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Correio Braziliense

Fabiana Cozza faz reverência à Dona Ivone Lara em sétimo disco

'Canto da noite na boca do vento' privilegia a voz da cantora e a poesia da compositora


postado em 20/06/2019 06:00

Fabiana Cozza, sobre Dona Ivone Lara: 'Talvez ela tenha sido uma das maiores portadoras do discurso do amor em todas as suas camadas'(foto: Marcos Hermes/Divulgação)
Fabiana Cozza, sobre Dona Ivone Lara: 'Talvez ela tenha sido uma das maiores portadoras do discurso do amor em todas as suas camadas' (foto: Marcos Hermes/Divulgação)

É a voz de Fabiana Cozza que faz tudo no álbum Canto da noite na boca do vento. E isso é anunciado logo na primeira faixa, Meu samba é luz, é céu, é mar, cantada à capela e acompanhada apenas de um singelo e bastante discreto reco de madeira. Funciona como uma introdução na qual a cantora anuncia a que veio com o sétimo álbum inteiramente dedicado a Dona Ivone Lara, batizada Yvonne Lara. Fabiana brincou de desconstrução nessa leitura de algumas das canções menos conhecidas da compositora. Fez isso com uma reverência que trouxe ares de adoração para o disco, mas também de virtuosismo.

A voz da cantora, de fato, precisa de pouquíssima interferência instrumental tamanho o seu alcance e ela não disfarça esse detalhe nas 14 faixas do disco. “Decidi, pela minha relação afetiva com Dona Yvonne, que esse seria o abraço e a forma muito pessoal que eu teria de interpretar a obra dela, dando uma assinatura extremamente singular dentro de como eu, hoje, me entendo enquanto intérprete”, avisa. Canto da noite na boca do vento surgiu de um convite da gravadora Biscoito Fino para fazer um disco inteiramente dedicado a uma das pioneiras do samba no Brasil.

Fabiana queria evidenciar a qualidade da música da compositora, mas também a poesia encontrada nas parcerias mais longevas e importantes. Sambas escritos com Délcio Carvalho, como Canto do meu viver e Liberdade, além de Meu samba é luz, é céu, é mar, entraram para o repertório ao lado de parcerias com Jorge Aragão (Enredo do meu samba), com Nei Lopes (Outra vez) e com Arlindo Cruz (Adeus timidez). Um dueto com Maria Bethânia em Alguém me avisou e com Péricles em Adeus timidez completam as parcerias.

Ao montar o repertório, Fabiana queria incluir canções menos conhecidas, mas com o cuidado de não afastar o ouvinte do universo da compositora: “Não queria que fosse um disco hermético, porque ela era uma figura popular, acessível, então queria que o disco fosse acessível, mas sem deixar de acender o farol em músicas que estavam um pouco esquecidas. Estamos falando de uma compositora amorosa, afetiva. Talvez ela tenha sido uma das maiores portadoras do discurso do amor em todas as suas camadas”.

Fabiana queria, também, dar uma resposta à polêmica de 2018, quando desistiu de interpretar Dona Yvonne Lara em um musical depois de ser apontada, nas redes sociais, como branca demais para o papel. Foi um momento difícil no qual a cantora precisou repensar a própria identidade. O convite para o disco veio como um sopro depois de um período de reclusão e reflexão. “Aceitei porque merecia isso, depois do período em que fiquei me sentindo fora do meu lugar de existência. O disco vem, de uma forma muito delicada, como a minha contribuição, meu último abraço na Dona Yvonne. O abraço que, em cena, eu não dei, entrei em estúdio para dar”, avisa a cantora, que vem a Brasília em julho para lançar o disco no Clube do Choro.

Em Canto da noite na boca do vento, prevalece a voz de Fabiana Cozza. É um disco minimalista, os instrumentos estão a serviço da cantora e da maestria das músicas. É uma desconstrução no sentido de que é uma nova forma de ouvir Dona Yvonne Lara, mas não há nada faltando em nenhuma das faixas. Pelo contrário, Fabiana evidencia a potência poética e musical de cada composição. Os arranjos partem da voz e a abraçam com cuidado. “A música vem dos arranjos, os contrapontos vêm para me abraçar, não sou eu que os sigo, porque, geralmente, você tem o cantor seguindo uma série de normas musicais, tem uma introdução da música, que é longa, e aquele discurso pode até perder força. Aqui, a música se impõe, mas a poesia também. E antes da poesia existe uma intenção pré-verbal que aquela canção traz”, explica a cantora. “Um caminho que persigo é o de extrair o sumo, o essencial. E a música da Dona Yvonne Lara exige uma escuta muito apurada, porque, antes da música tem a voz da Dona Yvonne e a enunciação pela voz dela vem com muitas características e predicados.”

Canto da noite na boca do vento
De Fabiana Cozza. BIscoito Fino, 14 faixas. 
R$ 34,50

>> Entrevista Fabiana Cozza


Por que um disco apenas com músicas de Dona Yvonne?
Estamos falando de uma compositora amorosa, afetiva, com parceiros amorosos e afetivos. Talvez ela tenha sido uma das maiores portadoras do discurso do amor em todas as suas camadas: amor, desamor, saudade, separação, raiva. Um crochê do que o amor é capaz de fazer e, nesse sentido, a escolha de algumas canções tem uma razão.

E como escolheu o repertório?
A escolha de repertório passa por esse lugar de canções que eu conhecia, mas que achava que mereciam ganhar outro tom de fala.

Poderia dar um exemplo?
Meu samba é luz, é céu e é mar, por exemplo, é uma canção que, no momento que estamos atravessando no país e no mundo, se faz urgente: custe o que custar não podemos abdicar do sonho e de nossa capacidade de se reinventar pelo amor, pela poesia. É uma esperança em meio a tempos tão sombrios e tristes.

Esse disco é também uma declaração de amor ao samba?
É muito difícil cantar samba sem declarar amor pelo samba. Sempre digo que entrei no samba como um incentivo. Sim, tem essa coisa de declarar o meu amor ao samba, que não é ao gênero e sim às pessoas que fazem desse jeito de viver um jeito tão essencial num momento em que as pessoas só se falam por internet e não se encontram.

É um disco muito minimalista, no qual sua voz está praticamente à frente de tudo. Por que escolheu fazer assim?
A música se impõe, mas a poesia também. E antes da poesia, existe uma intenção pré-verbal que aquela canção te traz. Isso é tema do meu mestrado, é o que estudei e é uma coisa que tenho na praxe. Maria Bethânia sempre me diz “eu tou cada vez mais econômica”. É um caminho que persigo: extrair o sumo, o essencial.

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