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Correio Braziliense

35ª Feira do Livro de Brasília sofre com cancelamentos e falta de verba

Parcerias públicas e privadas canceladas e decisões tomadas em cima da hora reduziram o evento


postado em 12/06/2019 07:00

(foto: Luiz Ávila/Divulgação)
(foto: Luiz Ávila/Divulgação)


Thelmo Martins, coordenador geral da 35ª Feira do Livro de Brasília (FeLIB), imaginou que, às vésperas dos 60 anos da cidade, seria uma excelente oportunidade de reformular um dos eventos literários mais tradicionais da capital. No entanto, o projeto tomou outros rumos e, por falta de recursos, a feira acabou com uma estrutura gigantesca, uma programação esvaziada e uma rede de autores indignados com os desconvites realizados por meio de comunicado enviado a cada um deles. Em entrevista ao Correio, emocionado e com lágrimas nos olhos, Thelmo explicou a sucessão de problemas que levaram a 35ª FeLIB a abrir as portas com a certeza de que boa parte da programação seria cancelada.

A expectativa era de que a feira fosse realizada com R$ 2,8 milhões. Pela primeira vez na história do evento, o então Ministério da Cultura, hoje Secretaria Especial de Cultura, participou do orçamento com R$ 1 milhão, valor destinado exclusivamente a criar o que o coordenador chama de Cidade da Leitura, o espaço de mais de 2 mil metros quadrados erguido entre o Museu da República e a Biblioteca Nacional. O restante viria do Governo do Distrito Federal (GDF) por meio de emendas parlamentares que, finalmente, não se confirmaram. Da Secretaria de Cultura distrital, a FeLIB recebeu R$ 541.528,33.

Para completar, os parceiros privados que haviam sinalizado apoio não confirmaram a participação. Martins admite que demorou para tomar a decisão de redimensionar a feira porque ainda acreditava na possibilidade de solucionar a falta de recursos.

Quando se deu conta de que isso não seria possível, começou a cortar. “Tivemos que  redimensionar um projeto que já vinha com uma orientação do ministério para a montagem e estrutura e que precisava do complemento dos outros recursos que não se efetivaram. O dilema foi o que cortar e como cortar. O quanto cortar se tornou claro para a gente muito em cima da hora”, lamenta.

O cancelamento da programação do Café Literário, que incluía grandes nomes da literatura brasileira, causou enorme repercussão. Autores como Ignácio de Loyola Brandão, Luiz Antônio Assis Brasil, Josélia Aguiar e Renato Janine Ribeiro receberam um comunicado padrão com o cancelamento do convite. O curador de literatura, Maurício Melo Jr., estava viajando e coube à produtora Janine Russczyk tratar dos cancelamentos. “As responsabilidades dele estavam comigo e eu estava fazendo milhões de outras coisas também, então a gente pensou em costurar um texto que não deixasse ninguém sem resposta. Mas esse cuidado de dar uma atenção mais próxima (para cada autor), realmente, ficou uma lacuna”, admite Janine.



A confusão foi tanta que alguns autores, como Itamar Vieira, chegaram a receber passagens no valor de R$ 2.329,37 emitidas pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), parceiro da feira. “Fiquei em choque, porque foi com recursos do FNDE que compraram as passagens que não iam ser usadas. E, além de tudo, não tivemos nenhuma justificativa da pessoa que nos convidou. Compreendo que a situação do país é terrível e queria muito estar junto dos meus colegas para encontrar uma solução se não tivessem dinheiro para gente participar. Eu poderia ir sem cachê se tivessem explicado isso e se fosse uma condição equânime para todos os participantes”, garante Vieira. Segundo Janine, como não serão usadas, as passagens terão o valor revertido para o fundo. O ator Lázaro Ramos, que conversou com o público no sábado, abriu mão do cachê, assim como Fagner e Moraes Moreira, mantidos na programação. O escritor Eduardo Lacerda também arcou com as despesas da viagem e recebeu da feira apenas a passagem de volta.

Outro impacto importante dos cortes foi no programa educativo da FeLIB. A produção havia previsto 26 ônibus para levar crianças de escolas públicas ao evento. A última sexta-feira também estava reservada para uma programação especial destinada a esse público. “Era para ser o mais bonito do projeto, um dia específico para educação, e se perdeu. No sábado, a comunidade viria e tinha material no chão, parte das equipes foram cortadas e fomos nos  desdobrando no meio do processo. E o respeito com o elemento mais precioso de uma feira, que é o escritor, acabou sendo prejudicado”, lamenta Martins.

Para custear os ônibus, o coordenador geral precisaria de R$ 100 mil, recurso que não tem em caixa. Uma das soluções encontradas pela produção foi criar um crowfunding (http://felib.com.br/2019/vaquinha), mas mesmo que consigam grandes doações, persiste o fato de que os prestadores de serviços querem pagamentos adiantados.


TRÊS PERGUNTAS PARA // THELMO MARTINS 

Qual o impacto de tudo que aconteceu para a imagem da feira?
Estou abrindo o coração porque, se colocarmos isso de forma errada aqui, até o livreiro, que é o maior beneficiário do projeto, vai conduzir essa questão para uma situação extremamente delicada. Ninguém fugiu, a gente está aqui, olhando de frente, tentando colocar em pé, colocando uma campanha de arrecadação na internet para não deixar isso aí se perder. Passei oito anos fora daqui e voltei acreditando que a gente consegue mudar. E estou vendo o mesmo cenário. É muito difícil olhar para isso. Mas, enfim, isso é coisa de gente. Não me importa a crítica negativa de autor e de um monte de gente que a gente está conhecendo hoje, a parte difícil está sendo perder a oportunidade de esses meninos (estudantes) estarem aqui, meninos de Ceilândia, Sol Nascente. Chamar a comunidade é o que a gente ainda tem pra fazer.

Por que acha que os recursos prometidos tanto
pelo setor 
público quanto privado foram retirados? 
Os parceiros privados abandonaram o projeto?
Não é que saíram, é que as empresas também estão passando por um processo de impacto econômico perverso. Por mais que se quisesse fazer uma composição com várias empresas adotando o pacote social, a gente percebeu que se tornou, dentro da burocracia da empresa, algo que requer mais determinação e tempo para se criar isso politicamente. Então essas iniciativas que começaram foram perdendo sua força e sua capacidade de mobilização. Chegou um momento em que uma parte da estrutura garantida pelo ministério foi construída e a outra parte não se confirmou. Aí, ficou uma questão capenga, não deu para fazer o acabamento e o que já estava montado, não tinha o que fazer.

E o projeto educativo, o que foi mantido?
Trabalhamos bastante para ver se a gente conseguia achar o ponto de garantir essas demandas que são de educação, só que, de ontem pra hoje (domingo para segunda), a gente percebeu que o esforço é coletivo, é nosso. Agora, não posso vender minha casa para trazer ônibus para uma criança ter o direito cultural dela resgatado.  Tem dinheiro pessoal nosso que foi pago para botar iluminação. Remuneração, a gente abriu mão. Nosso olhar é para ver se, até domingo, a gente consegue fechar isso com dignidade. 
 
 

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