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Correio Braziliense

No terceiro disco, Clarice Falcão fala de temas delicados

Ela sempre gosta de avisar que se alimenta da própria vida para compor


postado em 23/06/2019 18:30 / atualizado em 23/06/2019 19:06

(foto: Pedro Pinho/Divulgação)
(foto: Pedro Pinho/Divulgação)


Há alguns anos, Clarice Falcão entrou de cabeça no mundo da música eletrônica. Nem era um universo que ela realmente conhecia, mas frequentar as festas fez a compositora perceber algumas coisas. A primeira delas foi o fato de gostar do gênero. Outra foi o aspecto político da cena. “As festas são muito políticas, são espaços de muito acolhimento para todo tipo de corpos e ficam muito cheias de mensagens políticas com protestos, manifestações artísticas, uma coisa que eu nunca tinha visto em nenhuma cena”, conta. O resultado desse contato é Tem conserto, terceiro álbum e, segundo ela, o mais verdadeiro de todos.

Clarice gosta de trabalhar com contrastes e, depois de quase se jogar pela janela ao som do violão fofo de Monomania e de politizar certos temas em Problema meu, ela decidiu falar sobre morte e depressão. Do agridoce pop desse primeiro disco ao eletrônico anos 1980 de Tem conserto, é sempre a experiência pessoal que pauta a cantora. “Achei que seria maneiro fazer uma coisa de pista”, conta.

Naturalmente, uma coisa aparentemente bem feliz, com sintetizadores estilo boate anos 1980, uma contribuição de Lucas Paiva, parceiro na produção do disco. “Chamei o Lucas porque já gostava muito do trabalho dele e sabia que ele curtia o eletrônico. E tem isso de que é muito fácil de fazer, você não precisa ter um piano, a gente fez o disco todo em casa.” Só que não há nada de feliz em Tem conserto.

Clarice sempre gosta de avisar que se alimenta da própria vida para compor. As letras são, portanto, espécies de crônicas autobiográficas cheias de ironias e metáforas capazes de despertar um riso nervoso contrabalanceado pelas melodias bonitinhas. Tem conserto, a música título, encerra o álbum e fala de pessoas quebradas, estragadas, de juntar os cacos e arrumar a bagunça ao som de uma lenta batida eletrônica em ritmo de marcha fúnebre executada por sintetizadores. Minha cabeça é um mantra sobre a angústia de uma mente acelerada e nem sempre coerente.

Mas o melhor está na bateria anos 1980 de Mal pra saúde, endereçada a um amor tóxico, e na fofinha, altamente sampleada e ousada Dia D, cujo o refrão “hoje eu vou dar” dá o recado. “Eu estava achando o disco muito pesado e esse é um momento de leveza. E de solidão, também. Tudo entra muito na coisa da ansiedade e da depressão. Dia D é uma música na qual eu queria muito tratar da coisa sexual de forma mais natural”, avisa Clarice. A leveza para por aí. Morte (Morrer tanto), perdas (Esvaziou) e depressão (Horizontalmente), Excessos (Só + 6) formam o cardápio do resto do disco. Em entrevista ao Correio, Clarice admite que, às vezes, exagera, mas com o propósito de se autoironizar. Em Tem conserto, ela se diz honesta e vulnerável.


>> entrevista Clarice Falcão

O disco é todo você?
Sou bem eu. Acho que nunca foi tanto eu justamente porque, nos outros discos, trabalhava muito com ironia, exagero, pegava eu mesmo e exagerava até um ponto que ficasse engraçado, ridículo. Não que eu não seja ridícula, mas vou esticar ao máximo para fins de humor. Gosto muito de fazer isso, é uma forma de se proteger. E esse disco, por não ser tão engraçado, é mais honesto. Acho que derrubei um pouco alguns escudos. Tem momentos engraçados, porque faz parte do jeito como me comunico e enxergo mundo, mas é vulnerável.

E é triste também….
Acho que o disco é muito triste, mesmo algumas músicas que parecem animadas, tipo Horizontalmente, que é um house sobre depressão. Fala sobre essas minhas experiências, mas eu fiquei muito agoniada de o disco ter uma mensagem contemplativa. Não queria que enaltecesse a depressão, queria que as pessoas se conectassem, não que se sentissem sozinhas, e queria terminar de forma esperançosa. Eu me sinto assim o tempo inteiro quebrada, mas, cara, tem conserto. Não sei como, estou descobrindo, mas tenho certeza que tem conserto. E quando digo isso não é uma cura. Acho que tem um jeito de você conviver com isso de forma equilibrada.

Pode falar um pouco de Mal pra saúde? Você concorda que é a música mais ácida do disco?
Todo mundo já passou por isso. Cara, é exatamente a sensação de quebrar a cara na porta. Você abriu, queria entrar e…. Não é só sobre rejeição, é que as pessoas não têm cuidado com os sentimentos das outras. E a gente entra nessa coisa de relacionamentos emocionalmente abusivos, ou fisicamente abusivos. Mas, na música, é tudo figurativo. E, às vezes, não é culpa do outro, tem relação que faz mal mesmo pra nossa saúde, às vezes a gente fica doente de verdade. Como lido com isso? Tentando sair. Mas é difícil, né?

Só 6 é uma música sobre excessos. Por que falar disso?
Total. Acho que tipo Minha cabeça é sobre ansiedade, Horizontalmente é sobre depressão. Dá um pouco para desenhar o disco, que é, obviamente, sobre mania, sobre excessos e exageros. Volta e meia me pego nessa situação, sair de um lugar para outro, não querer ir embora. Passei muito por isso no ano retrasado e acho que foi superimportante escrever a música e pensar sobre isso, começar a perceber. A gente tende a se rodear de pessoas e coisas para não ouvir os próprios pensamentos.


Tem conserto
De Clarice Falcão. Independente, 9 faixas.

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