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Correio Braziliense

Religiões afro-brasileiras influenciam compositores e grupos musicais

As tradições africanas permeiam a música popular brasileira


postado em 17/06/2019 07:54 / atualizado em 17/06/2019 10:10

Mateus Aleluia, do Trio Tincoãs: vivência cotidiana dos elementos da cultura brasileira(foto: Vinicius Xavier/Divulgação)
Mateus Aleluia, do Trio Tincoãs: vivência cotidiana dos elementos da cultura brasileira (foto: Vinicius Xavier/Divulgação)

A presença das religiões afro-brasileiras na cultura popular tupiniquim é massiva. Das influências diretas às menos evidentes, os princípios religiosos herdados do continente ancestral permeiam profundamente a identidade brasileira. Os orixás, comuns à umbanda e ao candomblé, estão no lirismo do samba de Dorival Caymmi e do rock do Metá Metá, como norteadores de uma poesia devota.

As religiões afro-brasileiras assimilaram tradições africanas, trazidas pelos escravos, e a cultura de nativos e dos europeus. Influenciaram a obra de pilares da música popular, como Baden Powell, Vinicius de Moraes, Clara Nunes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Tincoãs, Ilê Ayê, Daniela Mercury e Carlinhos Brown. E nomes menos lembrados, como os de José Prates, Tia Ciata, Josué de Castro e Elsie Houston.

Um dos mais importantes frutos dos cultos dessa matriz é o samba. Apesar de ser muito associado ao Rio de Janeiro, foi na Bahia que surgiram os primeiros sambas de roda, aproximando expressões negras de grupos como o Bantu, do sul africano, e o Iorubá,  da África Ocidental. Instrumentos característicos como o tamborim estão diretamente associados aos rituais do Candomblé, em que marca a percussão.

“Os tambores têm um papel invocatório. Conversamos com orixás pelo tambor. Conforme o orixá dança, a gente toca o tambor. É uma linguagem, uma conversa, uma troca de energia. Procuramos respeitar, quando saímos do terreiro para ir ao palco, nos arranjos que compomos e fazer uma reverência aos orixás. Além de ter dança, tem a energia do toque do tambor”, diz o violonista Amílcar Paré, integrante do grupo brasiliense Filhos de Dona Maria, frequentador do terreiro Ilê Axé T’ojú Labá, no Jardim ABC, que cita entre as inspirações os músicos Nelson Rufino, Wilson Moreira, Fabiana Cozza, da nova geração do samba, Clementina de Jesus, João da Baiana, Candeia, Tincoãs e Clara Nunes.

“Um dos instrumentos mais tradicionais é ngong, feito de ferro, que aparecia nos cultos de terreiro. Sempre é um instrumento de ferro que inicia a parte musical. É uma espécie de norteador para os outros instrumentos. Isso é visível no samba. É claramente um instrumento africano que permanece até hoje”, explica o pesquisador em música da Universidade de São Paulo (USP) Alberto Ikeda.

Afro-samba

O samba influenciou diretamente no surgimento da bossa nova de João Gilberto e Tom Jobim. Foi nas mãos de Baden Powell e de Vinicius de Moraes, com o disco Afro-sambas (1966), que o gênero vestiu a identidade negra. “A bossa-nova falava de uma vida pequeno burguesa do Rio de Janeiro. O afro-samba muda a temática, vai mais para um universo mais social, da cultura negra. Vinicius e Baden inauguraram essa vertente da bossa-nova”, observa o especialista.

Gilberto Gil, um dos expoentes da Tropicália, foi um dos compositores que mais aprofundou temas relacionados ao candomblé na Música Popular Brasileira. No movimento antropofágico, o candomblé se misturou de vez com cultura pop. Como na poesia concretista musicada Batmacumba, que traz a figura pop do Batman; “Iê iê”, dos versos, remetem tanto ao rock n’ roll da jovem guarda quanto à saudação a Oxun; o verso“batmacumba obá” cita o orixá. “É uma proposta de mistura muito interessante, de aproximação de quase tudo que existia culturalmente naquela época”, resume Ikeda.

Deixa a gira girar

Mateus Aleluia, do célebre trio Tincoãs, trouxe muitas influências das religiões afro para sua música. “O candomblé, na minha cidade, você frequente ou não, está no nosso convívio. Nós dos Tincoãs fazíamos o que naturalmente somos. E admitimos isso. Quebrar as amarras do que somos de forma espontânea”, diz em entrevista ao Correio o músico nascido em Cachoeira, Bahia.

Entre os grandes sucessos do grupo baiano setentista está Deixa a gira girar e Cordeiro de Nanã. “De forma direta, insistente ou contornada, a gente fala principalmente sobre a natureza e as entidades. Deixa a Gira girar é a mistura de tudo. É uma música de candomblé, ao mesmo tempo é uma música que nós bebemos na umbanda. Mistura o viver tanto da Angola quanto da Nigéria. ‘Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã’. Nossa canção (dos Tincoãs) fala sobre deixar as coisas acontecerem. A natureza tem leis. Nós homens que temos moral e entramos designando coisas”, reflete. A canção ganhou uma versão mais recente pela big band paulistana Bixiga 70, com a qual Aleluia já se apresentou na Holanda.

Na ala dos grupos contemporâneos, Metá Metá, com Kiko Dinucci e Juçara Marçal, é um dos grandes destaques. A mistura de ritmos tradicionais com o rock e o jazz que o grupo faz nas melodias é acompanhada por letras que fazem referências diretas aos orixás. Outro que impressiona com a mistura de ritmos de tradições latinas e africanas é o grupo de música instrumental Iconili, que no último disco, Quintais, deixou mais evidente sua veia afro-brasileira. A banda Terreiro de Jesus mescla o candomblé ao jazz nas canções que abre mão de verbalizar o culto.

“O que acontece no terreiro é o sagrado. O que acontece fora são manifestações artísticas, que a gente usa como expressão de ideais. É muito válido. Não é um desrespeito às manifestações culturais. Não necessariamente os devotos são sambistas ou do afoxé, que são mais tradicionais”, opina Amílcar Paré, que junto com o grupo Filhos de Dona Maria gravou canções como Samba pra Ogun e Curimbeiro.

Para o especialista Alberto Ikeda, apesar de disseminadas na MPB, religiões afro-brasileiras seguem sendo alvo de intolerância. “Nesse processo histórico, há um lado perverso de uma valorização negra, ou de um reconhecimento da cultura negra muito aparente. De valorizar o produto, sem valorizar o produtor, o negro”, lamenta.

*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco.

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