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Correio Braziliense

Em tramas reais ou de ficção, os escritores conquistam as telonas

Cinema aposta na atração exercida por aqueles que manejam palavras e narrativas


postado em 19/06/2019 07:00

(foto: MPC Filmes/Divulgação)
(foto: MPC Filmes/Divulgação)


As frentes são as mais diversificadas: às vezes, é um filme que vem protagonizado por um escritor envolvido na construção de uma narrativa de ficção ou mesmo, por vezes, quem desponta numa trama é uma personalidade histórica saída do real mundo literário. Seja por qual caminho, o certo é que o cinema vem apostando numa crescente na atração exercida por aqueles que manejam palavras e narrativas: na recente safra de fitas que chegaram às salas de projeção, é a hora dos escritores brilharem.

De Tolkien (que explora a vida do criador de obras como O senhor dos aneis) a Kardec (detido na vida do homem que codificou o espiritismo) — em longas recentemente exibidos na capital, passando por enredos ainda em cartaz — caso de Memórias da dor e Beatriz (sobre um escritor enciumado pelo progresso da esposa) — não falta o retrato de quem domine a escrita.

Cheios de crises ou de complicações na vida, escritores como Marguerite Duras (mostrada em Memórias da dor) — no caso dela, em parte, descrita tendo por base o texto semiautobiográfico A dor, sobre os horrores da Segunda Guerra — dão a garantia de densos dramas. Confira uma seleção de filmes recentes ou com futura exibição que ressaltam tramas com escritores:


Dos livros para a ficção de cinema

Os dois filhos de Joseph
Diretor estreante, Félix Moati conduz a comédia dramática prevista para estrear em 8 de agosto. Estrela em ascensão na sétima arte, Vincent Lacoste interpreta Joaquim, irmão do adolescente protagonista Ivan (Mathieu Capella). Para Ivan, não apenas o irmão, mas o pai, Joseph (Benoît Poelvoorde, mesmo ator de Um banho de vida), servem como modelo de formação, mas eis que, passada crise familiar, Joseph larga uma notícia bombástica para a prole: deixou o respeitado posto de médico, para se tornar um escritor — e, pior, de limitadíssimo talento.

Amor à segunda vista
Incorporado à programação da 10ª edição do Festival Varilux, o longa de Hugo Gélin (do sucesso Uma família de dois) está concentrado nos desdobramentos da criatividade de um narrador de aventuras futuristas que entra em crise quando vê que a mulher, Olivia, um amor arrebatador dos tempos de bancos escolares, não o reconhece. Escritor de renome (na ficção), Raphaël Ramisse (interpretado por François Civil) terá que readequar a narrativa de ficção que sempre dominou com o cotidiano alterado (em que desapareceu, aos olhos de Olivia), na solução do enorme problema existencial.

O homem que matou Dom Quixote
Locações na Espanha e em Portugal, intermináveis problemas na produção (arrastada por décadas) e uma visão globalizada para parte da obra máxima do século 17 de Miguel de Cervantes, que incorpora até problemáticas de muçulmanos: com todos esses elementos, o quase oitentão Terry Gilliam abraça fantasia e grandiloquência em O homem que matou Dom Quixote. No filme, Toby é um publicitário que projeta uma produção na qual arregimenta um ator que ele conheceu no passado, mas que, atualmente, está entregue ao delírio de se ver como Dom Quixote, de verdade.

Dor e glória
“Tão bonito, e analfabeto...!”, pontua a maternal personagem de Penélope Cruz, no mais recente filme de Pedro Almodóvar, ao se ver inconformada com a condição do pedreiro Eduardo. O filme está centrado num artista, que tem a grandeza de compartilhar conhecimento, alfabetizando Eduardo. Como reforça um dos personagens: “Escrever é desenhar com letras”. A criação de uma peça também dá corpo à temática do filme. Almodóvar assumiu autores da vida real que lhe serviram de inspiração, para assentar uma narrativa mais depressiva: Fernando Pessoa e Torborg Nedreaas.

Cyrano mon amour 
Recentemente reexibido nas salas, o longa Cyrano trata dos reflexos da criação literária e do incremento de autoestima. Em cena, Cyrano é um homem inseguro, por causa do nariz avantajado. Apaixonado por Roxanne, ele ajuda o amigo Christian a realizar a conquista, assumindo a produção epistolar que a arrebata. Numa apropriação nada casual, filme dirigido por Alexis Michalik, batizado Cyrano mon amour, mostra os bastidores da obra Cyrano de Bérgerac (de 1897), criada por Edmond Rostand (autor morto em 1918).

Filhas do sol
No filme de Eva Husson, a jornalista Mathilde está baseada na fusão das figuras fundamentais aos relatos verídicos de guerra: Martha Gellhorn, morta em 1998, que tomou parte da Guerra Civil Espanhola e de etapas da Segunda Guerra Mundial e Marie Colvin, morta na Síria em 2012. Colvin, no cinema, já foi retratada em Uma guerra pessoal (2018). Correspondente de guerra, ela dispensou atenção ao retrato de ditadores como o líder militar líbio Muammar al-Gadaffi. Com olho extirpado (por granada), narrou a  crise humanitária decorrente da guerra civil do Sri Lanka. Zimbábue, Chechênia, Timor-Leste e Iraque foram outros campos para os relatos.

O mistério de Henry Pick
Com estreia marcada para 11 de julho, este filme de Rémi Bezançon assume o tom cômico, ao tratar da junção de uma editora precipitada e de um manuscrito de origem duvidosa. Fabrice Luchini (ator de Dentro da casa, e dono de currículo como 11 indicações ao importante prêmio César) é um dos astros do filme. Na Bretanha, um fabricante de pizza é dado, depois de morto, como um grande autor, nunca reconhecido. Ainda que a viúva desautorize a projeção dele como expoente literário, há quem o compre como talento sufocado. Um crítico literário entra em cena para um tira-teima.

Poderia me perdoar?
Disponível em streaming, o longa de Marielle Heller, estrelado pelos candidatos ao Oscar Melissa McCarthy e Richard E. Grant, centra fogo na adaptação da vida da falsificadora (saída da vida real) Leonore Carol Lee Israel, morta há cinco anos. Roubos de materiais escritos e a venda de material adulterado, atribuído a autores como Ernest Hemingway e Dorothy Parker, estavam na rota da alcoólatra. Ela redigiu a autobiografia, em 2008, na qual contava de associações com o amigo Jack Hock, para o alcance ilícito de lucros que batiam na casa dos US$ 2000.

Dias vazios 
Foi o livro de André de Leones Hoje está um dia morto que trouxe alguma visibilidade, via literatura, para o município de Silvânia (Goiás). O material deu base para a estreia do diretor Robney Bruno Almeida em longas. Na trama, Daniel (Arthur Ávila) passa escrevendo sobre o paradeiro que o intriga: o que teria acontecido com os jovens Jean e Fabiana. O casal desapareceu de conservadora comunidade.

Os papéis de Aspern 
Autor de Tarde demais e Os inocentes, Henry James deu mote para o longa de estreia do diretor francês Julien Landais. Ator de The Tudors, Jonathan Rhys Meyers estrela o longa na pele de Mort Vint, forasteiro que chega a Veneza obcecado com a produção epistolar do poeta Jeffrey Aspern. Duas mulheres se mostram guardiãs de alguns segredos de Aspern. 
 
 

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