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Correio Braziliense

Leia entrevista em que Christiane Torloni fala sobre cinema e a Amazônia!

Christiane Torloni assina a direção do filme Amazônia - O despertar da florestania e, corajosa, lança perguntas no ar: até quando?


postado em 18/05/2019 06:00

'A natureza humana é muito perversa porque as pessoas só vão fazer alguma coisa quando o telhado das casas delas é que estiver caindo''(foto: Marcelo Faustini/Divulgação)
'A natureza humana é muito perversa porque as pessoas só vão fazer alguma coisa quando o telhado das casas delas é que estiver caindo'' (foto: Marcelo Faustini/Divulgação)

 

 Esqueça a exuberância cômica da Tereza Cristina de Fina estampa (2011) ou a graça atrapalhada da Jô Penteado de A gata comeu (1985), duas das várias personagens imortalizadas por Christiane Torloni em novelas. Quem está em cena em Amazônia — O despertar da florestania, filme em cartaz nos cinemas da cidade, é a ativista, pesquisadora e cidadã Christiane. E a diretora, já que ela e Miguel Przewodowski dividem a direção do documentário.

 

"Virei uma pesquisadora para o filme. Entramos na segunda semana (em exibição), o que é uma vitória enorme", comemora Christiane, que define o longa como "forte, contemporâneo". "Fala sobre o que está acontecendo", diz. Ela criou também um portal (o amazoniaflorestania.com.br), no qual, entre outras coisas, apresenta projetos ambientais. "A sociedade civil precisa fazer a parte dela. Isso é intransferível. E é bom que seja", conclama.

 

O "o que está acontecendo" a que Christiane se refere é a questão do desmatamento da Amazônia, do descaso com as terras e com a cultura indígena. Isso tudo compõe a narrativa de Amazônia — O despertar da florestania, conduzida pela atriz e diretora com a participação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, dos ex-ministros Carlos Minc e Marina Silva, de jornalistas, pesquisadores, artistas, estudiosos e, claro, dos próprios indígenas. É muito importante — e representativo — que seja dada voz a eles num filme como Amazônia — O despertar da florestania.

 

Cena de Amazônia - O despertar da florestania, que entra na segunda semana de exibição: uma vitória(foto: Reprodução/Divulgação)
Cena de Amazônia - O despertar da florestania, que entra na segunda semana de exibição: uma vitória (foto: Reprodução/Divulgação)
 

 

Mais do que apenas apresentar as questões, Amazônia — O despertar da florestania leva à reflexão e faz perguntas necessárias. "É muito importante que a gente não deixe de fazer as perguntas certas. Por isso que meu filme termina com uma pergunta", afirma Christiane. Ela provoca: "A quem interessa que nosso povo não tenha educação? A quem interessa que sejamos massa de manobra? Porque é isso que a gente está vendo. Um povo educado não estaria deixando essas coisas acontecerem".

 

Sempre com a voz doce, embora o conteúdo seja muito árduo e combativo, Christiane Torloni deu ao Correio a entrevista a seguir, na qual fala sobre a preocupação dela com o meio ambiente, florestania e produção cultural. Ela revela que voltará aos palcos em breve para a terceira temporada do espetáculo Master class. Deixa também o convite urgente à reflexão, repetindo a pergunta com que encerra o filme: "Se não for agora, quando será?".

 

Entrevista// Cristiane Torloni

 

O filme é muito atual e fala de uma coisa que vem acontecendo há muito tempo… Fica uma sensação de que há quem não queira corrigir esses erros, não?

