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Correio Braziliense

Luiz Ruffato lança novo romance no Sebinho

'O verão tardio' fala sobre um Brasil doente


postado em 13/06/2019 06:30 / atualizado em 12/06/2019 18:05

Luiz Ruffato: %u201Cquando não conhecemos nosso passado, nos tornamos neuróticos%u201D(foto: TADEU VILANI)
Luiz Ruffato: %u201Cquando não conhecemos nosso passado, nos tornamos neuróticos%u201D (foto: TADEU VILANI)

Em O verão tardio, um sujeito volta à cidade natal para tentar reencontrar o passado, mas tudo que encontra é um presente sombrio. Solitário, Oséias empreende a viagem de ônibus até Cataguases na esperança de rever os irmãos, mas quando os encontra, se depara com uma situação de isolamento tal em que a comunicação se torna impossível. O novo romance que Luiz Ruffato lança nesta quinta (13/06), no Sebinho, começou a ser escrito em 2016, mas parece estar perfeitamente adequado ao Brasil de 2018 e 2019.

 

A busca pelas origens é um tema recorrente na obra de Ruffato e perpassa vários de seus romances. O passado, no entanto, nem sempre é acessível e, na maioria das vezes, se mostra uma fantasia dos personagens. “A grande questão que se coloca para mim é a de vivermos um não lugar e não conhecermos nosso passado. E quando não conhecemos nosso passado, nos tornamos neuróticos. A gente tende a dar respostas iguais para problemas diferentes”, explica. No caso de Oséias, a volta está condicionada a um passado que ele fantasia, mas que nunca existiu. O personagem, cuja irmã se matou, se culpa, por exemplo, de não ter cometido suicídio também. 

 

Essa busca, o autor ensina, é como na vida, especialmente quando se tem em mente o Brasil contemporâneo. Para Ruffato, a partir do momento em que uma sociedade decide fazer revisionismo histórico, ela anula o passado. “Quando você nega o que passou ou tenta encontrar um passado idealizado, na verdade, você não está enfrentando o passado verdadeiro. E, quando você não enfrenta o passado verdadeiro, não consegue ter presente e muito menos futuro. E não tem nada de nostalgia nisso, porque você tem nostalgia de coisa boa, não de coisas ruins”, explica o autor. 

 

Há sempre uma conexão entre a realidade brasileira e os romances de Ruffato, embora isso não seja uma obrigação e muito menos uma obviedade. O verão tardio começou a tomar forma antes das eleições, e o texto ficou pronto em setembro de 2018. Embora não discuta explicitamente o momento nacional, acaba por fazê-lo de maneira indireta. O autor diz que se atém a um compromisso de escrever ou refletir sobre o real, o concreto e o contemporâneo, mas nem sempre isso aparece de forma óbvia. 

 

Em O verão tardio, há toda uma combinação de situações nas quais o Brasil é, também, um personagem. A violência urbana, o crescimento das igrejas evangélicas e a incomunicabilidade na qual a família de Oséias está mergulhada remetem a cenas e experiências comuns na vida dos brasileiros. “O que ele encontra na cidade é o presente do Brasil”, avisa Ruffato. “Ele vai visitar os irmãos e eles não conversam entre si, não há diálogo. De alguma maneira, é como estamos no Brasil, não há diálogo e tem essa violência. De alguma maneira, ele está num beco sem saída, que é o que estamos vivendo hoje no Brasil.” É um país mais próximo da morte, do caos, da incomunicabilidade aquele experimentado por Oséias. 

 

O verão tardio

De Luiz Ruffato. Companhia das Letras, 232 páginas. R$ 49,90

Lançamento nesta quinta, às 18h30, no Sebinho (CLN 406) 

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