomo solar dos acampamentos de verão, com direito à dança de cores e sinfonia criada pela mixagem de sons de bolinhas de pingue pongue. Cabanas de praia, paisagens idílicas e a revisão de temas doloridos (como a morte de uma gata de estimação) passam por um filtro bastante criativo.

Desde o primeiro filme da vida de cineasta, feito em 1954, em terno de uma comunidade de pescadores, Agnés Varda já explorava temas que futuramente aprimorariam a estrada de artista mais plena. Criadora adequada ao século 21, ela vestiu a roupagem de artista, em face de ser conhecida como mera cineasta, ainda que ocupasse  lugar invejável, como a única mulher a integrar a corrente de ponta do movimento da Nouvelle Vague francesa.

Herdeira, como público, de sistemáticas e mensais idas ao circo (o cinema, ela só conheceria aos 25 anos de idade), Varda, morta aos 90 anos, conta muito do processo de expansão de suas realizações e do crivo de seu olhar, no longa Varda por Agnès, em cartaz na cidade. Para além de detalhar o tripé que a vida inteira alardeou —a atenção com “inspiração, criação e com o ato de compartilhar com o público” —, no filme, a diretora  reapresenta, como protagonista de impactantes instalações que ganharam o mundo. Curioso que, por anos, ela viveu na Rua Daguerre (em (Montparnasse), imediatamente associada à figura de Louis Daguerre (o pioneiro a patentear processo fotográfico).

Foi justamente pela fotografia (em “imagens compostas”), como oficial captadora das performances do Avignon Festival (dedicado às artes) e do Théâtre National Populaire Daguerréotypes (que trazia peças como Mãe coragem e O avarento) que Varda se afirmou. Seguiram-se, como mostra o documentário, as fotografias em que, artisticamente, captou Salvador Dali, Eugene Ionesco, o escultor Alexander Calder, os colegas cineastas Visconti e Fellini, e o “líder máximo” Fidel Castro (visto como um “anjo com asas de pedra”, na imagem). As passagens pela China (em 1957) e por Cuba (em 1962) afunilaram a perspectiva social, junto “com o prazer e a energia” de se comprometer com uma arte engajada.




Curadora de museu?

Sob a intenção inicial de ser curadora de museu, Agnès Varda iniciou os estudos em Sorbonne e ainda na Ecôle du Louvre. Como revela, em Varda por Agnès, o longa-metragem Os catadores e eu (1999) deu impulso ao tom crítico de instalações detidas em temas como aproveitamento e reciclagem. Em Nantes, realizou obra com sem-teto e desalojados, por meio de objetos simples, como colchão, fogão a lenha e um carrinho de compras (com micro-ondas vazio), que fazia lembrar as necessidades do grupo. Vestida como uma batata — sete anos antes de Lady Gaga trajar carne —, Varda chamou a atenção num destaque da chamada Estação da Utopia, na Bienal de Veneza de 2003. A convite do historiador de arte Hans-Ulrich Obrist, ela criou Patatutopia, instalação em que fez obra a partir de raízes, brotos e sobras de colheitas — com intuito de propagar a importância de catadores de cooperativas, que remexiam em rejeitos da natureza. Uma batata em perfeito formato de coração inspirou toda a empreitada.

Seja nos montinhos de areia dispostos para a realização de uma instalação momentânea — em que, num cenário de praia montado sobre o asfalto, Agnès Varda transferiu o escritório de sua produtora para o meio da rua — seja nos painéis da “artista visual”  (que adotou modelo de trípticos para instalações em movimento), aproveitou  espaços e disposições de objetos que trouxeram novas possibilidades de arranjos da arte da diretora de cinema.

Com a obra As viúvas de Noirmontier, particularizou, para cada espectador a experiência de uma das 14 viúvas consultadas para filmetes. Nas obras para a Fundação Cartier para a Arte Contemporânea e artimanhas juvenis (ligadas às artes plásticas) na realização de Visages villages (documentário indicado para o Oscar), Agnès Varda tem um mundo, à parte do cinema, desvendado, no documentário em cartaz na cidade.



Três perguntas / Miguel de Almeida


Enquanto agente de performances, Tunga obscurecia a dimensão de artista plástico?
Digamos que as performances de Tunga funcionavam como desfile de lançamento de coleção. Ali havia uma colocação de tendências, de insinuações e de averiguações. Acredito que diante do público, como personagem de suas performances, Tunga intuía o andar do vento, emitia e recebia ondas vibratórias. Como de tudo fica um pouco, sempre sobra um resíduo, como dizia Drummond, a performance fornecia a Tunga o semblante de novas intuições. O Tunga das instalações era intelectual, vibrava no estamento filosófico e espiritual.

Em que instância Gerardo, pai de Tunga, foi definitivo na formação do artista?
Gerardo Melo Mourão é um personagem basilar na história de Tunga. Mas pelo que era Gerardo — um seminarista de formação, fluente em nove línguas, leitor profícuo de poesia e filosofia e um cinético cidadão do mundo nascido em Ipueiras, interior do Ceará. Gerardo era um personagem trágico, dramático, vaidoso e contundente. Para não dizer apenas generoso. Tunga herda dele a curiosidade, a coragem pelo mundo, a desconfiança dos padrões. São tipos pós-nações, além-territórios, antenados com o passado, principalmente a Renascença, quando a ciência é colocada no centro do universo, em oposição à religião católica messiânica.

O Brasil soube valorizar a arte do Tunga?
Tunga teve, em vida, o reconhecimento que quis. Expôs nos grandes espaços do país, era uma figura célebre no meio crítico, e vista como um tipo além-Brasil, quer dizer, logo se percebeu que Tunga não cabia no quadrado comportado da arte brasileira. Se Tunga não teve mais do Brasil, foi porque não o quis; se quisesse, teria. Mas ele estava com olhos na estrada. Ele se sentia bem entre os boulevares e fauborgs parisienses, que o colocavam em sintonia com Baudelaire, Duchamp e até Teilhard de Chardin — embora, vale dizer, sempre fosse mais ligado à ciência do que à hóstia.



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