Pois é. Para você ver como a história dos nossos erros é longa. A minha pergunta sempre é: a quem interessa esses erros? Uma das perguntas que sempre faço é: a quem interessa que nosso povo não tenha educação? A quem interessa que sejamos massa de manobra? Porque é isso que a gente está vendo. Um povo educado não estaria deixando essas coisas acontecerem. Nas manifestações de ontem (quarta-feira, quando milhares foram às ruas protestar contra corte no investimento em educação por parte do governo federal) estávamos falando sobre isso. A única coisa que faz um povo crescer é a educação. Então, a quem interessa que a gente não tenha? É muito importante que a gente não deixe de fazer as perguntas certas. Por isso que meu filme termina com uma pergunta: “Se não é o momento, quando será?”.

 

Você acha que a florestania está mais desperta no brasileiro, que estamos mais com a sensação de que a responsabilidade pela floresta é de cada um de nós?

Eu acho que nós não despertamos, não. Agora é a hora de acordar. E é urgente porque, se a gente não acordar agora, será com a casa pegando fogo, que é o que está acontecendo. Eu tenho tido oportunidade de fazer debates depois do filme em vários lugares, e agora nós fizemos em Belo Horizonte e as pessoas só despertam quando a bomba estoura perto da casa delas. Minas Gerais está sob ameaça há anos e essas ameaças se tornaram realidade. Havia muitos relatórios dizendo que aquilo ali (as tragédias de Mariana e Brumadinho) estava para estourar. Então, agora eu tenho certeza de que o povo mineiro, que é muito organizado politicamente, vai também entrar nessa roda. Esses despertares estão vindo, infelizmente, através de tragédias. Só que, agora, uma tragédia que acontece na Amazônia há décadas está acontecendo em outros estados. E é nesse sentido que eu digo que a florestania não está na Amazônia, ela está em Brumadinho, em Mariana… A florestania está em todos os lugares. (Os problemas) agora estão mais perto. A natureza humana é muito perversa, porque as pessoas só vão fazer alguma coisa quando o telhado das casas delas é que estiver caindo.

 

Apesar de apresentar as questões de forma muito séria, o filme traz uma mensagem de que ainda tem jeito, vamos fazer a nossa parte que tem jeito. Tem mesmo?

Tem jeito se começarmos ontem (risos). Temos que ter urgência, porque estamos atrasados 50 anos. Isso é que eu quero mostrar com o filme. Definitivamente a gente tem que acordar e tem que fazer. Ainda mais agora que o cenário político está muito mais ameaçador, principalmente para essa questão, porque o meio ambiente e a educação andam de mãos dadas. E o Brasil vive num planeta em que, se ele não for economicamente sustentável, está fora dos mercados. O Brasil vai andar para trás agora, depois de todas os sacrifícios feitos?

 

O interesse de Christiane na Amazônia surgiu nas filmagens de Amazônia - De Galvez a Chico Mendes(foto: João Miguel Junior/TV Globo)
O interesse de Christiane na Amazônia surgiu nas filmagens de Amazônia - De Galvez a Chico Mendes (foto: João Miguel Junior/TV Globo)
 

Quando essa sua preocupação com as causas do meio ambiente despertam para você? 

Especificamente em relação à Amazônia quando a gente foi fazer (a minissérie da Globo) Amazônia — De Galvez a Chico Mendes, em 2006 e 2007. De lá para cá, o Victor Fasano, eu e o Juca de Oliveira fizemos um manifesto que recolheu mais de 1 milhão de assinaturas para o Amazônia para sempre.

 

Você acha que Amazônia — De Galvez a Chico Mendes foi o trabalho que mais te marcou pessoalmente?

Sim, com certeza, porque ele convoca uma outra ação, uma ação que é da realidade. É quando se quebra realmente a quarta parede.

 

A gente vê no filme que em outros momentos, como a abertura política e a Diretas já, houve a participação maciça da classe artística. Qual é a participação dos artistas brasileiros na causa ambiental? Ela é grande?

