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Correio Braziliense

'Legião Urbana é um tapa na cara de nossa geração', diz Valter Hugo Mãe

Em entrevista ao Correio, Valter Hugo Mãe, um dos maiores ficcionistas da língua portuguesa na atualidade, fala sobre a paixão pela Legião Urbana, a gentileza, o amor e a resistência à desumanização


postado em 16/06/2019 06:05

(foto: Ana Pereira/Divulgação)
(foto: Ana Pereira/Divulgação)

Valter Hugo Mãe talvez seja o mais importante escritor de língua portuguesa da atualidade. Ele é animado por um sentimento de profundo humanismo ao abordar as situações mais dramáticas de nosso tempo nas ficções Desumanização, Apocalipse dos trabalhadores, Homens imprudentemente poéticos ou O paraíso são os outros. Neste último, por exemplo, ele polemiza com a célebre frase do filósofo francês Jean-Paul Sartre: “O inferno são os outros”.

Em Desumanização, Valter já confrontava Sartre. Lá, a personagem de outra menina diz: “O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti”.

Valter veio ao Brasil para uma maratona de palestras, debates e homenagens. A principal delas é a participação na Fliaraxá. Ele aproveita para lançar três livros, pela Coleção Azul, da editora Globo: O nosso reino, romance de estreia; Contos de cães e maus lobos, e As mais belas coisas do mundo.

Ele sempre diz as palavras essenciais. Valter tem uma conexão inesperada com Brasília: ele é fã da Legião Urbana e se comove profundamente quando ouve a canção Tempo Perdido: “Legião Urbana, para mim, é uma acusação”, diz Valter em entrevista ao Correio, por e-mail. “Um tapa na cara de nossa geração que, como poucas, permitiu que o mundo piorasse nos valores, nos preconceitos. Sim, comove demasiado”.

(foto: Editora Globo/Reprodução)
(foto: Editora Globo/Reprodução)
E, nesta entrevista, ele fala de Legião Urbana, de poesia, de humanismo, da polêmica com Sartre, do poder da leitura, da gentileza e da boa fé como resistência humana.


Entrevista Valter Hugo Mãe


Você já mencionou a importância que teve a Legião Urbana em sua vida. Mas peço a gentileza de contar essa linda história para os brasilienses. É verdade que você se comove sempre que escuta Tempo perdido? O que te toca na música e na poesia da Legião?

Na verdade, julgo que me toca a evidência de estar perto dos 48 anos e não ter conseguido salvar o mundo como acreditei ser possível quando tinha 18. Essa canção significa muito tempo passado, muita esperança repensada, a covardia e a absoluta normalidade. Alguma coisa me obrigou a ser normal. Eu preferia ter seguido acreditando num mundo de conquista terna, onde as pessoas mudariam de conduta à medida do conhecimento, da aprendizagem. Mas nós, as pessoas de quase 48 anos, já sabemos que isso não acontece. As pessoas raramente mudam de conduta depois de conhecerem como fazer melhor. E as pessoas raramente querem saber fazer melhor. Envelhecemos como quem exige o direito de não saber mais nada. Legião Urbana, para mim, é uma acusação. Um tapa na cara de nossa geração que, como poucas, permitiu que o mundo piorasse nos valores, nos preconceitos. Sim, comove demasiado. É uma bela canção acerca de termos entregue o ouro a quem conseguiu nos convencer que era prova de amizade.


Você começou escrevendo poesia e, quando passou para a ficção, impregnou as narrativas de força poética. Qual a relevância da poesia em sua formação de escritor e o poder que ela ainda tem de tocar as pessoas?

A poesia é um sentimento. Não significa menos do que isso. Quem não se abeira dela não sente por completo, como se nunca experimentasse a alegria ou a tristeza, a ansiedade ou a frustração. Serve para que nos completemos no conhecimento de nós mesmos e do mundo. É instrumento de revelação. Sem o poder da palavra poética estamos algo diminutos na construção de nosso pensamento, de nossa identidade. Sigo convencido de que é na poesia que reside a maior força de que sou capaz. É meu tremendismo.

Em O paraíso são os outros, você polemiza com o filósofo Jean-Paul Sartre, autor da célebre frase: “O inferno são os outros”. Você acha que, mesmo em um mundo tão movido por uma agenda do ódio, o paraíso ainda são os outros?

Penso, sim. Somos justificados pela existência dos outros. Sem eles, não ascenderíamos acima da condição de bicho. É a alteridade que burila a humanidade. A relação e a expectativa da relação vão dirimindo argumentos para que, como seria bom, nos depuremos. O problema está em que melhorar o mundo inteiro é um ofício praticamente impossível, mas piorar o mundo inteiro é fácil, está ao alcance de qualquer imbecil.


Você acredita que os livros ainda têm lugar no mundo mediatizado pelas relações virtuais? Em que medida os livros escolhem os leitores e entregam mais a uns do que a outros, como afirma no conto O rapaz que habitava livros?

