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Correio Braziliense

Biblioteca Infantil enfrenta problemas que ameaçam a continuidade do espaço

Neste ano, a biblioteca na 104/304 Sul completou 50 anos


postado em 19/05/2019 06:10

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

Em uma Entrequadra da Asa Sul existe um prédio, projetado por Oscar Niemeyer e tombado pelo Iphan, onde tudo parte do livro. Há 50 anos, a Biblioteca Infantil e Escolinha de Criatividade da 104/304 Sul vêm formando várias gerações de crianças do DF por meio da arte, da liberdade e da criatividade. “É uma biblioteca propositiva”, ressalta Jacqueline Galvão, que há um ano dirige a instituição em que trabalha desde 2009.

Biblioteca e escola nasceram ao mesmo tempo, em 1969, filhas do ideal da educação integral, proposto por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira e integrado ao plano urbanístico de Lúcio Costa por meio das Unidades de Vizinhança. São gêmeas inseparáveis. Uma depende da outra. Fundado um ano após o fechamento da escolinha de artes da UnB, o local reverbera os ideais do movimento de Escolinhas de Arte do Brasil (EAB), fundado três décadas antes.

Desde então, e até hoje, cerca de 200 crianças matriculadas, de 6 a 10 anos, frequentam o espaço duas vezes por semana, durante duas horas, nas quais realizam atividades de leitura, praticam atividades lúdicas ligadas à literatura e às artes plásticas e cênicas. Outras crianças também podem pegar os livros, mediante cadastro. Tanto as atividades pedagógicas quanto as administrativas são feitas pelas professoras e estagiárias. São cerca de 10 mil livros, quase todos infantojuvenis. Essa é a única biblioteca pública especializada em literatura infantil no DF.

A jornalista e escritora de livros infantis Alessandra Roscoe conta que frequentou o espaço dos oito aos nove anos de idade, entre 1978 e 1980. “Sou cria da biblioteca”, declara. “A gente sentava embaixo de uma árvore para ler um livro e discutir a vida. Embaixo daquela árvore, eu fui instigada a desenhar o silêncio”, lembra-se. “Tenho aquele lugar como meu espaço de sonhar”.

Crescida, Alessandra sempre fez questão de estar presente no espaço, lançando seus livros ou promovendo atividades, caso do Concerto Literário do V Festival Itinerante de Leitura, projeto dela, realizado lá na última sexta-feira. “O livro se abre para todas as possibilidades”, afirma.

O músico Haroldo Matos, fundador da banda Mel da Terra, foi outro aluno ilustre da Escolinha, que frequentou, entre 1976 e 1977, em plena ditadura. “Eu tinha uma péssima relação com a escola. Na escolinha tinha muita liberdade pra se fazer as coisas, criar. Era como se eu tivesse respirando um ar novo, porque o ar geral era intoxicante. Foi muito importante, fundamental. Reforçou convicções do que eu gostava de fazer”, lembra.

Dificuldades


Em 2017, foi publicada uma portaria que põe em risco esse projeto. Desconsiderando as especificidades da Escolinha de Criatividade, a portaria define que os professores alocados na unidade têm de ser profissionais readaptados, ou seja, com limitações temporárias de atuação nas suas áreas originais. Para as professoras da Biblioteca, isso interfere diretamente na autonomia e no projeto pedagógico da escola, que necessita de profissionais especializados, capacitados e engajados na proposta da arte-educação.

A comunidade escolar — alunos, pais de alunos, usuários, professores —, engajada, divulgou uma carta aberta e recolheu quase 2 mil assinaturas pedindo a revisão da portaria. Em resposta, foi publicada uma nova portaria, que permitia que os professores atuais da Biblioteca permanecessem em suas funções, em caráter temporário. Findo esse período, no entanto, os 50 anos de educação libertadora da Escolinha de Criatividade continuam ameaçados. Por enquanto, as crianças continuam sonhando.

*Estagiário sob supervisão de Severino Francisco

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