Os artistas estão maciçamente conectados com o meio ambiente e em vários lugares. Na causa indígena é uma coisa impressionante. Nós temos artistas que estão dedicando partes enormes de suas vidas a isso. A Maria Paula, por exemplo, faz uma trajetória interessantíssima como atriz, humorista, apresentadora e é uma embaixadora dessas questões indígenas. Nós fomos a Brasília ano passado para a história da Renca (Reserva Nacional de Cobre e Associados), que o Temer já estava vendendo parte da reserva indígena para mineradoras canadenses. Mas nós, artistas, não podemos ultrapassar nossos limites. É importante que a sociedade civil faça a sua parte, que não fique esperando só os artistas, porque a gente dá a nossa cara a tapa sem parar. Agora, por exemplo, que várias questões importantes serão votadas no Congresso, a sociedade civil precisa fazer a parte dela. Isso é intransferível. E é bom que seja.

 

Falta investimento na educação e no meio ambiente. Mas a cultura também passa por um momento complicado, com o fim do ministério e mudanças na Lei Rouanet. Como foi fazer um filme como diretora nesse momento? Você vê futuro para a produção cultural brasileira?

Futuro a gente vê. O problema é o como fazer. Novamente você vê as regras mudarem no meio do jogo, em vez de abrir todo um debate sobre isso, que é necessário. Melhorar é essencial em tudo: você pode melhorar regras, leis, mecanismos de fiscalização, e todos nós vamos sair ganhando com isso. O que você não pode é satanizar alguns segmentos, como está acontecendo, e distorcer realidades. O grande público não tem conhecimento de causa disso. Então, começa a ter uma lenda de que os artistas estão mamando nas tetas do governo, e isso é um escândalo. As pessoas ficam repetindo isso feito uns papagaios. Elas não têm noção do que é a indústria cultural no Brasil, do quanto ela fomenta de emprego.

 

No fim do filme, você lamenta que não pôde usar as imagens de Chico Mendes. O que aconteceu?

Depois de uma negociação de meses, com tudo certo, a família não assinou o termo de cessão, e eu não podia correr riscos. Se você olhar os créditos do filme, nós temos (como se fosse) uma lista telefônica de arquivos comprados, cedidos onerosamente, não onerosamente, isso tudo é um processo jurídico enorme. Depois de seis meses de negociação, eles não assinaram, e eu tive que tirar as imagens do filme, que já estava pronto.

 

Isso acabou onerando para você, não?

Sem dúvidas porque eu tive que comprar várias imagens do IGPA (Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia da PUC Goiás), que é o grande detentor das imagens do Chico no Brasil porque o cinegrafista inglês Adrian Cowell doou para o IGPA essas imagens. São imagens incríveis que compramos de lá, de maneira onerosa e com contrapartidas. Ao mesmo tempo em que estávamos negociando com o instituto, estávamos negociando com os herdeiros, e eles já tinham aceitado. Por isso que a gente seguiu. Por isso a gente termina o filme falando isso. Imagina, você falar de florestania no Brasil e não ter imagens do Chico!

 

Embora ele esteja presente no filme por meio de depoimentos e da importância dele…

Você não tem ideia do que foi tirado! É isso que a gente fala: a quem interessa isso? São interesses que não são bons interesses, vilipendiando a memória do Brasil. O próprio ministro não desqualificou a importância do Chico Mendes? A gente mandou o filme, o link, para todos os que tinham autorizado a imagem e depois de aprovado é que eles voltaram atrás, e isso foi muito ruim. E mais do que isso: no ano dos 30 anos do assassinato, que foi ano passado. O filme foi exibido pela primeira vez ano passado, no Festival do Rio. É como se matasse a pessoa duas vezes.

 

Com o filme lançado, você tem algum outro projeto, de voltar aos palcos ou às telas?

Sim. Volto com a terceira temporada do Master class, em que vivo a Maria Callas. A estreia será em São Paulo, e a gente deve fazer 12 praças que não foram feitas.

 

Brasília estará na turnê?

Adoraria. Mas não sei. Não sou produtora do espetáculo. Não daria conta de produzir teatro e fazer o filme ao mesmo tempo.

 

 

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