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Correio Braziliense

Roberto Corrêa lança livro sobre trajetória da viola

Livro será lançado hoje com direito a aula show


postado em 23/05/2019 06:30 / atualizado em 23/05/2019 08:55

Roberto Corrêa quer que registro sobre a história da viola caipira seja acessível a todos os leitores (foto: Diego Bresani/Divulgacao)
Roberto Corrêa quer que registro sobre a história da viola caipira seja acessível a todos os leitores (foto: Diego Bresani/Divulgacao)
Para pensar em uma definição de música caipira, Roberto Corrêa gosta de recorrer a fronteiras. Não aquelas geograficamente delimitadas, as convencionais, mas a uma noção mais expandida de bordos, uma que englobe a ideia de região. Pensando assim, música caipira é toda aquela produzida num Brasil que se espalha por Minas Gerais, Goiás, São Paulo e Paraná. A partir daí, fica dispensada a noção de tempo. “A música caipira, para mim, é a que é feita nessa região, independentemente da época”, avisa o violeiro. “E, para mim, engloba tanto a música tradicional quanto a das duplas e a música moderna que está sendo feita na região, por isso digo que sou caipira contemporâneo.”

Um pouco sobre isso, mas também sobre a história do instrumento e sua difusão é sobre o que o músico trata em Viola caipira: Das práticas populares à escritura da arte (O avivamento no Brasil), que será lançado nesta quinta no Teatro de Bolso do Espaço Cultural Renato Russo. Durante o lançamento, o músico também faz uma aula-show para demonstrar os pontos mais importantes da pesquisa. “É para mostrar o que a tese está dizendo, então vou fazer uma música tradicional, uma música do Theodoro Nogueira e Disparada (Geraldo Vandré)”, garante.

Tese de doutorado

O livro é fruto de tese de doutorado defendida no Departamento de Música da Universidade de São Paulo (USP) em 2014, mas está longe do hermetismo de um trabalho acadêmico. Corrêa fez modificações no texto original para poder adequar linguagem e informação de modo que ficasse acessível a qualquer leitor, especializado ou não. “Algumas ideias ficaram mais claras, pude também colocar outras coisas, acrescentar outros conteúdos como o das outras violas brasileiras. Achei interessante dividir esse conhecimento, porque a tese ficou focada na viola caipira. Queria que as pessoas soubessem da existência desses instrumentos”, diz. “Queria atingir não só acadêmicos, mas esse universo da viola caipira, pessoas que não são acadêmicas.” Para tal, ele incluiu, por exemplo, um glossário com os tipos de viola praticados no Brasil.

Outra questão que norteou a pesquisa e, mais tarde, o livro foi a necessidade de deixar um registro sobre uma história pouco conhecida no país. Corrêa conta que há pouquíssima coisa publicada sobre a música caipira e o uso da viola e muito menos sobre a produção contemporânea. “Música caipira contemporânea: o que é isso? Gosto de quebrar esse conceito porque, para mim, a música caipira está aí: é a música que a gente faz. E os conceitos são mutáveis, podem mudar de acordo com o conhecimento que a pessoa vai adquirindo”, avisa. Além disso, como diz Paulo Castagna no prefácio do livro, “não há nada mais desconhecido no Brasil do que o próprio Brasil”, e a viola faz parte desse desconhecimento.

Corrêa leu, basicamente, toda a literatura dos viajantes do Brasil antigo e muitos livros sobre a música colonial brasileira para tentar encontrar alguma menção ao instrumento. Não havia quase nada e, para complicar, se deparou com a palavra viola utilizada para identificar outros instrumentos, como o violino, a viola da gamba e o violão. “Daí essa necessidade de adjetivar o instrumento para que as pessoas soubessem do que estava falando”, explica.
 
Capas de disco ajudam a traçar um histórico das gravações do gênero no Brasil
Capas de disco ajudam a traçar um histórico das gravações do gênero no Brasil
 
 
Por isso, um capítulo inteiro é dedicado à história da viola desde os tempos coloniais até o século 20. Preconceitos, modelos, regiões e características da música produzida também são objetos de análise, assim como a recuperação do que o autor chama de “a escritura da arte”, ou a produção das partituras, essencial para tirar a prática exclusivamente do contexto oral que pautava sua transmissão para outras gerações.

Roberto Corrêa lista acontecimentos da década de 1960 fundamentais para identificar a trajetória do gênero na história da música brasileira. O primeiro deles é o surgimento do pagode de viola, seguido da escrita da primeira partitura de música caipira, em 1962, quando Theodoro Nogueira compôs e escreveu sete prelúdios e um concertino para o instrumento. Em 1960, houve a primeira gravação de viola em disco e, sete anos depois, a criação da primeira orquestra de viola. “Hoje temos quase 200”, garante o pesquisador. Para fechar, o momento de ouro que colocou o instrumento na rota da história da música brasileira está o segundo festival de música popular brasileira na Record, realizado em 1966, e que deu o primeiro lugar para Disparada, composta por Geraldo Vandré e interpretada por Jair Rodrigues. “Foi importante, porque a viola é o instrumento principal da canção, e o festival o trouxe para a MPB, que era uma música mais sofisticada”, conta.

Levar a viola para o âmbito da pesquisa acadêmica poderia ser outro acontecimento. Corrêa acredita que esse passo foi importante porque coloca a viola num cenário no qual metodologia de pesquisa e fundamentação são a base da legitimidade. “A exigência metodológica é muito grande e isso me ajudou a elaborar bem as reflexões, a embasar”, diz. “A academia tem seus métodos, você não pode falar qualquer coisa, fundamentar no que já foi dito ou, se não foi dito, tem que fazer uma contextualização muito grande. E tem que comparar uma coisa com a outra, ter muita leitura”, destaca.
 
 
Viola caipira: das práticas populares à escritura da arte (O avivamento no Brasil)
De Roberto Corrêa. Editora Viola Corrêa, 206 páginas. R$ 59,90
 
 
Serviço
Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul). Nesta quinta (23/5), às 19h30. Lançamento do livro Viola caipira: das práticas populares à escritura da arte (O avivamento no Brasil). Às 20h, pocket show. Das 20h30 às 21h, autógrafos.

 
 
Trechos do livro 

VIOLA CAIPIRA 
• Instrumento encontrado na região de influência histórica paulista, a região do homem caipira que, na delimitação do sociólogo Antônio Cândido, abrange o estado de São Paulo e cercanias, englobando vasta área da região Centro-Sul do Brasil.


VIOLA DE SAMBA (MACHETE E TRÊS QUARTOS) 
• Viola-de-samba, encontrada no recôncavo baiano, é utilizada em uma prática mUsical denominada Samba de viola ou Samba de chula. Arma-se com cinco ordens de cordas metálicas duplas sendo os três primeiros pares afinados em uníssono e os outros dois afinados em oitavas.

VIOLA CAIÇARA (VIOLA-DE-FANGANDO OU VIOLA BRANCA) 
• A viola caiçara encontrada no litoral sul apresenta-se com seis ou sete cordas dispostas em cinco ordens. As primeiras, segundas e terceiras ordens com cordas singelas (simples), a quarta ordem com apenas o bordão (ou com o bordão acompanhado de sua oitava em intervalo de quinta ou oitava) e a quinta ordem com bordão e oitava.

VIOLA-DE-CANTORIA (OU REPENTISTA) 
• (...) Um modelo de instrumento muito utilizado pelos repentistas apresenta vários acessórios que lhe conferem um timbre peculiar, o instrumento possui um disco de metal, na parte interna, bem no centro do bojo maior do tampo.
 

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