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Correio Braziliense

Zusak, de 'A menina que roubava livros', lança nova obra após 13 anos

Em 'O construtor de pontes', escritor australiano Markus Zusak apresenta ficção não linear sobre um filho que recebe do pai a missão de construir uma ponte


postado em 18/05/2019 06:00 / atualizado em 18/05/2019 18:36

(foto: Hugh Stewart/Divulgação)
(foto: Hugh Stewart/Divulgação)

Com uma premissa simples, Markus Zusak convida o leitor a experimentar uma metamorfose: a transformação do cotidiano insosso de uma família não tradicional em uma verdadeira odisseia. Após 13 anos, o autor de A menina que roubava livros retorna com O construtor de pontes (Intrínseca, 2019) — uma trama não linear que cativa não só pela poesia, mas pela maneira com que cenas do cotidiano ganham significado.

Com A menina que roubava livros, liderou as listas de mais vendidos do jornal The New York Times, se transformou em best-seller internacional e ganhou versão cinematográfica. Desta vez, quem conta a história é Matthew, o mais velho dos cinco irmãos Dunbar, que, após viverem um trauma, são abandonados pelo pai, Michael, à própria sorte. Diante da tarefa de aprenderem a sobreviver sozinhos, o primogênito puxa para si a chefia da família e a administração de uma casa caótica.

Mas a história não é sobre Matthew. É sobre Clay. O quarto e mais enigmático dos irmãos, a partir do dia em que ele se torna supostamente traidor. Ou, pelo menos, é esse o termo que o primogênito usa.  A trama tem início no dia em que o patriarca volta para casa anos após abandoná-los e pede ajuda para construir uma ponte. Com a negativa dos irmãos, Clay é o único que aceita a tarefa, consciente de todas as consequências daquela escolha. E é aí que tudo começa a mudar.

Cada irmão tem um papel fundamental: além de Matthew, há o violento e agressivo Rory, ou, nas palavras dos irmãos, o “rolo-compressor humano”; Henry, o apostador e colecionador; o quieto Clay; e Tommy, o caçula, responsável por trazer animais improváveis para dentro de casa.  E, aqui, o termo não é um eufemismo. A residência dos irmãos Dunbar abriga uma cadela, um gato, um peixe-dourado, um pombo e até uma mula, todos batizados com nomes de personagens do filósofo Homero, autor de Ilíada e Odisseia — obras com muitas referências dentro do livro.

A narrativa oscila entre passado, presente e futuro ao contar as memórias da família desde sua origem até o momento em que Matthew decide se sentar, anos depois, em frente a uma máquina de escrever — um velho objeto familiar apelidado de tec tec. Aqui, todas as histórias do passado se costuram, e tudo tem um porquê.

Com uma trajetória grandiosa, O construtor de pontes tece uma história cheia de metáforas, aborda o conflito e as relações familiares, a dualidade entre a vida e a morte, amadurecimento, luto e saudade. A narrativa apresenta elementos clássicos e referências a grandes obras da literatura e da arte, como Homero e Michelangelo.

É um novo livro, mas Zusak traz características de projetos anteriores: a construção poética e a presença da morte, como em A menina que roubava livros (2005); a relação de violência e amor entre irmãos, como na série O azarão (1999); e a linguagem leve e humorada como em Eu sou o mensageiro (2002). Em O construtor de pontes, Zusak trouxe seus personagens antigos todos de volta — cada qual à sua maneira. E, nesta entrevista, Zuzak fala em entrevista ao Correio sobre as caraterísticas dos seus livros, as referências clássicas e mitológicas, e o processo de criação.

Entrevista /Markus Zusak


Há a presença das lutas e brigas também, como entre os irmãos Dunbar e os irmãos Wolfe. De onde vem isso? 
Acho que, talvez, nossas próprias obsessões ocultas vem à tona quando escrevemos. Corrida e luta sempre aparecem nos meus livros e há definidas razões. Eu nunca fui bom em nada quando comecei. Eu sempre tive que treinar por um longo período de tempo — geralmente anos — para me tornar bom. E eu acho que é por isso que as corridas sempre aparecem nos meus livros. Ela é a primeira coisa que eu penso como um treinamento. E a luta é tão solitária quanto a escrita é como profissão. Quando você é um escritor, chega a um ponto em cada livro onde você tem que dizer: “Ninguém pode me ajudar. Só eu posso fazer isso”. Por fim, a aparição da morte como em O construtor de pontes é um instrumento, porque existem duas mortes de impacto na vida de Clay. Eu acho que personifiquei a morte nesses poucos momentos quase como um agradecimento aos leitores de A menina que roubava livros. 

Você passou os últimos 13 anos escrevendo esse livro. Basicamente cresceu com essa história.  Qual você diria que é o personagem mais parecido com você?
Eu acho que a ambição de Clay vem de mim mesmo. Eu me vejo mais como ele e como Matthew. Eu sempre senti de certa forma uma responsabilidade pelas coisas, assim como Matthew se sente responsável pela família e pela narração da história. Mas eu acho que é Clay — e certamente não por seus heroísmos e tragédias — mas mais pelo fato de ele estar sempre pedindo para seus pais contarem histórias. Ele é um grande amante de histórias, e esse amor pelas histórias me levou a querer ser escritor.

Seus livros têm sempre uma referência a outras obras da literatura ou das artes. Desta vez, há muito de Homero e Michelangelo. Há alguma razão para essas referências?
Há sempre uma razão para elas serem sempre mencionadas. A Ilíada e a Odisseia são importantes em O construtor de pontes por causa de sua escalada e jornada épicas. Em algum momento, percebi que estava escrevendo um “épico suburbano”, e eu gostei da ideia de que nós sempre pensamos que vivemos vidas maçantes...Mas nós todos nos apaixonamos, todos nós temos pessoas que amamos que morrem. Na verdade, há grandeza na nossa vida, e eu quero escrever sobre esses momentos. Eu também estava muito interessado na ideia de que nós começamos a virar quem nós somos muito antes de nós nascermos. Esse é o motivo pelo qual escrevi o passado da família Dunbar, onde a vida dos pais de Clay — Michael e Penny — são o coração do livro em alguns aspectos.  Michelangelo foi tão importante para as ambições de Clay de fazer algo verdadeiramente grande — que transcendesse a humanidade. Clay quer fazer uma coisa linda e perfeita na forma de uma ponte, mas muito do livro depende da ideia de que Michelangelo também começou esculturas que não terminou:  figuras que ainda estão presas no mármore, que é muitas vezes como Clay se sente — preso em sua própria humanidade.

O construtor de pontes
De Markus Zusak. Tradução: Stephanie Fernandes e Thaís Paiva. Intrínseca, 528 páginas. R$ 54,90

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