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Correio Braziliense

Fraquezas expostas na poesia de Alberto Bresciani

Livro de poemas tematizam o embate entre vida e morte


postado em 22/06/2019 06:30 / atualizado em 21/06/2019 17:46

Alberto Bresciani: forças e fraquezas expostas reveladoras do destino trágico de existir(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Alberto Bresciani: forças e fraquezas expostas reveladoras do destino trágico de existir (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

Somos enganados o tempo todo – ou quase. Por nossos olhos, nossa mente e nossa memória. O viver exige cuidado. Sobreviver, atenção. Ao iniciar a leitura de Fundamentos de ventilação e apneia, novo livro do poeta Alberto Bresciani, fui remetida ao protagonista criado pelo escritor húngaro Sándor Márai em seu Divórcio em Buda. Tentei afastar o sentimento, pois temia que um desses enganos terríveis se processava, desenrolando uma relação inconveniente e superficial. 
Mas ao prosseguir na leitura, a sensação foi se confirmando. Kristóf Kömives admite a nossa precisão atávica de pertencimento: “Lá onde cada indivíduo sentia pertencer a algo, a um lugar, isso era tudo”. O que Bresciani nos oferece é isso: o vislumbre, mesmo que por um breve momento, da possibilidade de termos um lugar. Ou da necessidade de pertencermos. De existirmos.
 
O livro, Fundamentos de ventilação e apneia, editado pela Patuá, reúne um pouco mais que 70 poemas divididos em duas partes nas quais somos conduzidos pelas palavras do poeta, sugados por estratégias de sobrevivência (ou não) em cada habitat. Ora nadamos com as baleias azuis, ora nos debatemos com as unhas inexistentes de uma toupeira, que cega e tristemente exilada no vidro de um laboratório, filosofa sobre maçãs... Seguimos todos, animais em busca de vida, em busca de ar, mesmo quando repelimos a areia sob o golfinho que sente a vida se esvair, pressentindo a chegada dos bárbaros num país nem tão distante.
 
Falhas geológicas e humanas ameaçam a vida, passagens aéreas e sonhos são enterrados no quintal, a dor do anoitecer recai sobre um herói cansado (ou inventado) às seis da tarde... Retemos a respiração ao encarar penas negras largadas pelo chão da casa, presas na garganta e na memória de quem ficou. Metáforas profundas são criadas e nos impactam a cada página. Alberto Bresciani nos garante os acessos de apneia mesmo que a luzes estejam acesas: sentimos a dor dos que migram, sozinhos, exilados, sem retorno, sem lugar.

Fome ancestral

Há poemas que nos revelam frutas – nossa fome ancestral – cerejas na mesa, denunciando o que foi... ou que poderia ter sido em forçados jantares, festividades escusadas e inúteis. Versos descrevem ameixas pendentes nas árvores ou pêssegos nas mãos de um homem que busca (se contenta?), simplesmente, o vento. Porque, às vezes, todo o lugar que se tem é o olhar por uma janela. 

Alberto, que se diz “poeta nas horas válidas”, prossegue e arrasta, sem cerimônia, a poesia que contempla cavalos soltos e, na descrição do som de seus cascos, reinventa a dor do não dito, de amores emperrados na garganta... os que nem chegam à boca. Nos conta de todas as vezes em que um outro é o lugar. Foi um lugar.

É um livro para os que não têm medo de se verem como paredes brancas, para os que não guardam sustos de se verem na cor do pânico, refletidos como pássaros, sem voo, sem céu... e pousados, miram felinos e répteis – perigos inexistentes. Recomendo a leitura por todos que já se viram como espectadores de atropelamentos silenciados, mas nem por isso menos sangrentos. Os que já se sentiram em rota de fuga e cansados de engodos, recusam a gravidade que ora os enterra, serão tocados pelos poemas de Bresciani reunidos à guisa de manual sobre nossa espécie, nosso chão (ou falta de), nossas trilhas e ironias.

Fraquezas expostas

Com esse livro nas mãos, senti nostalgia de um lugar que julgava somente meu. Aquela nostalgia que nos acomete no meio de uma tarde qualquer, com a mesma luz que se imaginava dentro do útero e concede forças para escavar ruínas, em busca de regeneração, quem sabe, por sorte, / a casa do pai. 

Ao mesmo tempo em que vi nossas debilidades expostas nesse Fundamentos de ventilação e apneia, senti nossa força, nosso destino de persistir. De caminhar, mesmo entre restos arqueológicos, como na figura do braquiossauro solitário se afastando em meio ao pó. No peixe-voador – agora pernas,/ sente a porta, pode e vai abrir. Nos animais que se jogam na correnteza/ Precisam saber o outro lado. 


O juiz Kömives perguntaria: “De que reserva se alimentavam essas almas?” e Alberto lhe responderia com o seu silêncio: E talvez seja esta a forma de desistir ao contrário...talvez em frente ao espelho, mirando os olhos do pai que subsistem no olhar do filho que, doído, se devora. Ou simplesmente na proteção do Salmo que garante: Ainda teremos cama no inverno.



Claudine M. D. Duarte é escritora, dramaturga e ativista na formação de leitores. Finalista do Prêmio Jabuti 2018. Seu primeiro livro, Desencontos (2018) tem o selo do Coletivo Editorial Maria Cobogó, do qual é uma das fundadoras.


FUNDAMENTOS DE VENTILAÇÃO E APNEIA
de Alberto Bresciani
Editora Patuá, 2019

144 páginas - R$ 40 

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