Vão ter sempre lugar. Não acredito que seja um conhecimento de que a humanidade possa abdicar. Claro que enfrentamos um tempo de criação de gigantes rebanhos, padronizações agudas que desvirtuam as pessoas de cidadania e as reduz ao consumo. No entanto, sempre haverá resiliência. Há muita gente que se recusa a compactuar com a fácil manipulação das massas e, na verdade, não considero que as massas sejam estúpidas. Podem ser lentas e tender para a covardia, mas no seu íntimo sabem perfeitamente o que é certo e o que é errado. As elites precisam ser melhores, ter outro brio, e servir de diapasão para inspirar a movimentação benigna das comunidades em geral.


As suas narrativas abordam, muitas vezes, situações dramáticas do nosso tempo, mas sempre com um olhar humanista. Você acredita que a literatura ainda é capaz ser um espaço de resistência do humanismo em um mundo cada vez mais mecanizado e pós-humano?

Eu não poderia escrever de outro modo, minhas convicções são quem sou. Uso os livros para aprender. Descubro que escrevo para ser capaz de decidir melhor. É exatamente a questão da cidadania de que falava acima. Escrevo livros sobre o que me agride e preciso de entender. Talvez seja um cidadão mais consciente depois de os escrever. Isso significa que, a ser chamado à opinião ou ao voto, que é um pouco a mesma coisa, estarei mais bem preparado para decidir em que acredito, o que, de boa fé, desejo para a sociedade. Interessa-me profundamente a questão da boa fé. Manter a boa fé, por maior agressão ou desilusão. Ela é a resiliência mais profunda e mais bela.

Machado de Assis é o homenageado do festival literário do qual você participará em Minas Gerais. Qual o seu olhar sobre Machado e como viu a polêmica entre Machado e Eça de Queiroz?

Polêmica nenhuma diminui Machado ou Eça, apenas aumenta. São dois escritores estruturais. Nossas literaturas são instruídas pelo que descobriram, pelo que entenderam. Machado é brilhante na criação de narradores que não merecem confiança. São ardilosos, espíritos paradoxais e com grande habilidade retórica, sempre denunciando falhas no senso comum. Ele joga com nossa percepção. Inverte o jogo constantemente, mostra como, exatamente iguais às pessoas, as personagens são também inclassificáveis, oblíquas constantemente, para usar um termo seu.

Nelson Rodrigues dizia que os humanos estão se maquinizando e as máquinas estão se humanizando. O amor é a única força capaz de resistir à maquinização humana em tempos de globalização e de desumanização?

O afeto e a paz foram sempre os sinais de humanidade. Através deles aferimos a qualidade de cada pessoa. Foi assim, é assim, vai ser assim. O amor para com as pessoas próximas, aquelas que simbolizam toda a gente nas nossas vidas. A paz com as outras pessoas. As que nem sabemos que existem, que são estatísticas. Seremos humanos se lhes oferecermos nossa cordialidade e promessa de tempos gentis. O tempo gentil, a paz.


Você já declarou que o Brasil é o melhor que Portugal criou. O que lhe interessa e lhe sensibiliza no Brasil?

Preciso de esclarecer que essa ideia é do filósofo português, que viveu longamente no Brasil, Agostinho da Silva. Cresci impressionado com a cultura brasileira, fascinado com sua música e literatura, com sua televisão, cinema e pintura. Não tive escolha. O Brasil estava na arte, entre a arte de que mais gostei sempre. Através desse fascínio eu cheguei ao país, visitando pelas ideias e, depois, concretamente, encontrando um povo de festa fácil, abraço abundante, num esforço trememdo para criar redenção, não sucumbir à pobreza ou à violência. Admiro muito que num desafio tão grande, com tanta ditadura, inflação, corrupção, homicídio, ainda estejamos no país do Carnaval, essa alegria intensa, incontrolável, que arrebata o mundo inteiro. Eu, que sou tímido, não tenho jeito para Carnaval, mas admiro como sendo a festa mais avassaladora do mundo inteiro. Nada se lhe compara em esforço e beleza, em profunda liberdade e catarse. Abençoado Heitor Villa-Lobos que soube classificar o Carnaval para esse instante de irresistível comunhão entre todos, de todas as classes, de todas as sensibilidades. Esse é o Brasil que ausculto, aquele que resiste de sorriso franco, pé de dança, como melhor arma contra toda a opressão, contra toda a tristeza.

» Centelhas de Valter Hugo


“Os livros escolhem leitores e entregam mais a uns que a outros. Têm uma preferência. São inteligentes e reconhecem a inteligência”, 
As coisas mais belas do mundo

“O amor é para heróis”, 
A máquina de fazer espanhóis

 “Toda gente me diz: o amor é um problema. Tudo bem. Posso dizer de outro modo: o amor é um problema, mas a pessoa amada precisa ser uma solução”, 
O paraíso são os outros

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