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Correio Braziliense

Novo disco de Zélia Duncan fala sobre afetos e amigos

Em novo disco, Zélia Duncan faz uma celebração da amizade com parcerias que recuperam sua própria história musical


postado em 09/06/2019 07:00

Zélia Duncan sente-se uma cronista por meio das músicas que compõe(foto: Roberto Setton /Divulgação)
Zélia Duncan sente-se uma cronista por meio das músicas que compõe (foto: Roberto Setton /Divulgação)

 

Tudo é um nasceu de uma saudade. Há muitos anos Zélia Duncan não trabalhava com o músico e compositor Christiaan Oyens. A amizade de uma vida, marcada por parcerias no início da carreira e por uma convivência que nunca arrefeceu (Zélia é madrinha da filha de Oyens), está agora selada e sacramentada em um disco que fala, entre outras coisas, desse amor de amigo.

 

Depois de Sortimento, lançado em 2001 e fruto da parceria com Oyens, cada um foi para um lado. Zélia, 54 anos, gravou com Itamar Assunção e Jaques Morelenbaum, fez dupla com Zeca Baleiro e até teatro. “E Christiaan foi fazer milhares de outras coisas. Tudo é um é uma celebração da nossa amizade e dessa fase da nova carreira, de lembrar o amor do começo. A delícia disso é que foi uma revisitação do nosso universo do começo, mas não no sentido de andar para trás. Eu trouxe todas as minhas influências desses anos e ele também”, conta a compositora. É dele, ela avisa, a sonoridade e a atmosfera do disco. "Meu timbre de voz faz parte da atmosfera dele, a gente se mistura dessa maneira", repara.

 

Essa celebração está especialmente retratada em Canção de amigo, na qual se fala de memórias, nostalgias, carinhos garantidos e defeitos perdoados, mas esse festejo se espalha pelo álbum e permite entrada em outros temas. Zélia também fala de amor, de todos os tipos, de envelhecimento e da felicidade possível no mundo contemporâneo.

 

É, como ela diz, um disco suave e gentil, uma tentativa de lidar, também, com os tempos atuais. "É o maior contraponto ao que estou vivendo como brasileira e artista, à depressão dos tempos que estamos vivendo em termos do ódio, de sentir que um governo não gosta da cultura do seu país", aponta.

 

Na capa, o rosto de Zélia aparece fragmentado em vários pedaços de imagens, com uma maquiagem leve e sem retoques de fotoshop. Na canção que dá título ao álbum está parte da explicação da ideia da compositora: “Tudo é um/Tudo é resto de alguém/Tudo está, porque vem/E só está por que já foi ali, além”.

 

"A gente é fragmentada, minha carreira aponta para vários caminhos, mas quem está ali focando e decidindo sou eu", explica. "A gente sempre está vindo de um lugar, o desafio é se tornar você. E acho isso muito bonito. Todo dia a gente escolhe nosso caminho. Tá tudo dentro de uma vida. Isso sempre me impressiona. O que faz a gente escolher uma coisa e não outra? Essa música está falando disso."

 

A amizade se espalha por todas as 11 faixas de Tudo é um na parceria com Oyens, mas também com Zeca Baleiro, Chico César, Dani Black, Moska, Fred Martins e Juliano Holanda. E em todas é possível notar a presença dos parceiros. Com Baleiro, Zélia canta junto e, no caso de César, é impossível não reconhecer o ritmo nordestino em Tudo é um. “Quando você faz uma música com alguém, aquela pessoa tem que aparecer. Que adianta fazer tudo com a mesma sonoridade?”, questiona.

 

Tudo é um

De Zélia Duncan. Biscoito Fino, 11 faixas. R$ 36,15. O disco está disponível em todos os serviços de streaming.

 

» Entrevista// Zélia Duncan

Você disse que o disco é também um contraponto ao que se vive hoje no Brasil, mas não há menção direta a isso. Como funciona?

Essa depressão que a gente vive no dia a dia espantei do meu disco. Ele faz pensar, mas não puxa para baixo. Apesar dos pesares, a gente ama fazer o que faz e precisa dos amigos. Então, trouxe esses amigos para o disco. Canção de amigos fala da minha relação com Christiaan, mas também da minha relação com a vida: ser quem se é e aceitar o que não deu pra ser. Essa frase, dita por nós, cinquentões, tem um sabor porque a gente sabe o que não deu pra ser e o que esperava e aconteceu. Não tenho talento para Poliana, detesto otimismo surtado, mas acredito que a gente precisa de paz para viver e a gente vive guerreando com muitas coisas. Esse trabalho propõe essa bolha, não de alienação mas de carinho.

 

O disco é sobre o amor, a amizade e os afetos, mas também sobre o cultivo da felicidade possível, não?

Bacana falar isso, porque é o feliz caminhar. Só posso ter controle sobre o que estou fazendo no momento. Brasília também é minha terra. A música Canção de amigo nasceu para três amigas de infância que moram em Brasília. Este disco, para mim, é muito emocional. Christiaan foi embora para Londres logo depois que terminamos, não aguentou mais o Brasil. Ele é espiritualista e o Brasil estava muito tóxico para ele. A gravação toda foi muito emotiva.

 

Você se sente uma cronista de si mesma? Ou uma cronista, simplesmente?

Sim. Acho que sim. Sempre falei, desde muito novinha, que a gente está sempre falando da gente. Claro que, às vezes, você sublima isso, mas minha imaginação parte de um ponto de vista que é meu. Às vezes, sou bem literal.

 

“Ser quem se é/Aceitar o que não deu pra ser/Receita pra não sofrer/Não ser perfeito, mas ser você”: parece uma receita para enfrentar, também, o envelhecimento. Esse disco também é sobre isso?

A vida é muito louca. Eu acho a velhice super malfeita. E estou a caminho, ainda não cheguei lá. Você vai se sentindo tão bem, melhor, e ao mesmo tempo tem que lidar com a decadência do seu corpo. Hoje corri 10km, já corri maratona, mas é muito louco ter 54 anos e se sentir com muita vitalidade, mas não poder tirar uma foto sem se maquiar, não pegar um papel e ler sem óculos. Perder a independência é muita sacanagem. Me considero fora do padrão, sou uma pessoa muito assumida quanto a minhas orientações. Já era bastante tranquila quanto a isso, mas agora sou uma feminista, leio muito sobre feminismo, aprendi que o que há de humano em nós, se não passar pelo feminismo, não vai passar. O feminismo é um convite à humanidade. Tenho orgulho de ser gay, da minha vida. Maquiagem é porque quero parecer bem, não mais jovem. Não quero que tirem minhas marcas, eu que sei o quanto me custou.

 

  

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