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Correio Braziliense

Ritmos típicos da região Norte formatam pesquisas de livro do Senhor F

O jornalista Fernando Rosa, mais conhecido como Senhor F, lança o livro 'Ondas tropicais - A invenção da lambada e o beiradão na Amazônia moderna'


postado em 18/06/2019 07:03 / atualizado em 19/06/2019 17:51

Fernando Rosa: ele quis fazer quase um manual que ajudasse o ouvinte a se situar em relação à música do Norte (foto: Rodrigo Dalcin/ Divulgação)
Fernando Rosa: ele quis fazer quase um manual que ajudasse o ouvinte a se situar em relação à música do Norte (foto: Rodrigo Dalcin/ Divulgação)
 
 
Ondas tropicais – A invenção da lambada e do beiradão na Amazônia moderna é o novo livro do jornalista Fernando Rosa, também conhecido como Senhor F, nome da revista eletrônica criada por ele em 1998 para divulgar artistas independentes e obscuridades musicais 
brasileiras, latino e ibero-americanas, e que se tornou também um selo e uma produtora.
 
O livro lança luz sobre a origem da lambada e do beiradão, dois gêneros musicais Amazônia brasileira muito conhecidos na região, mas 
sobre os quais se tem pouca informação no resto do país. “É quase um manual, pra situar o cidadão no que é a música do Norte, focado
em dois fenômenos musicais bastante localizados”, explica o autor. 
 
Já na apresentação, o autor deixa claras as intenções político-culturais da obra: “Trata-se de uma defesa da importância da música da região amazônica, que não é ainda incorporada no caldeirão musical nacional”, defende. O livro contém ainda uma contextualização e apresentação dos principais representantes e inventores dos gêneros, uma coleção de capas, resenhas de discos e uma discografia com 200 títulos.
 
Fernando Rosa tem todos. Em vinil. O último item foi adquirido recentemente. “Eu já tinha um disco do Alípio Martins, mas eu queria o outro, que continha a música Piranha. Eu precisava do disco e não achava no mercado livre nem nada. Na véspera de fechar o livro, fui na Feira de Vinil do Conic e achei. Paguei 200 pilas!”, comemora o colecionador, que demorou seis anos para encontrar o bolachão. No caso do disco Os Mocambos apresentam Marabaixo, de 1973, teve ainda mais sorte. Encontrou o álbum em uma loja do Conic e pagou apenas R$ 10 pela raridade. “É o único disco que conheço com o gênero marabaixo, que é do Amapá”.
 
Ondas físicas e virtuais

Os discos são a base da pesquisa e o que dá sentido ao livro. Por volta de 2003/2004, Rosa já se ligava na guitarrada de Mestre Vieira, criador do estilo, quando se deu conta de que o artista havia gravado nada menos que 12 discos entre 1978 e 1990, e pensou: “Pô, tem que haver uma cena por trás disso, um processo de criação, um processo industrial”. A partir disso, passou a garimpar em sebos, viagens e na internet. 
 
Há cerca de quatro anos, depois de publicar um punhado de resenhas e matérias sobre o assunto no Senhor F, percebeu que tinha material 
para um livro e começou a pesquisar de forma mais sistemática. “A base, o que me deu segurança e referência, foram os discos. A audição 
te permite ter uma ideia de sonoridade, qualidade, discernir elementos, etc.”, conta.
 
Para completar o trabalho, recorreu a pesquisas acadêmicas, documentários e a um método peculiar: “Eu sou meio rato de internet. O Youtube tem muito disco, tudo tá no Youtube, e os comentários dão muita pista, tipo: ‘meu pai ouvia esse disco lá na cidadezinha tal no 
interior de não sei onde’. Isso tudo vai te dando uma ideia de contexto, importância, profundidade e tal. Tem que amarrar isso tudo. É uma 
colcha de retalhos”, explica.
 
Guitarras e saxofones

Segundo Fernando Rosa, o ritmo que se tornou febre no Brasil e na Europa no final dos anos 1980 e teve como expressão máxima a música Chorando se foi, gravada pelo grupo Kaoma, apesar do nome, nada tem a ver com a lambada original. “Aquilo é um huayño boliviano que teve uma versão de cúmbia no Peru, que teve uma versão em português e os franceses transformaram em sucesso na Europa. É uma apropriação, do ponto de vista da indústria mundial, de um processo regional que foi esquecido completamente”, esclarece.
 
A lambada que Fernando pesquisou é um gênero musical inventado e consolidado no Pará entre o final dos anos de 1970 e os anos de 1980, e cujas pedras fundamentais são a primeira lambada gravada por Pinduca, em 1976, e o disco Lambadas das quebradas, de Mestre Vieira e seu conjunto. É um ritmo popular dançante com predominância da guitarra, influenciado por ritmos regionais, latinos e caribenhos como mambo, salsa, e merengue, que inundavam a região por meio canais como a Fábrica de Discos Rozenblit, de Recife, e a Rádio Havana, de Cuba. Fernando destaca ainda a importância da presença de uma gravadora. 
 
Já o beiradão é um parente da lambada que se sobressaiu mais no Amazonas, em que predomina o saxofone em lugar da guitarra. “O Pará é mais eletrificado, tem cidades maiores, de onde vieram os artistas principais (da lambada). É a única região do país onde a guitarra é um instrumento popular”, ressalta. “Já o beiradão tem como base instrumental o saxofone, e se constituiu nos beiradões, comunidades de beira de rio. Tinha que ter instrumentos além da percussão que desse pra carregar na mão. Esse instrumento é o saxofone, que é alto, melódico, e tem volume pra animar uma festa de 100 pessoas”, diz Rosa. 
 
Senhor F Livros
 
Ondas tropicais é a primeira publicação da Senhor F Livros, selo criado especialmente para escoar a produção inédita de Fernando Rosa, 
mas que pode vir a publicar outros autores. “Eu tenho muita coisa parada. Tenho entrevistas inéditas com uma porrada de artistas importantes, como Lafayette, A Bolha, Rogério Duprat. Eu posso juntar e fazer tiragem pequena com livros de 100 páginas, pois fica mais barato”, antecipa o autor, que revela também a vontade de publicar um segundo volume sobre a lambada o beiradão, desta vez com entrevistas com os principais artistas, como o próprio Pinduca.
 
Ainda pensando em viabilizar a publicação, Fernando resolveu experimentar um novo método, publicando o livro sob demanda. Descobriu uma editora em Campinas que publica entre 10 e 50 exemplares de cada vez. Fernando imprimiu uma tiragem experimental de 20 exemplares, gostou do resultado e já imprimiu mais três fornadas. “Todo mundo devia fazer isso. É uma forma de viabilizar a publicação”, recomenda.
 
 
*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco. 
 
 

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