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Correio Braziliense

Coletivo Transverso cria aplicativo para unir grafiteiros e moradores da W3

A ideia é que a ferramenta ajude na comunicação entre artistas e que queiram ter os muros pintados


postado em 19/05/2019 06:00

No total, oito artistas da cidade pintaram fachadas na W3(foto: Paula Carrubba/CB/Divulgação/D.A Press)
No total, oito artistas da cidade pintaram fachadas na W3 (foto: Paula Carrubba/CB/Divulgação/D.A Press)

Pertencer e reinventar. Os dois verbos guiaram os artistas do Coletivo Transverso no projeto Obra à frente, que pretende transformar a W3 num corredor artístico preenchido por desenhos de grafiteiros da cidade. A ideia é colocar moradores e comerciantes em contato com os artistas para poderem viabilizar os grafites. Para isso, o coletivo criou um aplicativo que busca interessados dos dois lados. “Os moradores cadastram as fachadas de casa e os artistas se cadastram. São dois links e aí a gente faz essa ponte entre os artistas e as casas, porque, muitas vezes, a gente como artista quer fazer um painel grande em espaço autorizado e não tem esse contato, assim como tem muitos moradores que querem cobrir a casa com grafite e não sabem por onde começar. A plataforma facilita esse diálogo”, explica Patrícia del Rey, do Coletivo Transverso.

A primeira leva de resultados está pronta e envolveu oito artistas da cidade, alguns estreando no grafite, outros já conhecidos das ruas. Eles são responsáveis por intervenções entre a 706 e a 709 Sul e deixaram suas marcas em bancas de jornal, paradas de ônibus e casas da região. “A gente acredita que a W3 Sul é um grande corredor artístico que pode ser transformado em uma galeria a céu aberto”, diz Patrícia.

A opção pela altura da 706 e 709 foi feita por conta do Espaço Cultural Renato Russo. Os integrantes do coletivo e os artistas planejam realizar 12 visitas guiadas saindo do espaço para conferir as obras em uma caminhada. “A gente entende que caminhar é uma coisa importante, é se apropriar da cidade. A gente encontra a rua de verdade ao caminhar. Em Brasília, a gente sempre passa pelos lugares de carro. Queremos utilizar a cidade como espaço transitório”, avisa.

Quando morou em Barcelona, Pedro Sangeon, o criador do Gurulino, costumava consultar um site que colocava em contato grafiteiros e proprietários de imóveis com muros disponíveis. Assim, conseguia, com uma certa frequência, levar seus desenhos para espaços urbanos. A ideia era boa e Sangeon lembrou dessa ponte quando soube do projeto do Coletivo Transverso. “Quando as meninas decidiram fazer esse modelo de projeto, a gente conversou. Em Barcelona, o site era mais para muros abandonados, espaços menos residenciais e mais de empresa ou locais de governo, prefeitura”, conta o artista. “A gente fez uma caminhada na área que elas tinham delimitado. Elas conversaram com várias pessoas e alguns moradores entraram em contato com elas.”

Sangeon ficou com o maior espaço do projeto e pintou o Gurulino levando uma flechada em um muro inteiro de uma casa. “Ele leva a flechada e quebra uma das flechas como quem não vai morrer. E ele tem tatuado nos braços ‘arte nunca morre’”, avisa o artista, que se inspirou na história de São Sebastião, que retorna da morte, mas também na situação da cultura no Brasil contemporâneo. “Tem apelo bem popular, religioso, que a gente tem no Brasil, mas também é voltado para esse universo da arte e dos ataques que a gente está sofrendo”, diz. O artista conta que tinha muita vontade de desenhar o personagem em formato bem grande, como se fosse uma entidade ou a própria manifestação da arte. A ligação com o momento político e os ataques sofridos pela cultura, segundo Sangeon, vêm também como uma mensagem de força e esperança.

Foi uma experiência diferente para Clarice Gonçalves, também convidada para o projeto. “Foi a primeira vez que fiz uma pintura com esse teor de arte urbana em local de passagem, para ser visto, e a experiência foi superpositiva. Consegui manter esse lugar de estranhamento que é típico do meu trabalho”, conta. Clarice pintou o rosto de uma moça fazendo uma careta baseada em foto antiga tirada no Hospital Salpetrière, em Paris, conhecido pelo tratamento psiquiátrico de mulheres na segunda metade do século 19.

Projeto Obra à frente, do Coletivo Transverso(foto: Paula Carrubba/CB/Divulgação/D.A Press)
Projeto Obra à frente, do Coletivo Transverso (foto: Paula Carrubba/CB/Divulgação/D.A Press)


Na época, psiquiatras associavam distúrbios mentais femininos ao gênero na construção de um discurso que diminuía as mulheres. A histeria era, para eles, uma doença tipicamente feminina e foi com essa ideia que a artista quis trabalhar. “Fiz esse deslocamento, que não foi tanto assim porque tem essa histeria coletiva que a gente vive hoje. Mas causa um estranhamento porque o rosto está bem numa esquina, numa banca de revista, e foi interessante lidar com a expectativa das pessoas, dos passantes”, conta Clarice.

Para Lucas Gehre, pintar um mural não foi novidade, mas fazê-lo na W3 foi uma experiência diferente. “O projeto é interessante porque é um jeito de valorizar o trabalho dos artistas especialmente com essa oportunidade de fazer um mural e de ter um recurso para isso”, diz Lucas. “O pessoal mais focado na intervenção urbana tem poucas oportunidades para isso. É tudo feito muito por vontade, por esse desejo de consolidar os trabalhos, mas são raras as oportunidades de ter um local.”

Morador da W3, o artista, que também tem ateliê na região, há muito observa o avanço da degradação na avenida. “É um lugar detonado há muito tempo”, garante. Como ele anda muito pela região e faz muita coisa a pé, também sente certa familiaridade com o local. Para o projeto, o artista criou uma espécie de mapa feito com aplicações em estêncil que aproveita uma série de formas nas quais trabalha há muito tempo. “Pintei um trabalho que é uma continuidade de uma pesquisa visual que já tinha feito em outras aplicações, como desenho e até como mural, em uma exposição. É uma imagem que forma um tipo de mapa ficcional. Vou multiplicando as formas geométricas e construo uma imagem orgânica”, conta.

(foto: Paula Carrubba/CB/Divulgação/D.A Press)
(foto: Paula Carrubba/CB/Divulgação/D.A Press)


Alerrandro, outro artista convidado pelo coletivo, aproveitou uma pesquisa com texturas para falar de uma das maiores tragédias ocorridas na W3. A morte do índio Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo por adolescentes em abril de 1997, inspirou a criação de motivos indígenas, como peixes e pássaros no painel. É uma denúncia, entretanto, também uma lembrança de que a avenida viveu momentos trágicos, mas também marcantes para a história de Brasília.

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